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O peso do pedaço de papel


Por MAURO MORAIS

01/09/2015 às 07h00- Atualizada 01/09/2015 às 12h22

Série

Série “[Obscenas]”, de Júlia Milward, inclui fotografias compradas em mercado de pulgas

Para ilustrar seu trabalho, Júlia Milward lança mão do registro de sua primeira comunhão, vestida de branco, na capela da escola. “Sou eu, me lembro de um monte de coisas. De um amigo meu que achou que era broche um besouro pousado em mim. Me lembro dos gritos. Sei quem era o fotógrafo, porque era o mesmo de todos os eventos da escola. Me lembro das músicas. Só não me recordo do segundo em que posei para a foto. Ela existe e me faz lembrar disso tudo, só não faz voltar à memória o instante em que fui para o canto para ser fotografada. Não me lembro de terem me levado. Esse instante ficou gravado e, por causa dele, me recordo dos outros”, conta, para logo completar: “A fotografia não é uma coisa vista, é algo mais ou menos visto. Você viu, percebeu, mas, naquele instante, não viu”.

Há ruídos entre memória afetiva e imagem de registro. E eles estão no foco da loira de cabelos longos, olhos claros, gestos reduzidos e um sotaque que não deixa dúvidas sobre os anos em que viveu na França, estudando na Universidade de Paris 8 e na Escola Nacional Superior de Fotografia de Arles. Aos 31 anos, Júlia Milward, atualmente residindo em São Paulo, após concluir mestrado na Universidade de Brasília, investiga o complexo na fotografia. Fala da superfície sem se deixar superficial. Em “[planos planos]”, série que apresenta no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), na programação do “JF Foto 15”, a artista nascida no Rio e crescida em Juiz de Fora observa a fotografia como esse pedaço de papel plano, sobre o qual traça seu próprio plano de pesquisa.

“Meu interesse está em como subverter as formas como as fotografias são utilizadas, pensando: ‘o que é o ato de fotografar?’. O escritor Georges Perec fotografa escrevendo”, diz ela, que acaba de vencer o “Transborda Brasília – Prêmio de arte contemporânea”, que teve na banca os referenciais para o pensamento da produção de hoje no país, Agnaldo Farias, Cristiana Tejo, Fernando Cocchiarale, Marilia Panitz e Ralph Gehre. Além de ter seu trabalho adquirido no valor de R$ 6 mil, Júlia ganhou uma bolsa de estudos para o curso Dynamic Encounters Brasil, ministrado por Charles Watson, e acompanhamento crítico de trabalho e produção com a curadora Cristiana Tejo, pelo período de seis meses.

Atlas, obscenidades e cisões

A obra com a qual Júlia Milward tornou-se uma das principais vozes da cena contemporânea da capital federal está em cartaz em Juiz de Fora. Em “[Em algum lugar dos atlas]”, a artista se utiliza da experiência e da impressão do outro para fazer seu discurso sobre as muitas camadas que uma fotografia esconde. “Trabalho com fotos que achei, pousadas com cuidado, em uma caçamba em São Paulo. Convivi muito tempo com elas sem saber o que fazer. Não queria pesquisar quem eram as pessoas ou criar uma narrativa. Queria questionar a superfície”, pontua. “A primeira foto tem o nome de um hotel, e fui pesquisar, e ele está em uma cadeia montanhosa chamada Atlas. Peguei as fotos, escaneei, passei para P&B, imprimi em papel fotográfico e fiz a primeira intervenção – tirei o rosto dos personagens e pequenos riscos. Depois, escaneei de novo, fiz novas intervenções e por aí fui, até achar que deu”, esmiúça o processo.

Cada imagem contém diferentes camadas de intervenções que convivem no resultado final. “A fotografia tem isso, porque a pessoa não convive com as imagens quando são tiradas”, comenta. Ainda que o start de cada registro não tenha partido de sua mão, Júlia é enfática ao defender sua autoria. “Quando coloco meu ponto de vista sobre algo estou inscrevendo.” Já em “[Casos de cisão]”, uma imagem, como num papel de parede, aparece rasgada numa quina perto de um teto. “Há um estranhamento no olhar pela constatação de um corte na imagem e na perspectiva. Temos uma relação, um envolvimento afetivo com a fotografia. Se rasga, é como se o fizesse na realidade”, aponta.

“[Obscenas]” revela a fotografia como um simples objeto, cujo valor é dosado pela afetividade. “Essa série é sobre o que está fora da cena e vem de uma frase do poeta francês Emmanuel Hocquard, que tem um livro chamado ‘A teoria das mesas’: ‘A mesa é um sobre/uma frase não tem versão/uma fotografia não tem costas'”, conta, apresentando retratos de família, fotos compradas em mercados de pulgas – “a intimidade de um desconhecido” – com pequenos cortes, rabiscos e outras avarias que o tempo e o uso deram conta de fazer. “Não chamo de defeitos nas imagens, mas elementos que revelam que aquilo é um papel. Por isso viro as costas das imagens e uso em P&B, que está longe de ser a forma como enxergamos. Aquilo ali, então, não é nada além de uma ilusão”, defende. Sem, necessariamente, portar uma câmera, Júlia pensa o clique: os seus e os de todos. “O que é essa imagem que carrego comigo? Qual o peso do retrato de alguém?”, questiona.

[Planos planos]

De terça a sexta-feira, das 9h às 21h, e aos sábados e domingos, das 10h às 18h. Até 7 de setembro

Centro Cultural Bernardo Mascarenhas
(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)