A política ou a guerra

Nos últimos dias, a sociedade brasileira manteve sua atenção dividida entre dois processos, em parte relacionados: o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal
Federal (STF), e as eleições municipais. Por ironia do destino, os veredictos acerca da ação penal movida contra o uso da máquina pública e do famoso "caixa-dois" eleitoral na compra de apoios parlamentares, começaram a ser emitidos exatamente no momento em que os cidadãos devem decidir, por meio do voto, quem serão os representantes no município. E o farão com alternativas, mais ou menos diversas, sobretudo em Juiz de Fora. Diferentemente do que ocorre no STF, onde decisões são construídas com base no uso, por vezes opaco, do código jurídico, hoje o instrumento em evidência será a política. Por meio dela, problemas, soluções e alternativas são pensadas para além do possível.
Sim, a política é o reino da criação, e não de necessidade. Não por acaso, a disputa em Juiz de Fora coloca frente a frente modelos adversários de cidade, ao convidar, em escala crescente, o eleitorado a realizar um balanço do passado, sem desfocar o futuro. As três candidaturas com maior adesão, conforme as pesquisas divulgadas, saíram de um momento aparentemente indistinto no início da campanha, quando pareciam disputar a herança da tradição – a despeito do hino do novo -, e chegam agora, ao final do primeiro turno, em busca da diferenciação. Para tanto, recorrem ao significado de suas legendas no plano nacional e estadual – PT, PMDB e PSDB -, inescapavelmente ressignificado pela experiência local. Enfrentando, ainda, questões pautadas por candidaturas menores, capazes de acirrar a diferença entre os modelos disponíveis.
Tudo isso no plano da política. Relacionado, mas não confundido, com o que ora ocorre no Supremo. E a declaração da ministra Cármem Lúcia, atual presidente do TSE, na semana passada, quando desferiu seu voto sobre a ação que julgam, ilustra o sentimento com o qual todos devem sair de casa hoje para votar, sobretudo os jovens: esperança. A ministra foi feliz em definir o momento vivido pelo STF – apenas uma ação penal -, e aquele que será vivido nas urnas: a política, mecanismo importante sem o qual só nos resta a guerra. Sem generalizar os maus exemplos, que tenhamos esperança no voto de hoje.








