A voz que não se calou
Aberta a porta, objetos e papéis espalhados pelo apartamento inabitado sugeriam um último pensamento: volto daqui a pouco. Talvez essa realmente tenha sido a mensagem deixada pelo poeta José Henrique da Cruz antes de sua morte em 2003. Inúmeros rascunhos de poemas, encontrados pelo amigo e designer Tadeu Costa, sustentam a ideia de que o escritor não queria parar. Sem ‘piração’, achei que tudo aquilo visto na casa dele após o acidente de carro dizia alguma coisa, lembra Tadeu. Dizia o quê? Ora, que José Henrique precisava ser editado e lido pelas novas gerações. Duas publicações, apoiadas pela Lei Murilo Mendes e com previsão de lançamento para maio, concretizam a vontade do artista nascido em Carangola (MG). A primeira, Manuscritos azuis, trata-se de uma antologia, e a segunda, O alfabeto do poeta, apresenta releitura de uma obra de 1982.
Conhecido por Mutum, nome de uma cidade mineira na qual morou com a família, José Henrique é tido como o continuador da poesia local. Ao longo dos corredores da Faculdade de Comunicação Social da UFJF, em 1976, Mutum e o jornalista e pesquisador Jorge Sanglard arquitetaram a trajetória do folheto Poesia ao lado dos também estudantes Walter Sebastião e Raquel Scarlatelli. Anos antes, a publicação havia sido lançada pelo professor Gilvan Procópio Ribeiro no Colégio Magister. Gilvan queria desenvolver a leitura e estimular a escrita dos alunos e viu que Mutum era um expoente, observa Jorge Sanglard. Ele conta ainda que o folheto Poesia foi precursor do movimento literário que contou com as revistas D’Lira, Bar Brazil, com Z de Zorro e Abre-alas.
Mil poemas
Segundo Tadeu Costa, José Henrique era um poeta compulsivo. Ao iniciar o desenvolvimento da antologia, o designer, responsável pelo projeto gráfico, precisou contratar um profissional para digitar quase mil poemas. Por mais de três anos, Costa e Maria Luiza Gomes da Cruz – irmã do escritor – organizaram todo o material e decidiram que ele deveria ser apresentado ao público em Juiz de Fora, já que a semente da obra foi plantada aqui. A iniciativa é uma homenagem a ele e traz um recorte especial da produção poética das décadas de 1970 e 1980, enfatiza Tadeu, lembrando que a edição do trabalho ficou por conta do autor Luiz Ruffato. Aliás, foi o próprio Ruffato quem descobriu o título Manuscritos azuis entre registros guardados.
Voraz e independente, Mutum, que se transferiu de vez para São Paulo em 1984, preocupava-se em publicar os escritos de jovens talentos e resgatar a criação de autores experientes ainda em silêncio. Assim menciona o diretor do Museu da Pessoa, José Santos, companheiro dos tempos da geração mimeógrafo e da vida paulista. José Henrique era tão generoso que acabou esquecendo de se editar. O escritor lançou somente Pequenos poemas, em 1979, e O alfabeto do poeta, em 1982.
Para Santos, os livros que acabam de sair do forno cumprem a função de emocionar leitores antigos, além de apresentar, aos olhos de hoje, os perfis lírico e satírico de Mutum. Ele escrevia quando estava apaixonado ou mal. Era uma cara mais de coração que de cérebro, embora tivesse muito conhecimento. Pena que não está mais aqui.









