‘Recomeço’ da vida para dez pacientes

Rodrigo e Sueli estão entre os assistidos pelo projeto

Professora mostra prótese de olho

Próteses são produzidas em impressão em 3D
Dez pacientes que tiveram seus rostos mutilados em decorrência de acidentes de trânsito, remoção de tumores ou doenças congênitas receberão gratuitamente, esta semana, próteses faciais para a reparação de suas perdas. A iniciativa acontece durante o “1º Encontro de Prótese Maxilofacial: a odontologia que reabilita a alma”, promovido pelo projeto de extensão “Reabilitação protética do paciente com perda de substância bucal e facial” da Faculdade de Odontologia da UFJF, que, desde março do ano passado, já beneficiou 22 pessoas. Sem o apoio do programa, os procedimentos custariam cerca de R$ 50 mil por cada paciente. Eles envolvem, entre outros passos, a impressão em 3D das partes danificadas do crânio, a confecção das peças e as cirurgias para colocação dos implantes.
Mesmo com a dimensão científica e social do projeto, a coordenadora Elizabeth Rodrigues Alfenas, cirurgiã-dentista e professora do Departamento de Odontologia Restaurada, relata que ainda é difícil conseguir apoio dentro das instituições. “É complicado convencer as pessoas da importância dessa especialidade da odontologia, pois aquele que tem uma mutilação não se expõe, e isso nos leva a concluir erroneamente que existem poucas pessoas nessa situação.”
Fim do isolamento
A prótese facial possibilita aos pacientes um novo caminho, sem o isolamento social e familiar. “É muito constrangedor entrar em um lugar, e as pessoas ficarem olhando para você, comentando sobre o nosso problema, a gente fica constrangido de sair de casa. Você tem que analisar a pessoa pelo caráter, não só pela aparência”, diz o empresário José Eduardo Lima da Costa, 65 anos, de Dores do Indaiá (MG), que perdeu a orelha em decorrência de um câncer de pele.
José receberá a prótese auricular amanhã e está ansioso para ver o resultado, “Até hoje, ando na rua de tampão, não tenho coragem de andar com ela destampada. Com a prótese, acho que as coisas vão voltar ao normal, não totalmente, mas vai mudar muito. Minha autoestima vai melhorar. Já passei por vários procedimentos, o processo é longo. Deus colocou no mundo a doutora Elizabeth para ajudar as pessoas. Depois que receber a prótese, vou ver a vida pelo terceiro lado. O primeiro, foi com orelha; o segundo, sem; e agora, vai ser com a prótese. Você tem que tirar proveito das coisas, aprender com o que está passando”, pontua José.
O câncer também levou à remoção cirúrgica do olho direito da aposentada Sueli Imaculada Gonçalves Castro, 60. Em um exame de rotina, no ano passado, ela descobriu um tumor na vista, a cirurgia para a retirada do globo ocular aconteceu em fevereiro. “Eu fiquei sem chão, só sabia chorar. Depois da operação, só usava óculos escuros. Eu não saía mais de casa à noite, pois as pessoas ficavam olhando e comentando.”
A esperança foi retomada quando a filha leu sobre o projeto na internet. “Decidimos procurar a professora Elizabeth. Rapidamente ela marcou uma consulta, e nós já iniciamos o processo. Foi Deus.” Já em abril, ela começou a usar a prótese fornecida por meio do programa de reabilitação da UFJF. Com a autoestima renovada, Sueli conta que “vive cada dia como se fosse o último”. Ela começou a fazer aula de dança e não dispensa a participação nos bingos.
Fazendo planos para o futuro
Com casamento marcado para março do ano que vem e fazendo planos para o futuro, quem vê Rodrigo dos Santos Correia, 31 anos, não imagina o que ele passou. Em novembro de 2013, o rapaz andava de bicicleta na BR-040, quando foi atropelado por um caminhão. Perdeu o olho direito e partes do crânio na região da testa. Rodrigo utiliza a prótese ocular há quase um ano e aguarda a cirurgia para implantar a craniana pelo SUS. Aos poucos, ele vai retomando as atividades que fazia antes do acidente e recentemente voltou a trabalhar. “O mais difícil é a convivência com as pessoas, elas te veem como diferente, quando você está sem a prótese. Veem você com um buraco no rosto e ficam perguntando o que é. A gente fica para baixo com esta situação, relembra o acidente. Com a prótese, a vida é normal, você deixa um mundo no qual não quer sair de casa e retoma o convívio social. Foi o projeto mais importante da minha vida.”
‘A gente devolve essa pessoa para a sociedade’
Para a diretora da Faculdade de Odontologia da UFJF, Maria das Graças Afonso Miranda Chaves, e coordenadora do encontro, o projeto reabilita não só o paciente, mas, sim, todo o contexto em que ele está inserido. “É muito comovente reabilitar uma pessoa. A gente a devolve para a sociedade. Estamos incluindo, resgatamos pessoas que estavam dependentes e entregamos pessoas que voltam a ser autônomas. A medicina só cura o tumor, cura uma perda de um acidente ou uma doença congênita, mas deixa a pessoa se sentindo diferenciada para menos. Mas quando restabelecemos a forma, devolvemos o sorriso, a dignidade, a autoestima, a inclusão biopsicossocial. Por isso colocamos no título do encontro ‘a odontologia que reabilita a alma’, porque a pessoa volta a ter um sorriso na sociedade.”
A coordenadora do projeto Elizabeth Rodrigues Alfenas completa, dizendo que o número de cirurgias para a remoção de tumores cresce no país e que o apoio de equipes para a reabilitação desses pacientes é fundamental para devolvê-los à vida normal. “Hoje, nós não temos mais tanta gente morrendo de câncer. A pessoa é curada, mas pode ficar mutilada após a remoção do tumor. E isso está acontecendo. Cada vez mais, vão aparecer mais pessoas mutiladas. Com isso, a gente tem que pensar em reabilitar esses pacientes.”
O encontro
O I Encontro de “Prótese Maxilofacial: a odontologia que reabilita a alma” acontece na Faculdade de Odontologia da UFJF de amanhã até sexta-feira. A intenção é, além da entrega das próteses, promover o intercâmbio científico e tecnológico entre os profissionais da área de reabilitação das perdas nas regiões de cabeça e pescoço. “Esperamos despertar nos gestores o interesse por essa área de saúde no Brasil, a visão da importância de formação de equipes interdisciplinares para melhorar a qualidade de vida do paciente mutilado facial. O apoio da odontologia nesse processo é pouco divulgado e conhecido, mas é extremamente necessário nos tempos atuais”, pondera Elizabeth.
As inscrições para o encontro podem ser feitas pela internet, no site www.fadepe.ufjf. Os inscritos podem participar do trabalho prático na clínica e no laboratório da Faculdade de Odontologia, bem como do Prêmio Professor Lagrange Canedo de Passos, que envolve uma competição de pintura de íris da prótese ocular.









