Reconstrução urbana em Juiz de Fora exige revisão do modelo de ocupação, diz arquiteto do IAB
Especialista defende mudanças estruturais na reconstrução urbana em Juiz de Fora após chuvas históricas e aponta soluções técnicas para cidades resilientes.
A reconstrução urbana em Juiz de Fora entra no centro do debate após as chuvas históricas que atingiram a cidade e municípios da Zona da Mata. Para o arquiteto Guilherme Nogueira Ragoni, presidente do núcleo Zona da Mata e Vertentes do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o momento exige mais do que obras emergenciais: é necessária uma revisão profunda do modelo de ocupação urbana.
Em entrevista ao Tribuna no Ar, o especialista analisou as fragilidades estruturais expostas pelas tragédias recentes e defendeu soluções técnicas para tornar as cidades mais resilientes.
🏘️ Ocupação desigual e áreas de risco
Segundo Ragoni, o modelo de crescimento urbano empurra a população de menor renda para áreas vulneráveis, como encostas e margens de rios.
O alto custo dos terrenos planos e centrais gera uma disputa desigual pelo solo urbano. Como consequência, famílias acabam ocupando áreas suscetíveis a deslizamentos e alagamentos.
Esse padrão de expansão desregrada, motivado por necessidades econômicas, é apontado como fator determinante para os impactos observados não apenas em Juiz de Fora, mas também em cidades como Matias Barbosa, Ubá e Cataguases.
Prioridades técnicas na fase de reconstrução urbana em Juiz de Fora
A reconstrução urbana em Juiz de Fora deve começar por intervenções emergenciais de infraestrutura. Após volumes extremos de chuva, o solo permanece saturado e instável, o que amplia riscos mesmo em períodos de sol.
Entre as prioridades destacadas pelo arquiteto estão:
reforço de contenções em encostas;
ampliação e modernização da drenagem urbana;
recuperação ambiental de áreas degradadas;
monitoramento contínuo de zonas críticas.
Sem essas ações, novos episódios podem ocorrer mesmo com chuvas menos intensas.

Ragoni defende que a sociedade civil precisa ter papel ativo na definição do futuro da cidade.
Conselhos municipais e instâncias participativas devem atuar na revisão do zoneamento urbano e na aplicação das leis que regulam o uso e ocupação do solo. Para o especialista, a reconstrução não pode ser apenas técnica — precisa ser democrática.
Um dos caminhos apontados é o fortalecimento da arquitetura social. Instrumentos como a assistência técnica gratuita para famílias de baixa renda podem garantir moradias mais seguras e adequadas às condições do território.
A revisão do zoneamento urbano também é considerada estratégica para evitar novas ocupações em áreas vulneráveis.
Segundo Ragoni, atribuir a tragédia exclusivamente à força da natureza evita enfrentar a discussão estrutural sobre planejamento urbano.
A reconstrução urbana em Juiz de Fora precisa integrar sustentabilidade, justiça social e planejamento de longo prazo.
O arquiteto destaca a importância da colaboração entre poder público, universidades, entidades técnicas e redes de voluntariado especializado, como o próprio IAB, para construir soluções duradouras.
Mais do que reconstruir o que foi perdido, o desafio é replanejar o futuro.