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Oferta de vagas em JF não garante bons salários


Por Mariana Nicodemus

30/10/2012 às 17h25

Estrategicamente localizada no principal eixo industrial brasileiro, no coração da região Sudeste, e sede de 13 instituições de ensino superior que formam – e exportam – mão de obra qualificada, Juiz de Fora parece ter se acostumado ao slogan "boa para viver, ruim para ganhar dinheiro". Com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado (0,828 em máximo de 1) e o quinto maior PIB do estado, a cidade tem a terceira pior média salarial entre as dez maiores economias mineiras, de acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2010 (ver quadro). O salário médio de R$ 1.346,96 é 8,11% menor que a média estadual e 33,23% inferior à de Belo Horizonte. Ainda que a dinâmica da geração de emprego e renda tenha se acelerado nos últimos anos, o desafio da Administração Municipal passa, agora, pela criação de um ambiente econômico e tributário favorável à abertura de empregos de maior valor agregado e pela diversificação setorial, já que hoje se aposta prioritariamente em serviços e comércio.

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"Nos últimos anos, temos mais emprego quantitativamente falando, mas os salários continuam crescendo muito lentamente", atesta o professor do departamento de Ciências Sociais da UFJF Eduardo Salomão Condé, mestre em ciências políticas e doutor em economia aplicada. De fato, Juiz de Fora terminou 2011 com mais 5.778 postos formais de trabalho, mas destes, 2.280  – ou quase 40% do total -, ofereciam salários de até R$ 565,15, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Mais de 65% dos cerca de 135 mil trabalhadores com carteira assinada no município ganham até dois salários mínimos.

Além disso, há barreiras na qualificação. "A formação de capital humano tem em Juiz de Fora um importante centro. Entretanto, mesmo com a escolarização se ampliando, ainda existe um gargalo no ensino médio", destaca Condé. Conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 71,6% dos eleitores juiz-foranos não têm o ensino médio completo. "A economia não ajuda muito, pelas características do setor de serviços e comércio. Ainda quando os segmentos são mais inovadores, os patamares salariais são adaptados ao mercado local."

De acordo com o  IBGE, os dois setores respondem por 72% do PIB municipal e empregam 69% da mão de obra, com remunerações médias de R$ 1.378,75, para quem é prestador de serviços, e de R$ 788,44, para aqueles que atuam no comércio.  Mesmo nos segmentos mais afeitos à tecnologia e à inovação, os salários oferecidos confirmam-se como empecilho para retenção de profissionais qualificados. Nas empresas de tecnologia da informação e comunicação, por exemplo, os vencimentos são 57% inferiores à média nacional, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação.

Para Eduardo Condé, é interessante que se mantenha o setor de serviços forte, principalmente nas áreas de medicina, engenharia, educação e treinamento, ofertando empregos a profissionais que possam manter e ampliar o movimento de capacitação e qualificação a toda a economia. No entanto, o professor acredita que haja necessidade de operar, em conjunto, fatores tributários, políticas de atratividade e estratégias de planejamento que ofereçam melhores oportunidades a segmentos inovadores. "A cidade não expulsa, propriamente, trabalhadores, mas oferece menos condições de dinamismo para a inovação, além de ter construído uma base de remuneração pouco atrativa aos setores já existentes. Aqui se exporta pouco, a indústria que aqui se instala é tradicional, e polos criativos, como design de produtos, por exemplo, passam longe. "

O diretor da Faculdade de Economia da UFJF, Lourival Batista de Oliveira Júnior, concorda que a diversificação setorial é necessária, a fim de criar um ambiente favorável à retenção de mão de obra especializada. "É preciso criar oportunidades para que as pessoas fiquem na cidade, se mantenham empregadas e tenham perspectivas de crescimento profissional. O mercado de trabalho não tem fronteiras fechadas, então, qualquer cidade que queira crescer, precisa, constantemente, ofertar algo para que a população não migre.", avalia.

