Cidade Alta vive onda de arrombamentos

Janela é arrombada em propriedade no Viña del Mar
Uma recente onda de crimes em residências e estabelecimentos comerciais tem causado medo na população da Cidade Alta. A região, que apresenta um dos maiores crescimentos populacionais e territoriais dos últimos dez anos em Juiz de Fora, sente também na questão da insegurança o impacto desta explosão. Constituída por cerca de 50 bairros e aproximadamente 40 mil habitantes, a área enfrenta problemas relacionados à criminalidade. No Viña del Mar, nove residências foram alvo de arrombadores nas últimas semanas. Algumas propriedades foram invadidas mais de uma vez. O que chama a atenção é a proximidade das granjas visadas pelos bandidos, algumas estão uma do lado da outra, sugerindo que os crimes sejam planejados, já que também aconteceram em dias seguidos. Além de pertences furtados, os criminosos deixaram um rastro de prejuízos, com portas, portões e janelas danificados, vidros quebrados, cercas de arames rasgadas e móveis revirados.
No último dia 23, uma residência foi furtada na Rua Edmundo Migueletto, no São Pedro. A casa teve a porta da cozinha arrombada, a cerca de arame no muro dos fundos arrebentada e os cômodos bagunçados. Os criminosos levaram duas televisões, smartphone, home theater, roupas e cinco garrafas de vinho. O comércio, cada vez mais variado, também atrai a ação dos bandidos.
Na Avenida Presidente Costa e Silva, no São Pedro, onde se concentra a maioria das lojas, uma padaria teve a porta de aço arrombada, possivelmente com uma barra de ferro que serviu de marreta, permitindo a entrada do ladrão, cuja ação foi registrada pelas câmeras de segurança, na madrugada do último dia 16. Na mesma rua, de maneira mais ousada, um homem com capacete entrou em outra padaria, colocou um revólver em cima do balcão e anunciou o assalto, em 9 de agosto. Casos como estes já aconteceram com mais frequência em outros anos, apresentaram queda, mas voltam a amedrontar comerciantes e moradores, ainda mais depois que uma idosa de 78 anos foi vítima de latrocínio, em maio, dentro da própria residência, na Avenida Senhor dos Passos, no São Pedro. A aposentada foi encontrada sem vida na cama do quarto, com um televisor sobre o corpo, entre o pescoço e o rosto. Menos de 24 horas após o crime, dois homens foram presos suspeitos de cometerem o assassinato. Eles roubaram R$ 100 e bijuterias.
Duas invasões
A dona de casa Lilian Matta, 48 anos, teve sua propriedade invadida e furtada duas vezes em uma única semana, na Rua B, no Viña del Mar. Os intrusos cortaram a cerca de arame dos fundos. Na primeira vez, levaram o que acharam na área externa do imóvel, como máquina para cortar grama, bicicleta e uma lavadora de alta pressão. Na última, chegaram a fazer uma trouxa, na qual depositaram diversos materiais, mas se assustaram e deixaram tudo para trás antes da fuga. "Nos fundos da minha residência, fica o trecho onde termina a obra inacabada da BR-440. O local não tem iluminação pública e não oferece recursos para impedir o acesso de pessoas. Essas facilidades têm contribuído para esta onda de furtos que estamos enfrentando", afirma a moradora. Em outro imóvel, na mesma rua, a porta foi arrombada, sendo furtadas uma lavadora de alta pressão e garrafas de uísque importado. Os cômodos ficaram revirados. "Eles entram pelos fundos da granja, que dá para a BR-440, e não respeitam nem os cães. Não há policiamento, facilitando a ação dos criminosos. Eu morava lá e decidi vir para o Centro, deixando o local para o fim de semana, porque sentimos insegurança. Não sou contra o progresso, mas ele precisa chegar acompanhado de segurança", diz o psicólogo Augusto José Ribeiro, 66, dono da propriedade.
