Reconstrução urbana em Juiz de Fora exige revisão do modelo de ocupação, diz arquiteto do IAB

Especialista defende mudanças estruturais na reconstrução urbana em Juiz de Fora após chuvas históricas e aponta soluções técnicas para cidades resilientes.


Por Natália Mancio

27/02/2026 às 15h52

A reconstrução urbana em Juiz de Fora entra no centro do debate após as chuvas históricas que atingiram a cidade e municípios da Zona da Mata. Para o arquiteto Guilherme Nogueira Ragoni, presidente do núcleo Zona da Mata e Vertentes do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o momento exige mais do que obras emergenciais: é necessária uma revisão profunda do modelo de ocupação urbana.

Em entrevista ao Tribuna no Ar, o especialista analisou as fragilidades estruturais expostas pelas tragédias recentes e defendeu soluções técnicas para tornar as cidades mais resilientes.

🏘️ Ocupação desigual e áreas de risco

Segundo Ragoni, o modelo de crescimento urbano empurra a população de menor renda para áreas vulneráveis, como encostas e margens de rios.

O alto custo dos terrenos planos e centrais gera uma disputa desigual pelo solo urbano. Como consequência, famílias acabam ocupando áreas suscetíveis a deslizamentos e alagamentos.

Esse padrão de expansão desregrada, motivado por necessidades econômicas, é apontado como fator determinante para os impactos observados não apenas em Juiz de Fora, mas também em cidades como Matias Barbosa, Ubá e Cataguases.

Prioridades técnicas na fase de reconstrução urbana em Juiz de Fora

A reconstrução urbana em Juiz de Fora deve começar por intervenções emergenciais de infraestrutura. Após volumes extremos de chuva, o solo permanece saturado e instável, o que amplia riscos mesmo em períodos de sol.

Entre as prioridades destacadas pelo arquiteto estão:

  • reforço de contenções em encostas;

  • ampliação e modernização da drenagem urbana;

  • recuperação ambiental de áreas degradadas;

  • monitoramento contínuo de zonas críticas.

Sem essas ações, novos episódios podem ocorrer mesmo com chuvas menos intensas.

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(Foto: Felipe Couri)

Ragoni defende que a sociedade civil precisa ter papel ativo na definição do futuro da cidade.

Conselhos municipais e instâncias participativas devem atuar na revisão do zoneamento urbano e na aplicação das leis que regulam o uso e ocupação do solo. Para o especialista, a reconstrução não pode ser apenas técnica — precisa ser democrática.

Um dos caminhos apontados é o fortalecimento da arquitetura social. Instrumentos como a assistência técnica gratuita para famílias de baixa renda podem garantir moradias mais seguras e adequadas às condições do território.

A revisão do zoneamento urbano também é considerada estratégica para evitar novas ocupações em áreas vulneráveis.

Segundo Ragoni, atribuir a tragédia exclusivamente à força da natureza evita enfrentar a discussão estrutural sobre planejamento urbano.

A reconstrução urbana em Juiz de Fora precisa integrar sustentabilidade, justiça social e planejamento de longo prazo.

O arquiteto destaca a importância da colaboração entre poder público, universidades, entidades técnicas e redes de voluntariado especializado, como o próprio IAB, para construir soluções duradouras.

Mais do que reconstruir o que foi perdido, o desafio é replanejar o futuro.

 

 

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