Rotina de espera nos pontos e de empurra-empurra nos ônibus

Usuários enfrentam tumulto para entrar no coletivo
Juiz-foranos que dependem do transporte coletivo urbano, sobretudo aqueles que residem em regiões mais afastadas, como Norte, Nordeste e Cidade Alta, têm enfrentado uma rotina desgastante. A média de tempo que ficam no interior dos coletivos gira em torno de uma hora e meia a duas horas, o que confirma pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre a locomoção urbana. Segundo o estudo, 32% da população brasileira que vivem em municípios com mais de cem mil habitantes levam mais de uma hora por dia no trajeto da residência para o trabalho ou para a escola. Na cidade – que atualmente tem uma população de 517 mil habitantes e uma frota de 191.656 veículos -, além do tempo gasto nos coletivos, a espera nos pontos pode fazer esse período de deslocamento trabalho-casa (ou vice-versa) dobrar. O jornal ouviu relatos de pessoas que mudaram de endereço, alteraram o horário de entrada no serviço e histórias de acidentes que revelam a necessidade de se repensar o sistema de mobilidade pública da cidade.
Para quem não tem outra opção, é preciso doses diárias de paciência para esperar em pontos lotados, sem assentos e coberturas. É necessário também disposição para viajar em pé e aguentar cotoveladas, empurra-empurra e discussões por conta de lugares disputados nos carros. A Tribuna vivenciou esta rotina na última semana, ao utilizar o transporte coletivo em todos os horários de pico, acompanhando trabalhadores e estudantes que, após oito, dez,12 horas fora de casa, demoram mais cerca de duas para chegar a seus destinos (ver quadro). Nesses dias, algumas pessoas nos pontos sequer conseguiram entrar nos veículos por causa da superlotação. O jornal também circulou de carro, fazendo os mesmos trajetos e encontrou diferença de até 36 minutos a menos quando utilizou o veículo particular no lugar do ônibus. Este foi o caso do trajeto Centro/Zona Norte (ver quadro). No entanto, nos horários de pico, a diferença entre carro e ônibus foi relativamente pequena nos tempos de viagem. Porém, a rotina de quem depende do transporte coletivo envolve ainda a espera nos pontos.
Nestas viagens e nas paradas no Centro e nas zonas Norte, Nordeste e Cidade Alta, a Tribuna conversou com cerca de 30 usuários sobre o sistema atual, e todos, entre trabalhadores e estudantes, foram unânimes em dizer que o transporte precisa melhorar. Além da demora para chegar em casa, justificada pelas empresas, quase sempre, pelo trânsito lento nos horários de pico, os usuários apontam a superlotação nos ônibus como um dos problemas mais graves. Segundo a resolução 316 do Conselho Nacional de Trânsito, o máximo é de sete passageiros em pé por metro quadrado.
No limite
Com relação à realidade encontrada nas ruas, a Astransp reconhece que as empresas têm trabalhado no limite, sobretudo nos horários de rush, mas garante que a qualidade é mantida, citando pesquisa feita em abril, pela Sieg, em que o serviço foi considerado ótimo e bom por 39% dos 1.126 entrevistados. Presidente da associação, Fernando Goretti, explica que os problemas são comuns de horários de pico. "É assim em qualquer outra cidade na hora do rush: congestionamentos, pontos lotados, atrasos. Podemos dobrar a frota, mas não adiantaria. Existia uma proposta de mudar horários de saída do comércio, das empresas, para evitar essa sobrecarga, porém nada foi feito. Temos várias interferências no trânsito de Juiz de Fora e, de dois anos para cá, em função da bilhetagem, recuperamos mais usuários. Hoje são cerca de 200 mil passageiros/dia." Goretti ainda destacou que a idade média da frota é de cinco anos e que mais de 50% já são adaptados.
Já a Settra garantiu que é realizada a fiscalização dos horários dos coletivos e que frequentemente é feita pesquisa para verificar a necessidade de ampliação de linhas, utilizando a metodologia do contraste visual. "Antes essa observação era feita nas saídas dos bairros e, muitas vezes, não retratava a realidade da linha, mas, de um tempo para cá, estamos observando os coletivos nos pontos mais críticos", explicou o secretário de Transportes e Trânsito, Marcio Gomes Bastos. Ainda conforme Bastos, a frota atual é de 554 ônibus, e, até o fim do ano, o número chegará a 572 carros.