Identificação das próprias demandas
Para o vice-coordenador do programa de pós-graduação em economia aplicada da UFJF, Ricardo Freguglia, pesquisador de economia do trabalho, o primeiro passo /para a atração de empregos com salários melhores é identificar as demandas do município e o que os trabalhadores locais ofertam. "Será que a cidade precisa ‘importar’ mão de obra, ou há profissionais que não são aproveitados? Essas perguntas precisam ser respondidas para, então, se pensar em políticas públicas para emprego", comenta. "É necessário identificar os setores e ocupações que possuem maior capacidade geradora de empregos, avaliar os possíveis impactos no nível salarial  e, diante dessas informações, traçar políticas de atratividade e buscar o investimento adequado para que os trabalhadores adquiram a qualificação exigida para essas posições", completa Freguglia.
Já Lourival Batista Júnior acredita que o aumento da oferta de postos é suficiente para puxar a média salarial para cima, devido à consequente escassez de mão de obra. Além disso, ele destaca que o impacto da massa salarial criada pela quantidade de pessoas que saem da condição de desemprego ainda que para ganhar um mínimo também contribui para "um ciclo virtuoso no processo de geração de renda." Para o professor, tal cenário precisa estar alinhado com aspectos de educação, saúde, transporte e tributação, de responsabilidade direta do município, para que atraia o empresariado, ciente de que encontrará força de trabalho local.


Empresas, academia e poder público

Diante da percepção de que inovação e tecnologia podem apontar um caminho para a atração de empresas maiores e a consequente oferta de melhores salários, o Parque Científico e Tecnológico de Juiz de Fora tem se apresentado como via de escape aos setores de serviços e comércio. A expectativa do reitor Henrique Duque é que o empreendimento da UFJF possa ofertar entre três e cinco mil vagas a longo prazo, quando atingir a maturidade. "O fato de termos empregos de altíssima especialização já representa um rompimento com o perfil de Juiz de Fora, no sentido de oferecer oportunidades com salários de alto nível", destacou, após a assinatura do protocolo de intenções com a fabricante portuguesa de semicondutores Nanium Participações, há duas semanas. Âncora do Parque Tecnológico – cujo edital de construção está previsto para este mês -, a companhia investirá até R$ 60 milhões, criando 150 empregos diretos e 40 indiretos.

"O Parque Tecnológico é extremamente importante e vai representar a geração de empregos com alto valor agregado, o que denota uma política correta para a fixação de mão de obra. Mas temos que evitar a ideia do ‘isso resolve tudo’, atentando para que as atividades ali desenvolvidas sejam incorporadas a uma dinâmica crescente de toda a cidade", alerta o professor Lourival Batista Júnior. Nesse aspecto, o professor Eduardo Salomão Condé destaca a importância da união de forças entre empresariado, academia e Prefeitura. "A dinâmica de formação contemporânea, em setores tecnologicamente mais sofisticados, vem exigindo mobilidade e formação continuada. Países que tiveram mais sucesso em políticas de inovação têm estreita relação universidade/empresa e políticas articuladas – e menos tênues e ocasionais – entre universidade e poder público."

Condé ainda cita a necessidade de monitoramento e incentivo ao estudo médio técnico e profissionalizante, com foco nas áreas de robótica, eletrônica, mecatrônica, manutenção e informática industrial, por exemplo. "Se não é possível fazer isso com as vagas federais e outras existentes, é preciso promover parcerias público-privadas ou mesmo somente dentro do setor público, articulando esta formação com setores econômicos capazes de operar esta mão de obra."
O campus do Instituto Federal do Sudeste de Minas (IF Sudeste), por exemplo, oferece cursos técnicos presenciais em 12 setores, incluindo eletrônica, eletrotécnica e informática, além de educação superior em engenharia mecatrônica e em sistemas de informação. Já o Instituto de Laticínios Cândido Tostes forma técnicos em leite e derivados, outra área de vocação da cidade.