Fim do mundo, outra vez
Mais uma vez, "anunciaram e garantiram que o mundo vai acabar". Volta e meia, a situação que o sambista Assis Valente transformou em piada na canção "E o mundo não se acabou" volta a assustar os mais impressionáveis e aguçar a imaginação dos artistas. Na ocasião do samba, em 1938, corria na boca do povo que o Cometa Halley selaria os dias da humanidade na Terra com uma grande colisão. Em 2012, uma suposta profecia Maia garantiria que o fim do planeta tem data marcada: 21 de dezembro. Invenção ou não, a previsão já rendeu filme, livros e documentários na TV. Em outras épocas, não foi diferente. Há tempos o apocalipse inspira criações artísticas, despertando uma lado soturno, mas também pitoresco da natureza humana.
Aqueles que não assistiram ao fim do mundo na virada do milênio, ou na passagem de algum cometa, agora esperam por 2012, ano com uma conjuntura de previsões misteriosas, com destaque para as profecias do calendário maia. Segundo esses escritos, o dia 21 de dezembro marcaria um realinhamento cósmico e o fim de uma era na humanidade. Nas interpretações mais catastróficas, haveria um cataclisma na Terra, mas, na opinião de astrônomos e cientistas, a data sinalizaria apenas o início de um novo ciclo dentro da cultura maia.
Entre coincidências e desmentidos, sobram casos semelhantes de previsões catastróficas no documentário "O apocalipse maia", da Discovery Channel. Dividida em três episódios, a série mostra as evidências arqueológicas deixadas pela civilização Maia e os efeitos que elas têm causado ao serem reinterpretadas e disseminadas pela internet. O filme mostra comunidades que estão se preparando para um desastre global no fim de 2012 e inventores que estão ganhando dinheiro ao criar abrigos projetados para resistir ao suposto cataclisma.
Da piada à catástrofe
O cinema hollywoodiano pode ser considerado especialista em ganhar dinheiro com as previsões de fim do mundo. Lançado há dois anos, o filme "2012" antecipou o cataclisma maia nas telas, promovendo uma demolição geral do planeta, que inclui o nosso Cristo Redentor. Depois de uma sequência de cenas de tsunamis, e sem maiores explicações, o trailer do filme pedia que os espectadores descobrissem "a verdade", clicando 2012 no site de buscas Google.
Dessa maneira, a publicidade do longa recorria ao principal instrumento de disseminação da suposta profecia maia, a internet. Na época, o estúdio também lançou um site de marketing viral operado pelo fictício Institute for Human Continuity, em que os cinéfilos poderiam solicitar um número de sorteio para ser parte de uma pequena população que seria resgatada da destruição global. A estratégia foi duramente criticada pelo conteúdo excessivamente apelativo, que motivou relatos de tentativas de suicídios e casos de crianças guardando dinheiro para comprar um lugar na tal cápsula.
Na década de 1930, quando Assis Valente compôs "E o mundo não se acabou", houve histórias semelhantes de pessoas que tentaram acabar com a própria vida antes da chegada do apocalipse. Mas o sambista tratou de empregar seu bom-humor ao narrar as confusões protagonizadas por quem acreditou no fim dos tempos e acabou aproveitando para fazer o que não devia. Como nada aconteceu, amanheceram com ressaca moral e tendo que dar satisfação dos atos da véspera.
Palavra do profeta
Há 12 anos, a virada do milênio trouxe agitação semelhante, baseada em versos do profeta Nostradamus, dizendo que a humanidade não chegaria ao ano 2000. Aliás, as previsões do médico francês, que viveu no século XVI, já renderam filmes ("As profecias de Nostradamus", "O homem que viu o amanhã"), uma peça escrita pelo dramaturgo Doc Comparato na década de 1980, além de uma música satírica de Eduardo Dusek.
Além de Valente e Dusek, o cantor Moska também deu sua contribuição às canções apocalípticas. Em "O que você faria", ele questiona como as pessoas se comportariam diante do fim iminente. A propósito, a música foi feita sob encomenda para a trilha sonora de "O fim do mundo", da Rede Globo. Exibida em 1996, no inédito formato de micronovela em horário nobre, a trama de Dias Gomes explorava os efeitos de uma previsão feita pelo paranormal Joãozinho da Dagmar (Paulo Betti) sobre a população de uma pequena cidade do interior.
Em pânico, os cidadãos correm para aproveitar seus últimos dias, fazendo tudo o que era proibido em tempos normais. Entretanto, depois de uma série de eventos estranhos, a rotina volta ao normal, deixando muita gente em situação desconfortável. Mais uma vez, vale a clássica lição do samba de Assis Valente. Lição que pode servir para quem acredita no apocalipse de 2012. Pois vai que,como na canção, o mundo não se acabe.
Na cauda do cometa
As pessoas que se desesperaram com a previsão de uma colisão com o cometa Halley em 1939, se esqueceram de que, em 1911, o mesmo cometa havia passado próximo da Terra sem maiores efeitos. O acontecimento serviu para provocar a imaginação do poeta Murilo Mendes, que na época tinha apenas 9 anos de idade. Tempos mais tarde, o próprio escritor apontaria o evento como um dos fatores que o despertaram para a poesia. "Passagem do Cometa Halley. A subversão da vista. A primeira idéia do cosmo", escreveu.
Setenta e seis anos depois, em 1986, quando se aproximou novamente da Terra, o astro inspirou outro artista da cidade, o pintor, desenhista, fotógrafo, gravador e professor Leonino Leão. Inspirado não só pela mística do cometa, mas também pelos versos de Murilo Mendes, ele traçou uma ponte entre a poesia e a imagem artística na exposição "Alumbramentos poéticos", realizada no final de 2010 no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), com as duas obras.