Horas perdidas nos trajetos diários
Além de enfrentar uma jornada de quase 12 horas de trabalho, Márcio José Gonçalves da Silva, 51 anos, gerente de recursos humanos de um supermercado em Benfica, na região Norte, ainda passa quase três horas do dia usando o sistema de transporte coletivo para transitar entre o trabalho e a Zona Leste, onde mora. "Como preciso estar aqui no trabalho muito cedo, a vinda, por volta das 5h, é tranquila. Mas, se eu perder o ônibus de 5h20, depois só vem outro quase 6h. O maior problema é voltar para casa. Haja sofrimento. Saio 17h30, mas só passa ônibus para o Centro às 17h50, 18h. Geralmente o carro sai cheio do bairro, e são 37 pontos daqui até onde desço (na Rio Branco, na altura do Mariano Procópio). Se eu for somar o tempo no ponto mais o da viagem, dá cerca de uma hora e 40 minutos. Mas pode ser até mais, dependendo do trânsito", contou, lembrando do estado de algumas linhas, sobretudo de Valadares e localidades mais distantes. "Um dia desses, a canaleta do ônibus caiu na minha cabeça."
Também trabalhador da região Norte e morador da Zona Leste, o vigilante Adjar José dos Santos, 48, sofre com a demora para chegar em casa após a jornada em uma agência bancária. "Tenho horários variados de entrada e saída. Mas, geralmente, saio às 17h e só chego no Manoel Honório por volta das 18h20. Além do tráfego intenso, todos os dias, a troca do motorista e do cobrador demora mais uns 10 a 15 minutos, no Bairro Santa Lúcia. Isso atrasa ainda mais minha chegada. Nas semanas em que saio às 20h, chego em casa às 21h30. Isso porque pego qualquer um que passa."
‘Um carro atende bairro’
Moradores do Nossa Senhora de Fátima, na Cidade Alta, o vice-presidente da SPM, Maurício Clemente, e o agente penitenciário José Lourenço da Silva contam que já procuraram a Prefeitura diversas vezes com pedido de nova linha, já que hoje apenas um carro atende ao lugar. Na última quarta-feira, a Tribuna ficou 45 minutos em um ponto do bairro, aguardando a passagem do ônibus. "O bairro cresceu muito, e só existe um carro até hoje. Antes, o tempo de viagem era de 40 minutos, hoje é de uma hora e dez. Muitas vezes, quando precisamos vir para casa, não conseguimos lugar, porque o veículo atende também a UFJF. Isso precisa ser revisto."
Moradoras de São Pedro, Ana Paula Alves e Juliana Ribeiro, ambas 22, contam que precisaram alterar a rotina e a hora de entrada no trabalho por conta do descumprimento dos horários dos coletivos. "Está complicado. Tive que passar a entrar no trabalho 8h30, pois chegava todo dia atrasada", diz Ana Paula. "O ruim também é para voltar, por volta de 23h. O ônibus fica lotado e, se o perdemos, só tem outro meia-noite, meia-noite e meia", comenta Juliana.
Na Zona Nordeste, a moradora de Filgueiras Maria Aparecida Melo diz que costuma sentar-se no chão do coletivo já que está com problema na coluna e não encontra lugar. "Os ônibus passam sempre lotados, passam vários juntos e depois ficamos muito tempo no ponto. "
Do outro lado da cidade, na Zona Norte, a cortadeira Neuza Maria de Castro, 59, mudou-se do Santa Lúcia para Benfica para ter acesso a mais ônibus. "Não dava, chegava atrasada todo dia no emprego e muito tarde em casa." A doméstica Samara Cristina dos Santos, 28, também lamenta: "Moro na Vila Esperança II e trabalho no São Pedro. Preciso sair de casa antes das 6h e só consigo chegar no trabalho às 8h, 8h30. Meu patrão já nem acredita mais. Tem dia que chego em casa, fecho os olhos e já está na hora de sair de novo para chegar no trabalho na hora." Também doméstica, Josimar da Silva, 30, faz coro: "Todo dia é esse sofrimento." Juliana Gomes, 42, diarista, outra moradora da Zona Norte, cobra: "Tem que haver concorrência."
Residentes do Bairro Fontesville, na Zona Norte, se dizem insatisfeitos com a linha 620. Segundo eles, em seu itinerário, o coletivo percorre ruas do Bairro Milho Branco, contribuindo para o atraso e a superlotação do único ônibus que atende a comunidade.
Settra trabalha em edital para transporte
Para o professor de transporte e trânsito Cézar Henrique Barra, a solução é a estruturação do sistema de transporte público. Mas a primeira iniciativa, na opinião do especialista, passa pela licitação. "Isso já deveria ter sido feito em outras administrações, é uma coisa que vem se arrastando. A segunda etapa a ser adotada é retomar e confirmar qual o melhor estudo para Juiz de Fora. A meu ver, ainda é o sistema troncalizado, mas com outro formato. Já que a cidade tem vários eixos troncais, demanda várias estações. O que foi feito antes nunca daria certo com apenas um terminal."
