Artistas de Juiz de Fora sofrem perdas e enfrentam dificuldades para se reestruturar

Tribuna entrevistou três artistas independentes que precisaram deixar suas casas e estão usando suas forças para criar, sejam novas formas de expressão ou recursos para continuar sustentando suas famílias


Por Elisabetta Mazocoli

01/03/2026 às 07h00

Com as chuvas que atingiram Juiz de Fora na última segunda-feira (23), a cidade toda mudou. Foram, até agora, 58 óbitos confirmados e milhares de desabrigados — cada pessoa teve a sua rotina impactada de uma maneira, inclusive os artistas da cidade, principalmente aqueles independentes e das periferias. Se shows foram cancelados e bares históricos tiveram alagamentos, toda a cultura perdeu, e ainda irá sentir os efeitos para muito além desta semana. A reportagem da Tribuna entrevistou três pessoas que precisaram deixar suas casas e estão com dificuldades de se reestruturar diante da tragédia, mas que precisam, mesmo assim, usar suas forças para criar — sejam novas formas de expressão, sejam recursos para continuar sustentando suas famílias. 

‘Perdi minha casa duas vezes’

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Dona Chapa conta que perdeu a casa duas vezes: primeiro, em um incêndio há poucos dias; agora, com as chuvas (Foto: Reprodução)

A artista Raiane Chagas Siqueira, de 28 anos, perdeu a casa em que morava com a filha Helena, de 5 anos, há cerca de duas semanas, antes das chuvas que mudaram a vida em Juiz de Fora começarem. “Eu tinha uma geladeira que ganhei de doação, e era muito antiga. A tomada estava dando uns estouros, e o fogo começou pela tomada, pegou no fio, na geladeira inteira e depois na cozinha toda”, relembra. Com o incêndio, ela teve que deixar o lugar que conhecia como lar e deixar que a proprietária, sua tia, a quem pagava aluguel, acionasse o seguro. Foi então para a casa de sua comadre, no Bairro Santa Clara, para recomeçar. É onde esteve até que, na madrugada de terça-feira (24), precisou deixar o lugar devido às fortes chuvas e à movimentação de terra. O local foi um dos atingidos pelos deslizamentos em Juiz de Fora.

Conhecida por muitos como a rapper, MC e mestre de cerimônia Dona Chapa, ela teve que alterar sua rotina para dar conta das dificuldades. Apesar de já trabalhar como autônoma e fazer “vários bicos”, está intensificando o trabalho fazendo faxinas em busca de reestruturar a família. No momento, ela está no Bairro Vitorino Braga, na casa de uma amiga, em um local considerado seguro, apesar de o bairro também ter sido fortemente atingido. Já a filha está na casa da avó paterna. “Eu não tenho uma rotina, estou ficando de casa em casa. Preferi que ela ficasse em segurança, sem mais esse trauma, sem ter que fazer esses trajetos sem saber o dia de amanhã”, contou. 

Não só pela sua realidade, mas também pela dos outros, a situação a deixou completamente abalada: está precisando de itens básicos, como móveis e roupas, e, além do trabalho, também fez uma vaquinha on-line em busca de ajuda. “Enquanto artista, a gente que vem da periferia ficou muito sentido. Não só por conta do que aconteceu comigo, mas por conta do que aconteceu com os meus. Todo lugar que tem morro tem um dos nossos”, conta. Por mais que leve tempo, ela acredita que vai conseguir se reestruturar. “Que eu conquiste o dobro, com muito trabalho e sacrifício”, diz.

‘Quase perdemos a nossa vida’

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Pedro Chediak, músico e produtor de Juiz de Fora, já havia entrado em contato com a Defesa Civil preocupado com a situação do córrego atrás de sua casa (Foto: Reprodução)

O músico e produtor Pedro Chediak estava no Bairro Vale do Ipê quando as chuvas começaram, nesta segunda-feira (23). A princípio, as chuvas tinham causado danos ao primeiro andar da casa com alagamentos, mas nada que indicasse a gravidade do que aconteceria nos dias seguintes: uma situação que nunca tinha sido vivenciada naquela casa, que pertencia à sua família há cerca de quarenta anos. Morador próximo do córrego com cachoeira do bairro, ele viu uma onda de cerca de 1,5 m invadindo a casa e rompendo o blindex da entrada, fazendo com que o primeiro andar inteiro alagasse em segundos e a água subisse até a altura da janela no segundo andar. 

Ele começou a ligar para os contatos que tinha de outros moradores do bairro e pedir ajuda pela janela do terceiro andar da casa. Foi então que viu outra vizinha que também pedia ajuda. Só conseguiu sair do imóvel quando outra pessoa, que até então ele não conhecia e que se identificou como um sargento da polícia, conseguiu nadar até onde ele estava e prestar ajuda para a família. “Naquele momento, eu estava em choque. Não consegui perguntar nada para ele”, lembra. Eles foram abrigados por outra moradora do bairro, que reconheceu sua namorada, pois trabalham no mesmo local. Mas ele ainda precisou voltar para a casa em busca do remédio de um familiar e sentiu um forte cheiro de gás. Precisaram entrar até o local para fechar os botijões, com medo de uma explosão acontecer. 

