Medo ronda o Largo do Riachuelo
A recente execução de um camelô, em plena luz do dia, com cerca de dez tiros, no Largo do Riachuelo, traz à tona o problema da degradação da área. A população denuncia que trechos da Avenida dos Andradas e de vias próximas viraram pontos de prostituição, consumo e venda de drogas. A situação seria agravada por causa do funcionamento 24 horas por dia de bares e lanchonetes. Com o homicídio, ocorrido no dia 17 de janeiro, a situação ultrapassou o limite, e sucessivas denúncias chegaram à Tribuna. O jornal decidiu acompanhar a madrugada no local, no último dia 21, observando o entorno de quatro estabelecimentos na Andradas, entre as ruas Barão de Cataguases e Silva Jardim, e encontrou uma situação escancarada de tráfico de entorpecentes e de perturbação do sossego. O comércio ilegal não está restrito a um grupo. Homens se posicionam em pontos estratégicos e servem de vapores, sendo responsáveis por entregar o produto aos usuários. O ritmo é frenético. Maconha, cocaína e crack são vendidos na via pública. Sedentos pelos pequenos embrulhos, muitos fazem uso do entorpecente ainda no local, sem preocupação com a possível passagem de viaturas policiais.
A reclamação de quem mora no entorno é de que falta atuação efetiva das polícias e da fiscalização, já que o comércio ilegal e o barulho excessivo entram pela madrugada e seguem até de manhã. O resultado é a insegurança para a população, que se diz acuada. Muitos moradores deixaram o local – as placas de aluguel e venda de imóveis estão por toda parte -, alguns pensam em se desfazer dos apartamentos, e outros ainda convivem com o medo na esperança de a situação melhorar.
"A insegurança no Largo do Riachuelo é enorme. Neste local, principalmente nas madrugadas, se encontra de tudo: pessoas vendendo drogas, motoristas embriagados, menores de idade etc. Nas noites de sexta para sábado, então, dá medo. É um cenário horrível. A polícia precisa fazer alguma ação para acabar com este problema", suplica um morador da área, por e-mail.
Uma comerciante, 55, que preferiu não ser identificada, denuncia a mudança forçada de rotina dos moradores por conta da violência. "Não estamos mais aguentando conviver com essa situação. O problema é sério, e a morte do vendedor de meias, com tiros à luz do dia, nos deixou apavorados. Entrei em pânico ao ouvir tantos disparos. Estamos evitando sair de casa à noite, porque sabemos do perigo. Tem som alto, gritaria, e o movimento do tráfico passou a ser intenso. Um garçom já foi preso, há algum tempo, vendendo drogas dentro de um carro nesta mesma área. Quem mora na região não tem mais sossego. Até os taxistas não querem vir mais aqui à noite."
Outra moradora confirma a situação. "Precisei ir ao Rio de Janeiro, e viajaria de madrugada. Liguei para o táxi, que se negou a me pegar aqui em casa. Estamos acuados. Eu não fico mais sequer com as janelas abertas durante a noite, com medo. Já assisti a um assassinato em frente de casa e fiquei muito mal. Estou pensando em vender meu apartamento", conta a dona de casa. Já uma aposentada, 60, diz que alterou o itinerário para chegar em sua residência. "Um já morreu aqui no meu portão. Fiquei semanas sem dormir. Depois desse último caso, não tenho nem mesmo passado pela Andradas, só pela Santo Antônio."
Entre os taxistas, o mesmo relato. "Não paro na área de jeito nenhum. Se passo por ali, mesmo de manhã cedo, quando ainda há muita gente no local, se alguém dá sinal, finjo que não vejo porque sei que é problema na certa", conta um taxista. "A venda e o uso de drogas são na nossa cara, não se incomodam. Também evito a região", relata outro motorista profissional.
Outros crimes
O assassinato ocorrido este mês na área foi mais um entre outros graves crimes do entorno do Largo do Riachuelo. Em agosto de 2010, um adolescente de 15 anos foi assassinado na Rua Benjamin Constant, entre a Avenida dos Andradas e a Rua Santo Antônio, durante uma briga generalizada entre jovens de bairros rivais. Há dois anos, outro rapaz foi morto a tiros na esquina da Andradas com a Rua Silva Jardim, após agressões mútuas entre frequentadores de um bar e um policial civil.
