‘Seu legado permanece vivo em cada história transformada’: agentes culturais lamentam perda de Toninho Dutra

Toninho Dutra deixa um legado de três gestões à frente da Funalfa e um extenso repertório de ações voltadas para o meio cultural


Por Beatriz Bath*

01/04/2026 às 15h20

toninho dutra
‘Toninho deixa como legado uma vida dedicada à arte e às pessoas que ela transforma’ (Foto: Marcelo Ribeiro/Arquivo TM)

Morreu, nesta quarta-feira (1º), aos 62 anos, Toninho Dutra, ator, autor, professor, diretor de teatro e ex-superintendente da Funalfa, em decorrência de um câncer. Seu corpo foi velado no Cemitério da Glória e será cremado em Matias Barbosa. Nas redes sociais, instituições, artistas e amigos lamentaram a perda e compartilharam o impacto de sua atuação na cena cultural de Juiz de Fora.

Seu nome é constantemente lembrado quando se fala de teatro em Juiz de Fora, de fomento cultural e da construção do Teatro Paschoal Carlos Magno, uma vez que Toninho foi um dos principais responsáveis pela entrega do equipamento cultural da Prefeitura de Juiz de Fora, inclusive articulando financiamentos, mesmo que  a inauguração tenha acontecido após sua gestão. Outras realizações importantes durante sua atuação na Funalfa foram a criação do Programa Gente em Primeiro Lugar e do Corredor da Folia.

‘Capacidade de ouvir e dialogar de forma clara’

Em nota, a Funalfa, inclusive, destacou que sua gestão na pasta foi rara: “Atravessou três administrações, de três prefeitos diferentes, e que angariou uma relação de confiança com a classe artística”. E segue: “É por isso que a trajetória de Toninho é dessas que vai além de cargos ou funções, se espalhando pelas salas de ensaio, pelos palcos, pelas políticas públicas que ajudou a consolidar, pelas pessoas que transformou e pelas quais também foi transformado”.

Luiz Cláudio Ribeiro, diretor do Cine-Theatro Central, também destacou a importância de Toninho para as políticas culturais da cidade. “Foi nesse período (quando Toninho ainda era superintendente) que eu tive um contato mais próximo com ele. Ele sempre lidou com tudo de uma forma muito democrática e transparente com os artistas da cidade. Ele obteve o respeito da classe artística da cidade, o que possibilitou que ele passasse por três mandatos como superintendente, justamente por sua capacidade de ouvir e dialogar de forma clara. Ninguém sem isso poderia passar por esse período e com ações tão relevantes para a cultura da cidade.”

O atual diretor-geral da Funalfa, Rogério Freitas, disse, também em nota, que conheceu Toninho ainda no ensino médio, época em que levaram adiante um grupo de teatro no CTU – o que mostra que sua vocação para a arte é antiga. “Entre os delírios e sonhos do início de nossa juventude ficava a certeza de que o caminho dele não poderia mais ser dissociado do teatro, arte que ele produziu, atuou e amou por toda vida. Acompanhei com atenção seu belíssimo trabalho à frente do CAIC Santa Cruz, uma inspiração. Depois veio a Funalfa, um esmero de gestão reconhecido por todos. Dirigiu a Funalfa com a mesma energia que dedicava a todas as produções que ele dirigiu e atuou”, segue a nota.

A prefeita Margarida Salomão também veio a público prestar suas condolências: “Toninho deixa uma trajetória marcada pelo compromisso com a cultura, com as pessoas e com a nossa cidade”, ressaltou. Junto a ela, entidades como a Pró-reitoria de Cultura da UFJF também lamentaram a morte de Toninho: “Artista generoso e agente cultural reconhecido, Toninho deixa como legado uma vida dedicada à arte e às pessoas que ela transforma”.

Gente em Primeiro Lugar e Teatro Paschoal

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(Foto: Marcelo Ribeiro/Arquivo TN)

Criado em 2009 durante a gestão de Toninho, o Gente em Primeiro Lugar é um dos programas mais essenciais em Juiz de Fora de formação artística e cultural. Em nota, o projeto lembrou da importância de um de seus criadores: “Um dos grandes responsáveis por transformar vidas por meio da cultura, abrindo caminhos e oportunidades para milhares de crianças, adolescentes e jovens de nossa cidade. Seu legado permanece vivo em cada história transformada, em cada talento revelado e em cada espaço ocupado pela cultura com dignidade e inclusão. Obrigado por tudo, Toninho”.

Nas redes sociais, José Luiz Ribeiro reiterou a importância de Toninho na retomada das obras do Teatro Paschoal Carlos Magno. “Sai de cena um grande guerreiro que lutou pelo Teatro Paschoal Carlos Magno. Toninho Dutra recebe a homenagem do Grupo Divulgação.” Em conversa com a Tribuna, o fundador e diretor do Divulgação lembrou que as obras do teatro ficaram quase quatro décadas paradas e foram finalizadas após suas gestões, em 2018. Na época, Bruno Siqueira era o prefeito da cidade, e José Luiz contou que foi Toninho quem o convenceu a dar seguimento.

Também em nota, a Associação de Produtores Artes Cênicas e Produção (APAC) expressou seus sentimentos, afirmando: “No que tange à APAC/JF, somos gratos por todo apoio conferido às nossas ações de fomento ao teatro, dança e demais linguagens cênicas. Toninho Dutra sai da cena da vida, mas seu nome estará para sempre no cartaz de nossa memória”.

Em 2022, a Sala de Giz teve a oportunidade de homenagear Toninho em vida, durante a realização do Festival de Teatro da casa. Bruno Quiossa e Felipe Moratori ainda disseram que ele foi “fundamental na criação das condições que permitiram o nosso encontro e a construção de uma cena que nos possibilitou permanecer e criar a Sala de Giz em Juiz de Fora”. Ambos relatam como a atuação multifacetada de Toninho em espaços como o Festival de Cenas Curtas e o Curso de Teatro do CCBM e o Programa Gente em Primeiro Lugar foram decisivos para a continuidade na cena cultural juiz-forana.

Importante também para o carnaval

A Liga Independente das Escolas de Samba de Juiz de Fora também relembrou a importância de Toninho para o carnaval: “Toninho Dutra manteve uma relação respeitosa, sensível e comprometida com as escolas de samba e com o fortalecimento do carnaval de nossa cidade. À frente da Funalfa, teve participação relevante no processo de antecipação dos desfiles carnavalescos, medida importante para a valorização da festa, para o fortalecimento das agremiações e para a reafirmação do carnaval como expressão legítima da cultura popular juiz-forana.”

*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy