Últimas escolas municipais fechadas pelas chuvas retomam aulas nesta quinta, mais de 2 meses após tragédia

Famílias relatam impactos na rotina; rede estadual já retomou atividades, e Colégio de Aplicação João XXIII segue sem previsão para parte dos alunos


Por Bernardo Marchiori

28/04/2026 às 17h53

Após mais de dois meses da tragédia causada pelas chuvas em Juiz de Fora, as últimas escolas da rede municipal interditadas retomam as aulas nesta quinta-feira (30), de acordo com a Prefeitura. A partir da data, os alunos das escolas Murilo Mendes, no Grajaú, e Santa Catarina Labouré, no São Mateus, irão retomar as atividades em um imóvel na Rua Espírito Santo 521, no Centro.

Conforme a Administração municipal, a medida, provisória, contempla todos os estudantes das duas unidades e foi adotada para garantir segurança a alunos e profissionais. A Escola Municipal Santa Catarina Labouré ocupará o primeiro andar, com atendimento à educação infantil. Já Escola Municipal Murilo Mendes funcionará no segundo andar, em tempo integral. Os acessos e horários serão distintos para organizar os fluxos.

Os filhos da manicure Thailla Vianna, de 9 e 14 anos, estão sem aula desde 24 de fevereiro, dia seguinte após as fortes chuvas na cidade. Estudantes da Escola Municipal Murilo Mendes, os jovens estudavam em tempo integral – de 8h às 16h. Com a paralisação das aulas por mais de dois meses, a mãe também foi impactada.

“Nós três tivemos que nos adaptar a uma nova rotina, e isso foi muito prejudicial. Há cerca de três semanas, começaram a propor atividades remotas: tínhamos que buscar em uma quarta-feira e levar na próxima o dever completo. Isso é horrível, porque alguns tópicos as crianças não sabiam direito. Eu trabalho 12h por dia e ainda preciso chegar em casa e ensinar a tarefa para eles. São atividades que nem chegaram a aprender, porque a tragédia aconteceu no início do período letivo. Tem um tempo que estão prometendo voltar e não voltam. Estamos no aguardo.”

De acordo com Thailla, as aulas estavam previstas para serem retomadas na semana anterior. Contudo, a comunidade da escola recebeu um comunicado, assinado pela secretária de Educação, Ana Lívia Coimbra, informando que as intervenções necessárias para a adequação do espaço transitório da escola ainda não estavam concluídas. Com isso, o retorno foi adiado para o dia 30.

Últimas escolas municipais fechadas pelas chuvas retomam aulas nesta quinta, mais de 2 meses após tragédia
(Foto: Felipe Couri)

Outras escolas municipais já voltaram

As escolas municipais Antônio Faustino da Silva, no Três Moinhos, e Adenilde Petrina Bispo, no Santa Cândida, retomaram as atividades na semana passada. A escola Clotilde Hargreaves, no Linhares, segue com o prédio interditado, e os estudantes estão sendo atendidos em outras duas escolas da região. A filha de Marcia Helena Ferreira, de 7 anos, estudava na instituição desde o primeiro período. Como a família mora em frente ao imóvel, precisava apenas atravessar a rua para assistir às aulas. Agora, estudando provisoriamente em outra sede, o tempo aumenta para cerca de 20 minutos.

“Nem é tão longe assim. O problema é que o ônibus passa 6h40, e depois não tem outro. Tenho que descer mais cedo e esperar, porque ela entra 7h15. Por enquanto, minha nora consegue levar. Mas quando não puder, ou vai chegar atrasado, ou vai chegar cedo demais. Eu parei de trabalhar porque o tempo para levá-la na escola mudou muito. Se eu tiver que descer de transporte coletiva para buscá-la, tenho que ir às 14h30 e ficar lá embaixo para esperar até 15h15 para ela sair e chegarmos em casa quase 16h”, relata.

A criança voltou às aulas no dia 13 de abril – mais de um mês após as chuvas. “Ela tem realmente trauma de chuva. Nesses dias em casa, a ansiedade atacou. Ela não tem criança por aqui para brincar, então ela fica sozinha. Os pais dos alunos não estão felizes com a possibilidade de demolir a escola para construí-la em um novo local. Aqui não tem nada: não tem uma área de lazer, o comércio aqui perde muito com a saída da escola daqui. Não tem nada pelo Linhares”, lamenta Marcia.

Rede estadual

Sobre as escolas da rede estadual de ensino, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SES-MG) informou que as 45 instituições já retomaram as aulas. O único imóvel que segue interditado, por medida de segurança, é o que abriga a Escola Estadual Maria das Dores, no Santa Helena, uma vez que o  acesso se encontra interditado em função de um deslizamento de talude na rua da instituição.