Segundo Barra, ainda há a alternativa do sistema ferroviário, com adoção de bondes elétricos ou metrôs de superfície, porém este modelo demandaria mais investimentos. "A linha férrea atualmente é concedida à MRS. O investimento em segurança teria que ser alto, pois não poderia haver falhas para a compatibilização da linha pelos trens de carga e de passageiros."
Sobre a questão da licitação, o titular da Settra, Marcos Gomes Bastos, adiantou que a secretaria começa a trabalhar em um edital para o transporte público da cidade, mesmo depois de o Tribunal de Contas do Estado (TCE) ter suspendido a contratação de uma empresa para realizar o estudo de viabilidade técnica do transporte em Juiz de Fora. "Ainda não tivemos resposta do TCE. O estudo é fundamental para fazermos a mudança do sistema, para termos consistência no processo, mas, em paralelo, já começamos a adiantar isso." As empresas de transporte público do município estão em atuação desde a década de 80, e a concessão terminaria apenas em 2016.
Proposta
Projetos para a estruturação do sistema de transporte e trânsito não faltam e vêm até da comunidade. Presidente da Associação dos Usuários do Transporte Coletivo (Afecut), Francisco Anísio (Chico Anísio)Pereira, trabalhou durante cinco anos em um planejamento de viabilidade técnica e operacional do sistema de transporte público. "Nossa cidade está há 30 anos sem grandes ações para a melhoria do sistema. Precisamos não de uma reestruturação, mas de uma estruturação. Pela topografia acidentada, ruas estreitas, presença da linha férrea, necessitamos pensar em médio e longo prazo, senão vai chegar uma hora que as pessoas chegarão mais rápido a pé do que de carro ou de ônibus. Aliás isso já começa a acontecer em algumas regiões."
O estudo apresentado por Chico Anísio prevê a construção de um terminal de integração em um terreno na Avenida Brasil, entre o Exposhop e o Terminal Rodoviário Miguel Mansur, além de um edifício garagem, um restaurante e um shopping popular no mesmo ponto da Zona Norte. "Desta forma, já conseguiríamos reduzir o número de coletivos circulando no Centro, pois as pessoas que residem na região Norte viriam de ônibus até o terminal e pegariam o articulado para o Centro. Muitas poderiam até vir de carro e pegar a conexão até o Centro. O Hospital Regional está sendo construído próximo, e a localização do terminal atenderia também a este público, além de ter serviços, evitando ainda mais deslocamentos até a região Central."
‘Não houve investimento em trânsito na cidade’
Ao responder as reclamações de alguns usuários, o presidente da Astransp, Fernando Goretti, informou que o percentual de quebras de veículos é mínimo diante do número de dez mil viagens/dia. Além disso, a frota reserva é de apenas 10% da total, que é de 572 carros. "Pela nossa tarifa, não tem como aumentar as reservas. O maior problema é que não houve investimento em trânsito na cidade, e os ônibus precisam disputar espaço com os carros. A oferta não é ruim, os fatores ampliadores é que cresceram. Precisamos de projetos para a Avenida Getúlio Vargas, por exemplo. Hoje a velocidade média dos ônibus é de 12 a 13 km/h, o que tem gerado até mesmo arrefecimento dos motores, muito por conta dos congestionamentos, o que também gera atrasos. Mas existe a fiscalização e, se, de dez mil viagens, cem não são cumpridas, ainda é um número pequeno, mas é importante salientar que estas não são repassadas, não são restituídas para nível de cálculo tarifário."
No que diz respeito à necessidade de melhoria dos pontos de embarque, o empresário disse que, por falta de espaço físico nas calçadas, não é indicada a instalação dos bancos. "Estamos com as canaletas no limite e não podemos também ocupar ainda mais os espaços com bancos para os usuários. Gostaríamos, mas falta espaço físico."
O secretário de Transportes e Trânsito, Marcio Bastos, lembrou que as intervenções viárias começam a ser realizadas na Avenida Rio Branco com objetivo de garantir mais fluidez na pista do transporte coletivo. Além de alteração nos canteiros na altura do Manoel Honório, os coletivos deixarão de acessar a Getúlio Vargas pelo ponto atual e deixarão a Rio Branco entrando na Rua Afonso Pinto da Mota. Outra intervenção também na Rio Branco será no acesso à Rua Chanceler Oswaldo Aranha.