Esquema aberto de venda e uso de drogas
Na madrugada de sábado, dia 21, a Tribuna permaneceu na região para acompanhar a rotina de vendas e consumo de drogas até 5h30. As cenas chocam pela audácia dos traficantes e pelo comportamento dos usuários, que não se preocupam em esconder o vício. Mulheres cheiram cocaína sobre a mão de amigos na calçada, outras fumam crack, apenas abaixando-se em meio a veículos, sentadas no meio-fio. Travestis trocam celulares por cocaína, e o movimento de carros e motos de luxo, com pequenas paradas na área, foi observado durante toda a madrugada.
A maior agitação acontece principalmente na Avenida dos Andradas, em frente a um bar entre as ruas Silva Jardim e Barão de Cataguases, em um prédio antigo. No local, homens jovens aparentam comercializar a droga, mas contam com todo um esquema típico do tráfico. Pelo menos duas mulheres estariam atuando como "guarda-roupas". São elas, que, com bolsas ou mochilas, passam praticamente despercebidas em meio à multidão e estariam escondendo a maior parte do entorpecente. Quando um cliente chega, procura um dos homens, que pega, discretamente, o embrulho com uma das mulheres. Além das bolsas, elas guardam o material junto ao corpo, na cintura ou próximo aos seios.
O esquema também envolve olheiros, que se camuflam como flanelinhas, próximo às baias de estacionamento do Palácio da Saúde. Eles também são os responsáveis por receber os usuários que preferem não se aproximar tanto do estabelecimento. Bem na frente da reportagem, um dos supostos flanelinhas gritou "Cliente, cliente!" Após abordar dois usuários, ele atravessou a avenida, pegou a droga e entregou ao homem.
Com a procura intensa de usuários, a comercialização não se restringe a um grupo. Pelo menos três núcleos foram identificados pela Tribuna, e nenhum deles para. Apesar de contarem com a iluminação pública reduzida na região, o que dificultou a captação de imagens pela reportagem, e se esconderem atrás de um ponto de táxi e dos próprios frequentadores, não é tão difícil identificá-los. Eles trabalham atentos e preocupados com a movimentação e, mesmo estando em frente a um bar, não consomem bebidas alcoólicas.
Durante a permanência da Tribuna, três carros da Polícia Militar passaram pelo local, o que não impediu o comércio. Só em uma das vezes, a viatura do Tático Móvel abordou um flanelinha no Largo do Riachuelo, mas o homem foi liberado, já que nada foi encontrado em seu poder.
Ações para coibir os abusos
A situação no entorno do Largo do Riachuelo é de conhecimento da Polícia Militar, que afirma ter desenvolvido ações de combate, sobretudo, ao tráfico de drogas. No último dia 19, um homem de 30 anos foi preso em flagrante depois de a PM encontrar pedras de crack, papelotes de cocaína, material para embalagem de drogas, além de oito celulares, dois relógios de pulso, prancha para alisar cabelos e dinheiro no quarto do hotel em que ele estava hospedado no Centro. A suspeita é de que os telefones eram utilizados para contatar usuários, enquanto os demais objetos teriam sido recebidos em troca de drogas. "Ele estava abastecendo o Centro de drogas, sobretudo de crack, e repassando para pelo menos três estabelecimentos. Na mesma semana, prendemos outro envolvido com tráfico na Rua José Calil Ahouagi", contou o comandante interino da 30ª Companhia da PM, tenente Welington Aparecido Araújo.
O comandante ainda destacou a necessidade de maior investigação por parte da Polícia Civil e de denúncias pela comunidade. "Temos uma certa dificuldade para fazer o flagrante no local porque trabalhamos fardados, e, na maioria das vezes, eles não ficam com a droga ali. Guardam em algum ponto próximo e vão buscando aos poucos. Nas duas últimas ações, atuamos com base nas denúncias da comunidade. As informações anônimas pelo telefone 181 são fundamentais para nossa ação. Além disso, cabem investigações por parte da Polícia Civil para identificar todos os envolvidos."
A titular da 7ª Delegacia Distrital, Mariana Veiga, também destacou a importância das denúncias pelo 181. "As investigações de tráfico de drogas são constantes, mas temos dado prioridade àquelas áreas que recebemos mais denúncias. Sobre a região, o problema ainda não chegou ao nosso conhecimento."
Uma reunião entre PM e fiscalização da Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) foi realizada para o desenvolvimento de ações conjuntas nos bares da região, visando a garantir a tranquilidade para os moradores da área. A SAU informou que os quatro estabelecimentos da região possuem alvará de localização e que estão em dia com a higiene e limpeza, mas destacou que a fiscalização para coibir o som alto em carros e a poluição sonora será realizada.









