Janeiro Branco: barreiras dificultam acesso à saúde mental para surdos e surdocegos

Entrevistados relatam dependência de intérpretes e acompanhantes, além de falta de profissionais bilíngues em Juiz de Fora


Por Hugo Netto

30/01/2026 às 06h00- Atualizada 30/01/2026 às 08h50

Com falta de preparo da sociedade, ansiedade permeia rotina de pessoas surdas e surdocegas
A psicóloga bilíngue Patrícia Reis intermediou a entrevista com pessoas surdas e surdocegas, e a necessidade dessa mediação evidenciou barreiras de comunicação e a falta de preparo para inclusão (Foto: Felipe Couri)

A dificuldade da reportagem em conduzir uma entrevista com duas pessoas surdas e duas surdocegas evidenciou, ainda antes da publicação desta matéria, a falta de preparo em diferentes setores da sociedade para garantir a inclusão desse público. A barreira de comunicação, relatada pelos entrevistados, aparece também no acesso a serviços de saúde e no acompanhamento psicológico. Na última matéria da série Janeiro Branco, a Tribuna debate esse tema.

Na ocasião, a psicóloga bilíngue Patrícia Reis, 49, intermediou a comunicação com Carlos Cintra, 49, Adriana Martins, 39, Fernanda Penaque, 40, e Camila Prates, 43, para abordar um recorte da campanha Janeiro Branco voltado ao cuidado em saúde mental de pessoas surdas e surdocegas. A campanha é simbolizada pelo gesto com o dedo mínimo formando um “J” e, na sequência, quatro dedos erguidos com o polegar fechado, passando ao longo do outro braço.

Patrícia conta que não é a única psicóloga a oferecer esse atendimento em Juiz de Fora. Segundo ela, há outra profissional que, quando se formou, já atuava na área havia cerca de 20 anos. Ainda assim, a terapia voltada para pessoas surdas é pouco divulgada. “No geral, o normal é que falte profissional. Falta conhecer a Libras. E isso impacta na saúde mental. Faltando outros profissionais para tratar o surdo – psicólogo, nutricionistas, médicos – e hospitais não tendo intérpretes, é sempre uma barreira. E isso gera uma ansiedade, uma dificuldade.”

‘Sinto vontade de ser livre’

Fernanda Penaque é formada em Biologia e dá aula de Libras. Grávida, ela relata que, para consultas médicas, precisa estar acompanhada do pai ou da mãe, já que o esposo também é surdo. “É sempre pesado ter que ficar dependente das outras pessoas. A gente já é formado, já se desenvolveu, somos adultos. Esses profissionais precisam aprender Libras. Se todos os profissionais soubessem, seria mais fácil essa independência que a gente quer ter.”

Ela relata que precisa fazer leitura labial dos médicos, o que é difícil pois, por vezes, perde alguma palavra, além do tempo gasto e da ansiedade e estresse gerados. “Às vezes, meu pai e minha mãe olham e percebem. Sabem que eu estou sofrendo, que eu sinto. Eu sinto vontade de ser livre. Fico pensando, se meus pais viajarem e eu passar mal, como é que eu faço?”

Antes de encontrar Patrícia, ela já tinha buscado acompanhamento com outras psicólogas, que, no entanto, não detinham o conhecimento em Libras. Dizia para a mãe: “Ela não conhece a minha língua. Como é que eu vou me expor por dentro? Como é que a pessoa vai me entender, vai perceber o jeito de cada um?”

Segundo Patrícia, também não há em Juiz de Fora psiquiatras bilíngues. Ela diz que, quando precisa encaminhar um paciente surdo para atendimento psiquiátrico, a consulta costuma depender de um acompanhante ou de um intérprete.

Ela ressalta que existe a Central de Libras, um espaço criado pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) no ano passado, com intérpretes disponíveis para auxiliar em atendimentos. “Só que tem muita coisa que é particular. Eu continuo falando que é importante que o profissional aprenda, porque quando entra alguém junto, a pessoa pode sentir dificuldade de se abrir (durante a sessão de terapia).”

‘Cada um tem um jeito’

Ao lidar com pessoas ouvintes, o maior sofrimento de Camila Cintra é o tratamento que recebe. “O que salvou a minha vida, mentalmente, foi a psicóloga com Libras. Sem isso era muita frustração, angústia, era muito pesado. Foi difícil me abrir, mas eu consegui.”

Além disso, cita um grande incômodo com o rótulo que a sociedade coloca nas pessoas surdas. “Isso é o mais chato, rotular como se fosse todo mundo igual. Cada um tem um jeito diferente, de comunicação, de comportamento.”

Ela é professora de Libras, com formação em Letras-Libras. Oralizada, diz que vive situações específicas no cotidiano por conseguir fazer leitura labial e verbalizar, mas aponta limites no entendimento durante atendimentos e conversas. Segundo ela, a organização frasal das duas línguas é diferente e, em alguns casos, palavras não são compreendidas.

Em 99% das situações, cita, não se sente incluída. “Não tem fluência, não se valoriza a empatia. Falta aumentar a presença da Libras no geral, em várias profissões, até político, padre”, opina. Ela inclui a imprensa nessa lista e afirma que, ao ver suas falas transcritas, nem sempre reconhece o conteúdo como foi dito.

Mesmo em campanhas, como o Janeiro Branco, não ocorre a inclusão. “E a saúde é algo muito sério, não é brincadeira. É muito importante ter diversidades nos hospitais, de Libras, de cadeirantes. Precisa melhorar mais”.