‘Não estamos tendo sossego’
Conforme dados do IBGE, a Cidade Alta apresentou um crescimento de 32% no número de habitantes, no período entre 2000 e 2010. A chegada de novos condomínios de classe média-alta, de conjuntos de casas populares e o fácil acesso à BR-040 resultaram no incremento do comércio da região, sendo a Avenida Presidente Costa e Silva a via onde mais se percebe as mudanças. A população passou a ter que conviver com o maior movimento no trânsito e com um fluxo maior de pessoas. Além disso, os hábitos do interior foram sendo deixados de lado diante da criminalidade.
O comércio precisa se equipar com sistemas de vigilância. Mas isso não tem sido suficiente para coibir arrombadores. No caso da padaria de Marcilene Coelho de Amorim, 39, a invasão ocorreu de madrugada e foi toda gravada. Nas imagens, é possível ver o desespero do bandido ao encontrar uma quantia reduzida no caixa. Ele arrancou a gaveta onde só havia moedas. No total, foram furtados R$ 50 e maços de cigarro. "Sei que a polícia tenta fazer sua parte, mas isso não adianta. O rapaz que entrou na minha padaria já foi preso e foi solto. Sabemos que ele já foi detido outras vezes e sempre volta à liberdade. Quando está nas ruas, os furtos voltam a acontecer e já foi visto na feira vendendo materiais furtados no comércio da região."
Proprietária de uma academia de ginástica na Rua José Lourenço, Andreia Souza, 45, conta que seu estabelecimento já foi alvo dos arrombadores quatro vezes. "Todas as ocorrências aconteceram no fim de semana e seguidamente. Na primeira vez, tivemos prejuízo de R$ 70. Na segunda, tentaram entrar, mas não conseguiram. Na outra, entraram e levaram uma caixa de chocolate e, na última vez, em 16 de agosto, furtaram uma TV de 45 polegadas, além de quebrarem dois vidros e um espelho. Estamos com medo e, depois dos quatro casos, instalamos câmeras em toda a academia. Também procuramos não deixar mais dinheiro no estabelecimento".
Alexandre Assad, 40, dono de um buffet na Rua Pedro Henrique Krambeck, no São Pedro, também teve seu depósito invadido, em 15 de agosto. "Pularam o muro e arrombaram uma grade e uma janela, chegando a um dos nossos refrigeradores. Levaram garrafas de refrigerantes e fardos de linguiça. Só não furtaram mais, porque o alarme disparou", afirma Alexandre, ressaltando: "A Cidade Alta cresceu muito rápido, e o contingente policial ficou estagnado, sendo impossível dar conta de atender a demanda de toda a comunidade." No último dia 25, o estabelecimento sofreu nova ação criminosa. O ladrão teria tentado arrombar uma grade, mas desistiu depois de perceber que havia uma segunda proteção. Ele então seguiu até a cozinha, que tem janelas de vidro, destravou um trinco e conseguiu pegar um espremedor de suco. "Está muito difícil. Não estamos tendo sossego", disse o proprietário.
Há relatos de que os crimes estão sendo praticados até por três pessoas e que, para evitá-los, empresários estão dormindo no local de trabalho.
Condomínios fechados não estão imunes
Para o cientista social e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Políticas de Controle Social da UFJF, André Moysés Gaio, o crescimento desordenado da Cidade Alta e sua ocupação por setores da classe média-alta em condomínios fechados alimenta o aumento da taxa de criminalidade. "O crime vai atrás do dinheiro. Uma grande ilusão é a de que um condomínio fechado é imune à ocorrência de crimes. Muitos estudos demonstraram uma certa rotina criminosa, seja doméstica, seja por agressores externos aos condomínios fechados, sendo os furtos geralmente mais comuns." Ainda segundo o especialista, o fato de também ser uma área de ocupação recente cria um problema de relacionamento entre vizinhos, em que quem mora ao lado, por qualquer ato que seja perpetrado, pode ser visto como um potencial agressor. "Nesses casos, faltam canais de comunicação entre os novos moradores da região. A Cidade Alta, especialmente o São Pedro, também já começou a ser ocupada por prostitutas, cujo trabalho, muitas vezes, é acompanhado por pequenas ocorrências."
