Quatro espetáculos de Juiz de Fora chegam a Curitiba para o maior festival de teatro do país
Espetáculos ‘O homem célebre’, ‘Como cozinhar uma criança, ‘Versão demo’ e ‘Doce árido’ trazem diferentes perspectivas de insubmissão
Juiz de Fora vai marcar presença no Festival de Teatro de Curitiba, o maior evento dedicado à dramaturgia no Brasil, que acontece até 12 de abril. Dessa vez, a cidade será representada por meio da Mostra Insubmissa, que reúne quatro grupos de teatro diferentes montados como um coletivo temporário para apresentar as peças “O homem célebre”, “Como cozinhar uma criança”, “Versão demo” e “Doce árido”. Além dos espetáculos, eles também levam para a cidade um pocket show da Trupicada, duas cenas curtas da Trupe Qualquer (“Pharmakon” e “Mememento Mori”) e uma leitura dramatizada (do texto “Big Bang”). Apesar de trazerem uma diversidade de universos, passando por cozinhas do interior mineiro, histórias machadianas, releituras de mitos religiosos e a formação de uma criança, todas as apresentações buscam subverter estruturas e mostrar que a arte é uma forma de resistência.
Em diferentes perspectivas e também para diferentes públicos, Tairone Vale entende que as obras dialogam com o feminismo, o combate ao racismo, a não idiotização das crianças e abraçam a voz dos oprimidos e a importância do questionamento. “O homem célebre”, por exemplo, parte do personagem de um ator em crise, tendo sua estrutura construída como um compilado de vários contos de Machado de Assis. Já em “Doce árido”, que tem texto e direção dele, são colocadas em foco três mulheres fazedoras de doce isoladas no interior mineiro, abandonadas pelo poder público e que convivem com a escassez. Essa peça, que tem Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini no elenco, já esteve em cartaz em Juiz de Fora e foi um sucesso de público. Depois do festival, voltará para os palcos, no primeiro fim de semana de junho, no Teatro Paschoal Carlos Magno.
Já em “Versão demo”, ele explica que as grandes narrativas são contadas pelo ponto de vista do anjo caído, que é apontado como o grande culpado de tudo, mas que nunca teve a oportunidade de expor o ponto de vista dele. “É uma comédia que serve como fala de resistência sobre quem não tem voz”, diz Tairone. Por sua vez, “Como cozinhar uma criança” apresenta uma grande fábula em que dois cozinheiros refletem sobre o que é preciso para “preparar” as crianças para a vida. “Mas um acredita que o preparo dessas crianças deve ser com temperos como carinho, compreensão e empatia, e o outro não acredita nisso, porque acha que é preciso consumir o que as crianças têm de bom, porque depois que crescem já era”, explica ele.
Apesar de serem histórias muito diversas, o artista entende que o que as une é esse inconformismo. E que ter essa força vindo de Juiz de Fora é ainda mais importante. “Estamos levando essas histórias que passam pela nossa dramaturgia e a nossa criatividade, dentro de uma mostra só nossa, com o nosso sotaque a nossa cara. É muito empolgante”, diz ele. O festival costuma ter cerca de 400 peças acontecendo durante a programação, dividida entre a mostra principal e a paralela, e atrai olhares de diferentes camadas do universo teatral. “Podemos assistir obras e linguagens do país inteiro, e ainda apresentar a nossa. Ele abre portas para outros espaços e outras circulações. Pra gente que é artista, o importante é se conectar com pessoas e com fazedores de arte”, acrescenta ele.
A força do autoral
No caso das produções voltadas para o público infantojuvenil, alguns desafios são bastante evidentes: como, por exemplo, fazer com que as crianças consigam se desligar das telas e se conectar a uma história que está sendo contada ao vivo. Mas é uma conexão que Tairone entende que também está conseguindo ser criada com esse público. Outro desafio, por sua vez, é contar as histórias desejadas nesse cenário político polarizado, em que a arte é atacada, e levar temas que questionam o padrão (como a formação de uma família tradicional).
Durante o festival, eles vão fazer isso inclusive adotando o sistema de “pague quanto vale” ou “pague quanto pode”, como preferem chamar, permitindo que o valor se adeque ao espectador — uma novidade para os grupos até então. “Já que estamos levando tantos questionamentos, abrir essa possibilidade pro público também é deixar que contribuam de acordo com que se sintam tocados ou provocados”, explica Tairone.
Mas as expectativas estão grandes, justamente pelo que acreditam que é a força das produções: algo que também está presente em outras expressões artísticas de Juiz de Fora, como a música e a literatura. “Eu acho que a nossa maior potência talvez seja a força do autoral, da gente estar criando as nossas histórias baseadas nas nossas vivências e nas nossas angústias (…) Escolhemos nos reunir para executar essa mostra quase como se fôssemos um grande grupo com esse propósito”, destaca ele.