Patrícia complementa que muitas pessoas pensam que a saúde mental é só uma responsabilidade do psiquiatra e do psicólogo. “Não é verdade, é o que eles estão falando. Eles sentem uma falta de segurança geral, e isso tudo impacta”.

‘Todo mundo leva um susto quando é surdocego’

Carlos Cintra, com 20 anos, descobriu um problema na visão. Em meio à incerteza de como seria o futuro, decidiu aprender sobre saúde mental, refletir, e se esforçou para continuar se desenvolvendo. “Às vezes, tem problemas. A sociedade não é fácil, tem barreiras”, relata. Na primeira faculdade, o intérprete conta que não foi aceito, mas mudou de instituição e hoje é educador social. A formação auxiliou, inclusive, na questão da autoestima.

Mas a visão foi se fechando, “todo mundo leva um susto quando é surdocego”. Corredor de rua, ele afirma que o tratamento psicológico acelerou o processo de adaptação. Comunica-se com o personal trainer com a ajuda do celular, mora sozinho, pratica dança e dá palestras.

Apesar de considerar o Poder público inerte em casos como o que vivencia, ele percebe maior inclusão, atualmente, em escolas e faculdades, por exemplo. Mas, em sua época, a história era outra. Carlos conta que sofreu muito bullying e preconceito – palavra sinalizada com uma expressão de desgosto, passando a mão pelo ombro, como quem tira uma sujeira de cima. O sinal, inclusive, é forte nesse aspecto, com a “discriminação” sendo as duas mãos espalmadas girando uma sobre a outra, como quem esmaga algo desprezível.

O palestrante conta que sempre revidava às provocações exigindo respeito, e relembra um caso em que um aluno da escola o xingou. O intérprete teve receio de transmitir a mensagem, mas Carlos percebeu e ele próprio tranquilizou o intérprete. Além de situações como essa, ele diz que se sente desconfortável por depender de uma terceira pessoa para viabilizar a comunicação em situações privadas, como consultas médicas – uma dificuldade mencionada por todos os entrevistados.

‘Falta informação’

Adriana Martins relata que foi alvo de bullying na escola. Hoje, atua como palestrante e professora e é formada em pedagogia bilíngue. Ao conhecer Carlos, na Associação dos Surdos, aos 20 anos, passou a reconhecer uma trajetória semelhante à dele e consolidou sua própria identidade. “Fui buscando, perguntando, e aí me resolvi na identidade surdocega. Porque a sociedade olha a gente com a guia ali, e não entende que a gente precisa de acessibilidade em coisas diferentes, mais segurança. O surdo tem a visão, é diferente a forma de percepção, a informação é mais clara.”

A primeira bengala ela comprou em segredo, em 2015. Segundo Adriana, a família não aceitava e reagia com ansiedade. “Minha mãe até hoje tem um pouco de vergonha de andar comigo usando a guia, fala para eu guardar. Eu pergunto por que, mas guardo, é a opinião dela. Conversando com o Carlos, a gente entendeu que as famílias não conhecem como é a cultura do surdocego. Que a gente adora viajar, passear, fazer coisas diferentes.”

Ela relata que a resistência vinha acompanhada de preocupação, sobretudo quando passou a sair sozinha na rua. “Falta informação”, diz, ao que complementa Carlos, lembrando das cores das bengalas, tema de uma matéria da Tribuna de dois anos atrás, que ainda assim não são plenamente conhecidas: verde para pessoas diagnosticadas com baixa visão, brancas ou de alumínio, para cegos totais, e brancas com ponteira vermelha, para surdocegos.

“Com o tempo, a preocupação foi diminuindo, minha mãe foi entendendo que ainda precisa conhecer a vida das pessoas surdocegas, ser livre é importante. Não pode ficar preso em casa. A escolha é sua, acredita. Confia que a gente vai estar seguro sim. Por isso, eu fico pensando, é pesado a pessoa estar sempre ajudando ali”, e conclui: “Os profissionais não têm Libras, aí tem que chamar um intérprete e eu fico naquela situação presa ali. Fico limitada.”

Novas tecnologias incentivam independência

Os atendimentos online, permitidos pelo Conselho Federal de Psicologia após a pandemia, e as novas tecnologias, como redes sociais e aplicativos de trocas de mensagem, facilitaram o atendimento de pessoas surdas. Para Patrícia, esse avanço ajuda a reduzir parte das barreiras de acesso relatadas ao longo da reportagem, sobretudo quando não há intérprete disponível ou profissionais com Libras em serviços de saúde. Patrícia, por exemplo, atende remotamente pacientes do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e de outras cidades do interior de Minas.

“Há cerca de 10 anos era mais difícil. O paciente trocava informação com outro colega surdo ou surdocego e, literalmente, batia na porta do meu consultório. Hoje, tanto as redes sociais quanto os aplicativos de mensagem facilitaram muito, porque se a pessoa não sabe escrever o que quer em português, escreve do jeitinho dela ou acaba mandando um vídeo e explica o que está acontecendo.”

Às vezes a família entra em contato, mesmo sendo um surdo adulto, acreditando que vai ser mais rápido. Segundo a psicóloga, porém, esse movimento tem mudado à medida que os pacientes passam a conduzir o próprio atendimento. “Dentro daquilo que eles colocaram, eles estão buscando cada vez mais liberdade. E, à medida em que a sociedade vai entendendo que existe a pessoa cega, surdocega e a pessoa surda, eles estão cada vez mais decidindo o que querem, então muitos entram em contato, marcam, resolvem e combinam os detalhes comigo eles mesmos”, conta a psicóloga.

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