Revolta contra flanelinhas
Mesmo pagando R$ 10 para ter o carro vigiado por um flanelinha, a estudante de medicina Laila Karina Benatti Passos, 23 anos, teve o veículo avariado na porta de uma boate, na Cidade Alta, na madrugada de domingo. Ao retornar para o automóvel, não havia mais guardadores de carro no local e o vidro dianteiro do lado direito havia sido quebrado com um tijolo, o painel destruído e uma bolsa com maquiagem e um som automotivo furtados do interior do veículo. Ela conta que pagou a quantia para um guardador de carro e recusou-se a dar o mesmo valor para outro. O fato ganhou repercussão na internet. A indignação se dá porque muitas pessoas se sentem acuadas pelos flanelinhas, dão o dinheiro, mas não têm seu bem protegido.
A questão dos guardadores de carro volta à tona exatamente seis meses após a Prefeitura anunciar prazo para o fim da atividade na cidade, a partir do Bairro Alto dos Passos, na Zona Sul. Por meio de um plano de ação iniciado em fevereiro, inclusive com levantamento socioeducativo dos flanelinhas, existia a previsão de que, até agosto, este tipo de atividade não ocorresse mais na Zona Sul de Juiz de Fora. No entanto, a ação deles permanece inalterada.
De acordo com o subsecretário de Gestão do Sistema Único de Assistência Social e Inclusão Socioprodutiva, órgão ligado à Secretaria de Desenvolvido Social (SDS), Rogério Rodrigues, o diagnóstico feito com 38 flanelinhas que atuam na Zona Sul não teve o retorno esperado, sendo que só dois aceitaram ser encaminhados a serviços assistenciais: um fez curso de garçom e outro é acompanhado no centro de referência ao cidadão em situação de rua. "Não houve procura para regularizar documentação e nem interesse para escolas e cursos. Por fim, percebemos que começaram a se sentir incomodados com as aproximações das equipes. Então passamos a fazer atendimentos pontuais, como o consultório para usuários de álcool e outras drogas."
Na opinião do subsecretário, só haverá maior adesão quando a Área Azul noturna for implantada na região. A previsão é que isso ocorra entre novembro e dezembro, já que houve atrasos no processo de licitação que escolherá a empresa que vai operar o serviço. Rogério também falou que existe a expectativa de ampliar o projeto para outras regiões da cidade, mas que isso ainda precisa ser avaliado.
Pagamento adiantado
O caso da estudante de medicina evidencia como os flanelinhas atuam livremente em espaços públicos. Conforme ela explicou, ao chegar à boate, foram pagos R$ 10 para um guardador, valor que ele exigiu adiantado. "Chegamos por volta das 23h. À 1h, tive um imprevisto e precisei sair da casa noturna por cerca de 30 minutos. Quando retornei, outro flanelinha se aproximou e pediu mais R$ 10. Expliquei a situação e disse que não tinha dinheiro trocado naquele momento e, quando saísse da festa, pagaria a ele. Às 4h30, quando ia embora para casa, vi meu carro (um Fiat Uno Vivace) destruído e não havia mais nenhum guardador na rua, embora eles tenham prometido ficar até o amanhecer." Conforme a estudante, ela não chamou a Polícia Militar porque ficou receosa de esperar uma viatura na rua. Além disso, ela não teria necessidade de provar o dano por não ter seguro. "Hoje (ontem) paguei R$ 140 para trocar o vidro, sendo que, na concessionária, estavam me cobrando R$ 800. Ainda não fiz orçamento do painel danificado."
Com a repercussão do caso, um estudante de 21 anos criou ontem no Facebook a página "Campanha JF sem flanelinhas". "Eu já fui ameaçado e, recentemente, um amigo teve o carro arranhado com palavrões após se recusar a pagar o guardador na porta de uma boate." A página foi criada por volta das 13h e, até 19h, já reunia 300 seguidores.
Em nota, a assessoria de comunicação da 4ª Região da Polícia Militar informou não ter dados específicos das ações envolvendo flanelinhas. Em casos como o do fim de semana, a orientação é acionar o 190 para que as providências sejam adotadas.
Condenações
Este mês, quatro flanelinhas foram condenados à prisão em Belo Horizonte. Conforme o Tribunal de Justiça de Minas, os infratores exigiram o pagamento de R$ 20 a um casal para que "nenhum problema" acontecesse com o carro em setembro de 2013. No entendimento do juiz da 8ª Vara Criminal, "houve grave ameaça e tentativa de extorsão". Ele afirmou que "exercer a atividade de flanelinha sem autorização da prefeitura é contravenção penal". Por isso, três réus foram condenados a cinco anos e quatro meses de prisão. Outro, reincidente, foi condenado à prisão em regime fechado por seis anos e nove meses. Cabe recurso, mas o grupo está preso preventivamente.









