‘Não apareceu ninguém, nós íamos morrer’, conta moradora do Três Moinhos
Em meio a escombros, moradores contabilizam perdas; cachorro foi resgatado e em breve será devolvido para tutora, que está em abrigo
A moradora Genice Maria Torres, de 65 anos, mal podia acreditar no que estava vendo: a casa que construiu com o suor do trabalho se foi no Bairro Três Moinhos e, na pressa de deixar o local, ela conseguiu salvar apenas seus documentos. “Eu vim pra cá com 7 anos e vi esses morros todos descendo na segunda-feira. Meu marido não queria sair de casa”, relembra ela, com receio do quanto ele estava perturbado naquele momento. Não sobrou guarda-roupa, sofá, geladeira ou máquina de lavar para continuar. No momento, há apenas o carro do filho, na garagem, que está preso e não há perspectiva de conseguir ser retirado. Ela também vivia com a neta, que tem transtorno do espectro autista. “Eu trabalho desde a idade de 10 anos. (…) Eu não queria pedir nada pra ninguém, mas perdi tudo, infelizmente preciso de ajuda”, diz.
No momento de sua vida que mais precisou, ela disse que ninguém chegou a tempo de conseguir ajudar ou indicar o que elas deveriam fazer. “Não apareceu ninguém, nós íamos morrer”, diz. É o que também reforça Fabiana Torres, de 32 anos, da mesma família. Ela não mora no bairro, quem reside no imóvel é sua mãe, Maria Sueli Luiz Torres, de 66 anos, que estava na residência no momento do desastre. Em choque, ela conta que a criança de 5 anos que faleceu no bairro estava na casa que foi alugada por ela. “A casa ter caído, não tem problema, mas perder uma menina…imagina como está a minha cabeça numa hora dessas”, lamenta. As duas afirmaram que ainda não receberam direcionamento do que devem fazer, já que o bairro está em escombros: até mesmo a Escola Municipal Antônio Faustino da Silva está interditada.
Tanto Genice quanto a mãe de Fabiana estão entre as centenas de famílias que tiveram que sair de suas casas após interdição pela Defesa Civil. Ambas moravam na Rua Maria Floreci dos Santos, área considerada de alto risco e completamente evacuada, e não sabem se algum dia vão poder voltar para o local. Moradora do bairro há 55 anos, Genice diz que nunca presenciou algo semelhante. “Eu construí minha vida inteira aqui. Agora eu não sei nem por onde recomeçar.”
Este é o link da “vakinha” criada para ajudar a família de Genice: http://www.vakinha.com.br/5972803.
Agora, Genice está abrigada na casa da filha, no Bairro Amazonas, Zona Norte. A família conseguiu alugar um apartamento com dinheiro emprestado, mas ainda não sabe como irá arcar com os próximos meses de aluguel. Ela diz que, até o momento, recebeu apenas o cadastro de uma assistente social e aguarda retorno sobre possível auxílio. “Até agora ninguém ligou para saber se a gente está precisando”, diz.
Doações para as famílias
Para ajudar a família de Genice Maria Torres, de 65 anos, é possível enviar qualquer quantia via Pix (088.081.656-20), em nome de sua filha, Flávia Maria Lima dos Santos, ou contribuir por meio da vaquinha “Recomeço de Vida”.
Já para ajudar a família de Fabiana Florencio Torres Rodrigues, de 43 anos, é possível enviar qualquer quantia via Pix (06094636678).
Cão Bradock foi resgatado com sede e fome no Três Moinhos
Nesta manhã de sexta-feira (27), o cão Bradock foi salvo no mesmo bairro. Ele estava em uma das casas que precisou ser deixada às pressas, no alto do morro, e sua dona, uma mulher idosa, está em um dos abrigos direcionados para a população. A estudante de veterinária Gabriela Falci, que está se voluntariando no bairro, participou do salvamento desse e de cerca de 20 outros animais, entre cachorros, gatos e calopsita. Ela contou que o animal estava muito assustado, com sede e fome, e que comeu uma marmita assim que foi resgatado.
Segundo Gabriela, a maioria dos animais resgatados ainda não foram devolvidos aos tutores, já que muitos indivíduos estão desabrigados e não podem ficar com os animais nos alojamentos. Com a situação ainda em bastante risco, ela comemora ao menos a recuperação dos pets. “Eu fico muito grata de estar conseguindo fazer isso. Ontem, várias casas aqui desabaram. Pensar que pode ser uma das casas em que estavam os animais é gratificante”, disse.