Conforme o titular da 2ª Delegacia de Polícia Civil, que investiga crimes na Cidade Alta, Roney Cabral, os trabalhos dos policiais na área apontam que, na maioria das vezes, os delitos são praticados pelas mesmas pessoas nos diferentes bairros onde são registrados. Ele não acredita que bandidos estejam migrando para praticar crimes e que estes são realizados por ladrões que moram na região. O policial também afirma que os furtos são cometidos, em muitas ocasiões, por usuários de crack como forma de sustentar o vício. "Outra questão que percebemos em nossas apurações é que a maioria das propriedades furtadas está vazia, funcionando como casas de veraneio. Isso facilita o acesso dos arrombadores. Estamos trabalhando na identificação dos suspeitos a fim de efetuar as prisões."
Apesar dos casos relatos por moradores e comerciantes, a Polícia Militar registrou queda de 42% nos crimes de furto qualificados à residência entre 2011 e 2012. No que diz respeito a furtos a estabelecimentos, a corporação afirma que os índices permaneceram os mesmos se comparados ao ano passado, com uma média de três casos por mês. Quanto ao aumento da criminalidade na Cidade Alta estar ligada ao crescimento econômico e populacional da região, a assessoria da 4ª Região de Polícia Militar (RPM) informou que a instituição está acessível à comunidade, por meio do 190, sendo responsável por registros diversos, desde o atrito verbal, perda de documentos, perturbação do sossego, acidente de trânsito, vias de fato, furtos, crimes não violentos e crimes violentos, sugerindo que, com o crescimento da população, a demanda também é crescente. Aponta também que a média de tempo de deslocamento para atendimento de ocorrências é de 15 a 20 minutos. Nos casos de prisão em flagrante, não há como estabelecer um tempo determinado.
Tentativa de unir comerciantes
Desde maio deste ano, o programa "Rede de comerciantes protegidos" foi ativado na Cidade Alta. Conforme a assessoria da 4ª Região de Polícia Militar, embora cerca de 120 representantes do centro comercial de São Pedro tenham sido notificados para a reunião de mobilização da rede, somente 20 compareceram. Na ocasião, a corporação ressaltou que a segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, devendo a comunidade participar do processo, com sugestões, informações e mobilização. A iniciativa é buscar melhorias na prestação do serviço e, desta forma, trabalhar inicialmente com os interessados, visando a expandir para os demais.
Quanto aos furtos no Bairro Viña del Mar, como aponta a PM, aconteceram, na maioria dos casos, em função de objetos deixados nos quintais, sendo um atrativo para os infratores. A informação é de que foi agendada uma reunião com os moradores para discutir a situação. Também será ministrada uma palestra de medidas protetivas, visando a alertar sobre a necessidade de adoção de normas de segurança e criação de uma patrulha voltada para a questão dos furtos na localidade.
Suspeitos identificados
De acordo com a 4ªRPM, dois indivíduos envolvidos com a prática de furto nos arredores da Avenida Presidente Costa e Silva, no São Pedro, já foram identificados e possuem uma extensa ficha criminal e de prisões. Um deles, suspeito de furtar a padaria, no último dia 16, foi preso em flagrante no dia 19, quando arrombou um horto, danificando vários veículos, sendo preso em flagrante após rastreamento e conduzido à delegacia, culminando na confirmação da sua prisão. Contudo, segundo a PM, em 23 de agosto, o suspeito já estava solto. A PM ainda destaca que o infrator, antes de ser preso, estava em liberdade provisória.
Diante do quadro, a Polícia Militar oficiou o Ministério Público, relatando tal questão. Além de registrar o furto na padaria, os policiais conduziram a vítima à delegacia para que formulasse a queixa. A PM afirma que são vários autores com diversas passagens e que estão em liberdade, estimulando a prática delituosa, cabendo à sociedade estar ciente da situação e solicitar a responsabilização penal dos infratores. A assessoria enfatiza que "a Polícia Militar é parte de uma engrenagem do sistema de defesa social e não o próprio sistema e, por ser acessível à população, é mais cobrada".








