Candidatos deixam comícios em 2º plano
Os candidatos à Prefeitura de Juiz de Fora ainda estão pisando em ovos quando o assunto é a realização de comícios. A ação já foi decisiva em um processo eleitoral da cidade, como o que elegeu Itamar Franco, então no MDB, para seu primeiro mandato de prefeito, em 1966. Na ocasião, o favoritismo pertencia à chapa da Arena, encabeçada por Wandenkolk Moreira. O pleito foi decidido no ato final, quando Wandenkolk cancelou seu comício de fechamento de campanha em razão de uma forte chuva. Por outro lado, Itamar agendou sua última aparição pública para o Morro do Cristo, onde funcionavam os estúdios da extinta TV Industrial, que transmitiu o evento. Quase seis décadas depois, porém, a prática parece estar em segundo plano.
As candidaturas de Laerte Braga (PCB) e Victória Mello (PSTU) descartam a tática. Bruno Siqueira (PMDB), Custódio Mattos (PSDB) e Margarida Salomão (PT) admitem valer-se da ferramenta, mas ainda não fixaram uma data para a primeira aparição nos palanques. O único que já definiu uma estratégia nesse sentido é Marcos Aurélio Paschoalin (PRP), que pretende realizar minicomícios em feiras e praças. "Não será nada de grande estrutura. O objetivo é vender nosso peixe, levando nossas ideias para os eleitores, e falar aquilo que acreditamos que eles precisam ouvir."
Mesmo com a iniciativa de Paschoalin, o início de ações desse tipo parece atrasado se pensarmos no cenário das eleições municipais de 2008. O primeiro comício daquele pleito aconteceu no final de agosto. No dia 28, Margarida Salomão, que está de volta ao páreo, subiu em um palanque armado no Bairro Santa Luzia, tradicional reduto petista. Curiosamente, após a ação, tanto a candidata à PJF quanto Gabriel dos Santos Rocha (Biel, PT), então na corrida por uma das 19 cadeiras do Legislativo, fizeram ponderações favoráveis a estratégia, que já era alvo de descrença à época.
A demora para o pontapé nos comícios em Juiz de Fora também pode ser notado quando comparado com o cenário de Belo Horizonte. Na última sexta-feira, o candidato Patrus Ananias (PT) realizou a primeira ação nesse sentido, e já trouxe para o palanque um nome de peso: o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. O evento realizado na Praça da Estação, na região central da capital, foi a primeira aparição de Lula em um comício no atual processo eleitoral, que acontece em todo o país.
Estratégia não está descartada
Embora sem definições de datas, as campanhas encabeçadas por PMDB, PT e PSDB estudam a realização de comícios. No momento, os concorrentes apostam todas as fichas em caminhadas e visitas a bairros. "A campanha já está nas ruas. A candidata tem realizado visitas e reuniões em diversos bairros da cidade e já iniciou suas caminhadas, como a realizada na última quinta-feira no Bairro Santa Cruz, que contou com grande mobilização. Quanto aos comícios, a coordenação de mobilização está agendando as datas e locais e futuramente fará ampla divulgação" informa a assessoria de Margarida.
A tônica é semelhante no discurso dos responsáveis pela campanha de Bruno. "Ainda não temos a definição de quando serão realizados comícios. Estamos investindo em caminhadas, tentando cobrir de três a quatro bairros por dia. São ações que têm maior identidade com o conceito de nossa campanha. Em uma eleição curta e com várias limitações como esta, acreditamos que esse corpo a corpo tem um efeito multiplicador muito maior que um comício, por exemplo. Mas a possibilidade não está descartada."
Candidato à reeleição,Custódio aguarda o melhor momento para lançar mão da estratégia, o que pode, inclusive, não acontecer. "A realização de comícios faz parte do conjunto de ações que é definido e planejado a partir do clima da campanha. E quem determina esse clima é o eleitor. Os comícios tradicionais podem acontecer ou não e a sua frequência e agenda vão também depender da dinâmica da campanha. Hoje temos uma diversidade de canais de informação que precisam ser analisados estrategicamente em conjunto, de acordo com suas características e potencialidades", afirma via assessoria, lembrando também a importância das plataformas virtuais de campanha.
Démodé
Laerte é taxativo ao afirmar que o PCB não ira realizar comícios de qualquer tipo. "Está descartado. Acho o corpo a corpo mais convincente, e fica mais fácil passar nossas ideias com maior clareza. Outra coisa é que o comício é uma ação muito cara. Temos um esquema de utilização de megafone, que tem funcionado muito bem." O comunista vai além e considera a estratégia ultrapassada. "Depois que proibiram a presença de artistas nos palanques, até mesmo as candidaturas de maior vulto financeiro perderam interesse pelos comícios. Eram os artistas que traziam o público."
Responsável pelo comitê de comunicação da Frente de Esquerda, de Victória Mello, Romerito Pontes também classifica o comício como uma ação démodé. "Não pretendemos fazer. Não temos a estrutura necessária. Estamos optando por caminhadas bairro a bairro. É importante estabelecer um diálogo mais sólido com a população, da mesma forma que procuramos estar presentes em atos dos movimentos sociais, como ações contra o aumento da passagem de ônibus, de trabalhadores em greve, e manifestações contrárias à homofobia, por exemplo."
Ausência influenciada pelas redes
Para o cientista político da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Diogo Tourino, a ausência dos comícios no cenário eleitoral juiz-forano pode estar sendo influenciada pelas ações possibilitadas pelas redes sociais, pela primeira vez liberadas em um pleito municipal. "Na eleição de 2008, a internet já estava em pauta, porém era muito regrada. A partir do pleito de 2010, houve um processo de liberalização do uso das ferramentas virtuais nas campanhas. Essa maior liberdade aconteceu concomitante ao aumento do acesso e uso da grande rede por parte dos brasileiros. Se as campanhas parecem não estar tão presentes nas ruas, elas estão muito fortes virtualmente."
Tourino também afirma que uma campanha acaba pautando a outra, e que um maior número de comícios deve acontecer a partir do momento que o primeiro candidato realizar uma ação similar. "Há uma espécie de Guerra Fria. Um influencia o outro, assim como suas ações. A hora em que o primeiro colocar a cara na rua, os demais vão atrás." O cientista político defende a realização dos comícios, de forma a fazer com que a campanha atinja todas as esferas da sociedade. "Por mais que tenhamos um progressão do acesso à internet, ele ainda é restrito. Aqueles eleitores de bairros periféricos, de mais idade, por exemplo, acabam sentindo falta de contatos mais tradicionais, como os comícios. Há fatias da população que ainda carecem deste tipo de linguagem."








