Centro demarcado pelo crack

As recentes demolições de duas áreas da região central, que vinham sendo ocupadas por usuários de crack, não põem fim ao problema. Outros imóveis abandonados continuam servindo de ponto de uso e tráfico do entorpecente. Nesta segunda-feira (26) a Delegacia Antidrogas apreendeu em mais uma ação, na Rua José Inácio Trindade, na região conhecida como antigo Leito da Leopoldina, no Bairro Ladeira, 200 pedras de crack, além de porções maiores da mesma substância e de maconha. Parte da droga estava em um bueiro, próximo da escada de uma casa abandonada usada pelo comércio ilegal. O restante estava em buracos no muro de um terreno ao lado. Um jovem de 18 anos foi preso. Nos últimos meses, o local já foi alvo de, pelo menos, outras dez ações da polícia. No dia 14 de julho, 12 pessoas foram detidas por tráfico no interior e nas imediações do mesmo imóvel abandonado. Em outras partes do Centro, o mesmo acontece. Há anos, ruínas de um casarão na esquina do cruzamento da Rua Espírito Santo com Avenida Itamar Franco também são usadas por viciados, que pulam o muro para acessar o imóvel. "Hoje (segunda-feira) por exemplo tinha umas três pessoas lá dentro. E fora o mau cheiro. Está servindo para viciados e de banheiro público", desabafa uma moradora da área.
Mas além dos imóveis abandonados, outros pontos foram demarcados pelo crack: praças, pontes, viadutos, Mergulhão, linha férrea e margens do Rio Paraibuna são ocupados diariamente, trazendo insegurança para quem vive ou mora no entorno (ver quadro). A situação é ainda mais crítica na parte baixa do Centro, principalmente no polígono formado entre Avenida Rio Branco, Rua Benjamin Constant, Avenida Brasil e Avenida Itamar Franco, mas pontos nobres, como Parque Halfeld, também servem a usuários e traficantes. Operações policiais constantes e repetidas em muitos dos pontos mostram que é preciso uma ação sistêmica envolvendo órgãos públicos, sobretudo de recuperação e reintegração dos dependentes na sociedade para reverter o quadro atual, antes que o Centro vire uma grande cracolândia.
"Nessa área mesmo onde hoje (segunda-feira) fizemos operação, já havíamos estado por muitas outras vezes. Uma no mês passado. Só a polícia não está resolvendo. Cheguei a oficiar a Prefeitura, pois no local também há imóveis abandonados, e isso contribui para a permanência do tráfico. A polícia precisa de apoio dos órgãos públicos, seja municipal, estadual ou federal, pois o crack está pulverizado. É preciso de uma assistência social ampla do Poder Público", destaca o responsável pela Delegacia Antidrogas, Carlos Eduardo Rodrigues, que explicou que uma das frentes da delegacia especializada é atuar junto às bocas de fumo. "Combater o tráfico de crack é mais complicado, pois são pequenos traficantes que, muitas vezes, traficam para manter o vício. Por isso estamos atuando em duas frentes, na identificação dos traficantes que movimentam o entorpecente na cidade, mas também nas bocas, que é o que mais incomoda a população."
Comandante da 30ª Companhia da PM, capitão Marcelo Monteiro de Castro diz que os pontos são monitorados, principalmente praças e vias escuras. "A Polícia Militar está atenta e sempre que verifica que um local é utilizado por usuários e por traficantes, os militares são orientados a registrar boletim de ocorrência simplificado, narrando o fato. Geralmente, quando estão em áreas, como a da Benjamin, oficiamos a Prefeitura."
Subsecretário de Defesa Civil, Márcio Deotti informou que, desde o início do ano, o órgão tem identificado e demolido edificações em situação de vulnerabilidade, para garantir a segurança do juiz-forano. Já a Secretaria de Saúde destacou o plano local do município para o enfrentamento do crack e adiantou que espera implantar, até o fim deste ano, unidades de acolhimento para usuários de drogas, sobretudo, de crack, sendo duas para adultos e duas infantojuvenis.
Moradores aliviados após destruição de cracolândia no Poço Rico
Nesta segunda-feira, 13 edificações na Rua Mariana Evangelista, no Bairro Poço Rico, começaram a ser demolidas pela Prefeitura. Os imóveis, que estavam abandonados, apresentavam risco de desabamento, e vinham servindo de local de uso de drogas. A medida agradou os moradores. Depois de crescer no bairro e ter uma empresa há 18 anos na via, o gráfico Rubens Facio Castor, 52 anos, acredita que, finalmente, terá a tranquilidade de volta. "Estava tendo que começar a trabalhar mais tarde, porque, de manhã, aqui estava ficando terrível. Já presenciei até briga com faca. Uma hora ia morrer alguém." Com a ocupação das casas por usuários de drogas e moradores de rua, crimes de furto também começaram a vitimar comerciantes e moradores. "Gastei muito dinheiro colocando câmeras, alarme e portões de ferro na empresa. Preferi me prevenir. Chegaram ao ponto de tentar roubar fios dos postes na rua semana passada. Fiquei sem energia", contou o gráfico. Segundo ele, as casas abandonadas possivelmente também abrigavam prostituição. "Muitas adolescentes entravam nos imóveis acompanhadas de pessoas mais velhas em troca de pedras de crack."
Para Mauri Laurindo Ambrósio, 67, o clima também deve melhorar. "Moro aqui há quase 30 anos. Acompanhei essa ocupação. Quando uma turma saía, entrava outra. Era assim o dia inteiro. Por fim, a situação já estava incontrolável."
Na última semana, um complexo de lojas na Rua Benjamin Constant e José Calil Ahouagi foi demolido após a Tribuna mostrar que a área havia sido tomada pelos crackeiros.
Reconstrução da rede social
Coordenadora do Núcleo de Atenção ao Usuário Álcool e Drogas, Ana Cecília Villela Guilhon, destaca que o plano municipal engloba várias ações, visando ao resgate à cidadania e à inclusão dos usuários. "Temos dois anos para concluir o plano, que conta com vários dispositivos. A chamada pública já foi feita e acredito que, até o fim do ano, estejamos com duas unidades de acolhimento adulto (UAA) implantadas. Funcionará como uma clínica, onde os usuários poderão pernoitar e até morar por um tempo até que sua rede social seja reconstruída. Antes a entrada era pelo Hospital de Pronto Socorro (HPS). Além disso, estamos com Consultório na Rua, que também passou a ser vinculado pela atenção primária à saúde. Os usuários são abordados pela equipe que, além de orientá-los a realizar exames de saúde, os acompanha também se precisam, por exemplo, tirar uma nova identidade."








