São Pedro teme violência

Imagens de câmera mostram assaltante dentro de uma clínica veterinária
O constante registro de assaltos e furtos a estabelecimentos comerciais no Bairro São Pedro, na Cidade Alta, assusta lojistas e moradores da região. Os casos são recorrentes nas avenidas Presidente Costa e Silva, Pedro Henrique krambeck e Senhor dos Passos onde há maior concentração de lojas e prestadores de serviços. Proprietários e funcionários temem por sua segurança. Em algumas situações, bandidos usaram armas em plena luz do dia, efetuando disparos. Durante a madrugada, as ocorrências de arrombamentos, seguidos de furtos e danos ao patrimônio, tiram o sossego de quem, com esforço, conseguiu ter o próprio negócio. A Polícia Militar confirma que houve aumento no número de lojas arrombadas nos últimos três meses. Enquanto em abril e maio, os registros não passaram de seis, em junho, houve um salto para 12 casos.
Há mais de um ano, a Cidade Alta teve ativado o programa "Rede de comerciantes protegidos". O projeto da Polícia Militar visa uma parceria da corporação com a comunidade. Os comerciantes ajudariam a vigiar o bairro e alertariam a PM quando observassem movimentação estranha na vizinhança. Eles usariam um apito para pedir por socorro. Mas, segundo as vítimas mais recentes, a iniciativa não avançou. O motivo, na opinião de alguns lojistas, seria, inclusive, a falta de mobilização da própria categoria.
"São planos momentâneos, servem apenas como tapa-buracos, mas sem nenhuma continuidade", afirma um comerciante. Outro diz que só ouviu falar da medida na época em que foi implantada. "Sei que reuniões foram marcadas. Saiu até notícia no jornal, mas, efetivamente, não trouxe resultados positivos." A dona de um açougue faz crítica ainda mais contundente. "Esse projeto não faz diferença para a segurança. Aqui precisa é de um reforço de patrulhamento, principalmente no período de fechamento do expediente." Ela acrescenta que a demora no deslocamento das viaturas é outro problema. "Até que cheguem, o pior já aconteceu", reclama. Em contrapartida, outros comerciantes dizem que o programa seria de grande benefício se os lojistas tivessem se mobilizado e "comprado a ideia". "Não adianta a PM tentar sozinha, ela também precisa da gente. Sei que as reuniões foram marcadas, mas houve baixa adesão. Assim é difícil o projeto decolar", afirmou o dono de uma loja de roupas.
Já na época de seu lançamento, a PM havia informado que, embora cerca de 120 representantes tivessem sido notificados para a reunião de implantação, apenas 20 compareceram. Mais de um ano depois, a assessoria de comunicação do 27º Batalhão de Polícia Militar informou que, apesar de a "Rede de comerciantes protegidos" funcionar, a mobilização continua baixa. Segundo o assessor de comunicação, capitão Jean Amaral, no final de 2012, nova convocação foi realizada, sendo convidado o mesmo número de representantes, mas apenas 23 atenderam ao chamado. Segundo ele, outra convocação será feita nos próximos dias.
O militar alega, ainda, que a região, em função da instalação de cerca de 30 condomínios residenciais de alto padrão, possuiu uma ação diferenciada. Segundo ele, há patrulhamento exclusivo para prevenção de arrombamentos, furtos e roubos à noite, além de policiais a pé e de motocicleta. A Cidade Alta ainda será contemplada, em outubro, com a instalação de câmeras de segurança dentro do programa "Olho vivo".
Comunidade acuada
Em abril, o dono de uma farmácia na Avenida Presidente Costa e Silva, 62 anos, viveu momentos de pânico. Ele estava sozinho, por volta das 11h, quando foi surpreendido pelo ladrão, que efetuou dois disparos, assustando também quem estava na rua. Apesar da ação violenta, não houve feridos. O bandido fugiu de bicicleta, levando R$ 40. A filha do comerciante, 24, afirma que se sente insegura. "Antes, o medo era só no horário da noite, mas agora, depois que fomos assaltados às 11 da manhã, o temor está presente o tempo todo. Colocamos câmeras de segurança, mas mesmo assim não dá para confiar totalmente, porque os bandidos não temem mais a existência delas e usam até bicicleta para fugir", declara a jovem.