Apesar de morar há pouco tempo nesse local, Pedro já estava preocupado com a situação do córrego com as chuvas. “Eu estava há duas semanas ligando para a Defesa Civil já avisando que o nível da água ali estava muito alto”, conta. Os registros mostram que ele fez 15 ligações para o órgão no dia 9 deste mês. Mas, naquele momento, ele foi avisado de que a casa não estaria em risco e que a cachoeira e o córrego estavam controlados. Vários dos vizinhos também não acreditavam que algo assim pudesse acontecer. No momento, ele está abrigado na casa de um amigo da namorada e conseguiu levar alguns equipamentos que usa no trabalho para fora da casa, como notebook, microfone, equipamentos de gravação e sintetizador. Mas fazer a instalação como um estúdio de maneira provisória não é possível. “Eu não tenho como pegar as minhas coisas e montar num lugar agora, porque eu não tenho um espaço específico de trabalho”, explica.

Apesar de ter trabalhos autorais, a renda dele vem principalmente de projetos de produção — o que foi bastante impactado neste momento. “Eu não tenho como ter referência ou monitoramento para poder fazer as mixagens. Então, todos os trabalhos que estavam na minha mão para eu entregar estão em pausa indefinida”, diz. Mesmo os trabalhos que realiza por conta própria também precisaram ser adiados. “Eu não tenho nada para criar, eu acredito que quando passar o choque, eu vou conseguir até usar isso que aconteceu como um combustível de alguma forma, mas como inspiração assim jamais, porque na minha visão a gente quase perdeu a nossa vida, foi uma coisa muito traumática”, conta. 

A sua gravadora está organizando um movimento on-line para tentar angariar recursos para que ele se reestruture e também para ajudar outras famílias da cidade. Ele conta que não é a primeira vez que fazem isso: também se mobilizaram em prol das famílias atingidas pela enchente no Sul e pelas pessoas trans que estavam em situação de rua durante a pandemia de Covid-19. “Para mim, a arte serve para abrir os olhos das pessoas de todas as formas possíveis. No momento de emergência, de perigo, se eu sou um artista que estou em segurança, como agora infelizmente não foi o meu caso, mas em outros momentos já foi, acredito que esse trabalho social é muito importante”, diz. 

‘Neste momento, preciso trabalhar’

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Ateliê de Gabi Gonçalves fica em sua casa, que precisou ser esvaziada por risco de desabamento de um prédio próximo ao seu (Foto: Reprodução)

Gabi Gonçalves é artista e dona da marca de bolsas Maria Buzina já há duas décadas. Ela trabalha no ateliê montado em sua casa, no Bairro Paineiras, onde pode acompanhar o dia a dia de suas filhas, de 17 e 15 anos, enquanto lava as lonas que usa nas peças e pode criar cada uma delas artesanalmente. Essa é a rotina que manteve até segunda-feira, quando, no começo da madrugada, começou a escutar um barulho que lembrou a ela de um ônibus sendo arrastado pelo asfalto. “O barulho foi aumentando e a sensação era de que estava se aproximando de mim. Fiquei desesperada para entender o que estava acontecendo e comecei a ver que tinha algo batendo na minha parede”, diz. 

Ela, as filhas e a gata, Gal, saíram de casa para a portaria do prédio, onde outros moradores se reuniam, assustados e sem entender o que acontecia no Bairro Paineiras. “Foi uma cena de terror. Os vizinhos do prédio em cima, que estava afetado, estavam gritando por socorro e tinham crianças chorando”, conta.  A família pegou uma muda de roupa, documento e celular e foi para a casa de uma amiga dela, onde tentaram, sem sucesso, dormir. “Todo barulho, eu achava que era outro deslizamento”, relembra. 

No dia seguinte, entendendo a gravidade das chuvas que atingiram a cidade e especificamente o bairro, um engenheiro que estava se disponibilizando a ajudar os atingidos foi até a sua casa para conferir se era seguro. Ele afirmou que, apesar de o prédio dela não ter risco de desabamento, o prédio que foi afetado na rua de cima faz divisa com o quintal dela. “Eu ainda não consegui um auxílio oficial para dizer se o prédio que foi afetado atrás do meu, que está tomado de lama, teve a estrutura afetada ou não. Para isso, tem que tirar a lama toda, mas até isso acontecer, não sei quanto tempo vai demorar”, relata. A situação, enquanto artista, lembrou-a da pandemia de Covid-19, em que não sabia o que fazer, se o mundo continuaria no dia seguinte ou se a família teria o que comer.

Mesmo assim, entende que muitas pessoas atingidas estão em uma realidade pior que a dela, que continua hospedada na casa dessa amiga. “Tenho alimentação, tenho cama, tenho lugar para tomar banho. O que estou precisando mais, neste momento, é trabalhar. Esta semana tinha várias contas para pagar com as vendas, mas não pude terminar de produzir o que pretendia”, explica. Com as dificuldades de produção persistindo nos próximos dias, ela entende que toda a sua produção artesanal irá se atrasar, já que o ateliê fica dentro de sua casa. O que fez, no momento, foi postar um vídeo explicando sobre a situação e disponibilizando encomendas, que se colocou para entregar em 2 ou 3 meses, conforme conseguir se reorganizar para continuar a vida como única responsável financeira pelas duas filhas. 


Para ela, arte e cultura não acontecem só quando o artista tem o que expor ou vender. É uma forma de ver o mundo — inclusive, ou principalmente, no momento de desespero e tragédia. “Arte tem a ver com ouvir, observar, se preparar, ter estratégia caso algo aconteça que não está dentro das nossas previsões. Quando trabalhamos com arte e com cultura, a gente observa, a gente ouve tudo em volta e experimenta, pesquisa e se disponibiliza para conhecer situações diferentes da nossa. (…) Quando só pensamos em resultados financeiros e não observamos culturalmente para entender o que está acontecendo, o que envolve todas as pessoas e todas as realidades das pessoas, perdemos”, reflete.

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