Prédio tombado se deteriora e aguarda reforma há um ano

Cartaz em janela do Palacete Santa Mafalda mostra descontentamento da população com a educação pública

Luminária do prédio está solta e ameaça pedestres que passam pelo local

Paredes estão soltando devido a ação do tempo; prédio também é alvo de pichações
Luminária caindo, janelas podres, paredes esburacadas, madeiras e arames soltos. É esta a cena observada por quem passa em frente ao Palacete Santa Mafalda, que abrigava o Grupo Central, na Avenida Rio Branco esquina com Rua Braz Bernardino, no Centro, um dos patrimônios culturais da cidade. Aguardando há mais de um ano por reforma e restauração, o prédio está cada dia mais depredado pela ação do tempo e do homem. “Tenho medo de passar aqui, tem que olhar para ver se não vai cair nada em cima da gente. Está bem velho”, preocupa-se a auxiliar de escritório Aline Cristina de Assis. Já a aposentada Luizinha Soares Moreira quer ver o imóvel ganhar vida útil. “Minha irmã já deu aula aqui há muitos anos. As coisas não eram assim não. Precisa restaurar. Vai ficar bonito, e é de fácil localização para os alunos da escola.” O professor de música Havilá Sa Freire de Souza Júnior fala que gostaria de ver o patrimônio sendo usado em prol da cultura. “Eu acho que o colégio deve voltar para cá. Tem que reformar o prédio e fazer alguma coisa com ele. Ou a escola volta ou se faz algo voltado para a cultura, como museu, biblioteca.”
Para viabilizar a reforma, os alunos da Escola Estadual Delfim Moreira, conhecido como Grupo Central, foram transferidos para um prédio na Rua Santo Antônio esquina com Rua Fernando Lobo, em agosto do ano passado, cujo aluguel mensal é de R$ 37 mil. Professores e alunos reclamam da ausência de quadra esportiva e da insalubridade das salas da instalação atual. “Eu prefiro o da Rio Branco. Lá é ambiente de escola. Aqui é apertado. Na hora do intervalo, fica uma muvuca no corredor”, reclama a aluna Myllenna Moreira, 16 anos. “Aqui as coisas estão muito bagunçadas. Não tem quadra e nem material para educação física. No outro prédio, a minha sala estava com buraco no chão. Mas o espaço lá era bom. Só precisava de uma reforma”, completa o estudante Vitor Delgado, 18.
No entanto, mesmo após a transferência, as obras ainda não começaram. De acordo com o arquiteto da Divisão de Patrimônio Cultural (Dipac) da Funalfa, Paulo Gawryszewski, o projeto de reforma e restauração foi finalizado e enviado para aprovação do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac). O conselho fez algumas considerações, que foram encaminhadas para o escritório de arquitetura que elaborou o projeto, para a Superintendência Regional de Educação e para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG). Após o escritório de arquitetura realizar as adequações, o Comppac fará nova análise do projeto, antes de aprová-lo.
O diretor regional do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE), Givanildo Guimarães Reis, avalia como “falta de interesse” do Governo estadual a demora para o começo dos trabalhos. “No início, eles alegaram que não tinha o dinheiro para fazer a reforma. E agora estão gastando R$ 37 mil com aluguel. Em dez meses, são R$ 370 mil. Esse dinheiro poderia ter sido usado para realizar a reforma antes de chegar ao ponto que chegou. O que temos é uma má administração do dinheiro público.”
História
A questão histórica é enfatizada pela professora de inglês do Delfim Moreira, Roseane Salmu Lima, que vê o Palacete Santa Mafalda como importante para a história da cidade. Ele foi construído no final da década de 1850 pelo comendador Manoel do Vale Amado, rico proprietário rural que desejava homenagear Dom Pedro II em sua primeira visita a Juiz de Fora. Ao chegar à cidade em 1861, o imperador utilizou o casarão para a assinatura de importantes documentos. Recusou, porém, a oferta do comendador para que ficasse com o imóvel de presente, dizendo que só aceitaria se ele fosse doado ao Estado para abrigar uma escola ou obra de caridade. Magoado, Manoel do Vale Amado decidiu que a casa jamais seria habitada. O local só foi reaberto em 1904. Ele foi tombado em 1983 pelo Patrimônio Histórico do município.
Projeto passa por adequações
O projeto de reforma e restauração do Palacete Santa Mafalda passa por adequações solicitadas pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac). A obra somente será licitada e executada após aprovação do Comppac. Segundo o arquiteto da Divisão de Patrimônio Cultural (Dipac) da Funalfa, Paulo Gawryszewski, o projeto é bastante consistente, composto por 45 pranchas. Ele enfatiza que esse tipo de trabalho demanda um tempo maior. “O desenho é a materialização de um conceito, de uma ideia, que é discutida com o proprietário até chegar a um consenso. Neste caso, é uma área bastante grande que tem que ser restaurada. No prédio são tombadas a fachada para a Rio Branco, a entrada, a escada, a volumetria, a caixa original e ainda tem um acréscimo lateral na Rua Braz Bernardino. O esquema desse acréscimo tem que ser preservado também. O projeto não altera, mas faz algumas propostas de melhorias.”
A Secretaria de Estado de Educação (SEE) informou que o projeto custou cerca de R$ 200 mil. A assessoria esclarece ainda que, como o edifício é tombado, o esboço de reforma e restauro exige uma série de especificidades. Após as alterações no projeto e aprovação do Comppac, o próximo passo será a licitação e contratação de empresa para execução das obras. O preço da reforma não foi divulgado, pois irá depender da licitação.