No entanto, os alunos retomaram as aulas nas instalações da Escola Estadual Marechal Mascarenhas de Moraes, no Teixeiras, de forma provisória. Com isso, não há mais nenhuma escola estadual paralisada em Juiz de Fora.

Colégio João XXIII segue sem definição

O caso de Islaine Leal, mãe de dois, vai além da rede municipal de ensino. O filho de 4 anos, estudante da Escola Municipal Antônio Faustino da Silva, foi direcionado para a Igreja Nossa Senhora do Líbano, no Grajaú, desde a última quinta-feira (23). Já a filha, de 12 anos, é aluna do Colégio de Aplicação João XXIII, que segue com situação indefinida. Até o momento, Islaine não teve retorno do que vai acontecer a educação dela.

“É um absurdo as crianças ficaram sem aula por tanto tempo. Como vai ficar o calendário até o final do ano? Os dias perdidos precisam ser repostos. A gente aqui, no Três Moinhos, sem casa, tendo que pagar aluguel para morar em outro bairro, com duas crianças pequenas e sem aula – imagina como a gente fica. Nós, por exemplo, estamos morando no Bom Jardim. Preciso levar meu menino no Grajaú, mas pelo menos ele voltou.” A família morava em frente à escola municipal do bairro. “Só esperava bater o sino para abrir meu portão e levar para a escola.”

Além disso, Islaine destaca que não irá procurar outra instituição de ensino para a filha, porque “foi muito difícil para ela conseguir entrar em uma escola que é boa”, afirma. “Só que eles estão pecando, porque estão deixando muita gente sem aula. Contando com professores, coordenadores, terceirizados, bolsistas, estagiários, é muita gente. Então tem que ter um local apropriado para caber tanta gente. Tem que ter uma solução. Já está tudo perdido, tudo sem rumo para nós. Só se fala que o bairro vai acabar, que as casas e a escola serão demolidas”, complementa.

Segundo a Universidade Federal de Juiz de Fora, em março, os estudantes do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) foram alocados na Faculdade de Educação, dentro do campus. Já os estudantes do Ensino Fundamental permanecem sem aulas e aguardam a definição de um novo espaço temporário para o colégio. Até o momento, não há previsão para o retorno das atividades.

Em relação ao novo imóvel para a instituição, o resultado do chamamento foi mantido, com duas empresas vencedoras. Na próxima etapa, será realizada uma reunião com as empresas, além da análise da documentação e da viabilidade econômico-jurídica das propostas, com o objetivo de avançar para uma contratação direta. A expectativa é de que todo o processo seja concluído nesta semana. Na última sexta-feira (24), foi realizada uma reunião para apresentar esclarecimentos sobre as ações adotadas pela Universidade após a interdição do prédio da unidade e esclarecer dúvidas da comunidade escolar.

Cumprimento dos 200 dias letivos

É exigido, por lei, que o ano escolar tenha 200 dias letivos. No caso das escolas estaduais, foi informado que as atividades paralisadas anteriormente serão repostas até que se cumpra o previsto na legislação, conforme orienta o Calendário Escolar. Já o Município afirma que durante o período sem aulas presenciais, não houve interrupção do atendimento pedagógico.

“Os estudantes receberam atividades e participaram de ações educativas em espaços alternativos, como o Jardim Botânico e o Museu de Arte Murilo Mendes. As reposições estão sendo organizadas conforme as necessidades de cada unidade, garantindo o cumprimento do calendário letivo, com análise e autorização do Conselho Municipal de Educação.”

Islaine Leal lamenta o tempo perdido sem aula para os filhos. “Em situações normais, se você deixa de pôr seu filho na escola ou se ele fica faltando às aulas, o conselho tutelar é rapidamente acionado. Mas quando a escola está interditada, pode ter essa demora toda para o retorno. Aí não faz diferença a criança estar fora da escola. Algumas crianças ficaram, pelo menos, dois meses sem escola, o que é um verdadeiro absurdo. O meu filho não precisa de nota para passar de ano, mas está no período de alfabetização. Ficou todo esse tempo sem o aprendizado.”

A PJF finaliza a nota relembrando que o ministro Camilo Santana anunciou que mais de R$ 5 milhões foram repassados para intervenções imediatas em unidades escolares de Juiz de Fora. Para a construção dos novos prédios das escolas  Antônio Faustino, Clotilde Hargreaves, Georg Rodembach, Adenilde Petrina e Santa Catarina Labouré, a estimativa é de cerca de R$ 60 milhões.