Quatro dias antes do roubo à farmácia, dois ladrões utilizaram o mesmo modo de fuga após assaltarem um açougue na Avenida Senhor dos Passos, por volta das 20h30. Dois jovens entraram no estabelecimento e renderam o proprietário. Um dos bandidos estaria armado com revólver calibre 22. As bicicletas também serviram para a fuga depois de um roubo a um posto de combustível, na Rua José Lourenço Kelmer. Quatro homens chegaram ao local, um deles estava com um revólver aparentando ser de calibre 22. Eles obrigaram um dos frentistas a abrir o caixa e entregar cerca de R$ 400. Outro bandido ainda rendeu uma cliente que já havia abastecido seu veículo, roubando R$ 20 e o celular dela.
O dono de uma loja de material de construção, que teve o local invadido há cerca de um mês, reforçou seu sistema de alarme na tentativa de inibir outras ações semelhantes. "Muitos desses invasores são os mesmos envolvidos em diversas ocorrências. Alguns já até foram presos, mas voltam para a rua e retornam ao crime", afirmou. No estabelecimento dele, na Presidente Costa e Silva, os criminosos subiram no telhado, quebraram uma grade e conseguiram acessar seu interior. "Tivemos um prejuízo de cerca de R$ 2 mil em dinheiro, além de máquinas que foram levadas." Na madrugada de 14 de julho, uma casa de produtos veterinários sofreu uma invasão. O bandido arrombou uma janela e conseguiu acessar seu interior. Além de danificar a máquina de tosa, ele subtraiu alguns materiais. A ação do ladrão foi gravada pelo circuito de segurança. Só para consertar a janela danificada foi preciso investimento de R$ 1 mil.
Quem frequenta o comércio na região também está preocupado. "Todos ficam vulneráveis. Eu posso estar em uma loja e, de repente, o local é assaltado. Já evito ir à casa lotérica nos dias de grande movimento. Até padaria tem sido assaltada no meio da tarde", reclama uma funcionária pública, 48. Ela se referiu ao crime contra uma padaria, no início do ano, quando dois ocupantes de uma motocicleta pararam na frente do estabelecimento, na Presidente Costa e Silva, e um deles, com um pistola na mão, desembarcou e mandou que todos os clientes se afastassem. Eles fugiram com R$ 50. A falta de tranquilidade para quem usa caixa eletrônico nos estabelecimentos na área também é grande. "Apesar de úteis, esses equipamentos servem para chamar a atenção dos bandidos", afirmou um aposentado, 58, que acrescentou que toma todos os cuidados quando precisa utilizar essas máquinas. Em março, dois caixas eletrônicos do Centro Comercial São Pedro, na Rua José Lourenço Kelmer, foram arrombados em um crime ousado cometido por um bando armado a poucos metros da sede da 99ª Companhia da PM.
Diagnóstico e reconhecimento das lideranças
Consultor em segurança pública, professor do Centro de Altos Estudos de Segurança Pública da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, o coronel reformado da Polícia Militar José Vicente da Silva Filho explica que há setores da sociedade que se mobilizam rapidamente em projetos semelhantes ao "Rede de comerciantes protegidos", outros participam temporariamente ou não se interessam. "É preciso criar hábitos, ter paciência e frequência das ações para que os resultados apareçam." Ele defende, ainda, que é necessário avaliar o que funcionou, estabelecendo o papel de cada parte envolvida, inclusive chamando outras entidades. "Por exemplo, a Prefeitura pode melhorar a iluminação pública, pode haver a instalação de câmeras de segurança e o que mais for considerado necessário."
Ainda conforme o consultor, a realização de reuniões periódica do programa é fundamental para avaliar avanços e necessidades de intervenções. "Nesse trabalho conjunto pode haver a contratação de vigias treinados pela Polícia Militar. Eles seriam colaboradores e criariam um fácil canal de acesso com a polícia para troca de informações, relato de situações suspeitas e imediato emprego de medidas para inibição das ocorrências."








