Quando a cidade atrasa o socorro: como a infraestrutura urbana afeta ambulâncias em JF
Especialista em planejamento urbano e socorristas vinculados à Unimed e à MedCall, terceirizada do Hospital Monte Sinai, explicam como a acessibilidade das vias interfere no atendimento de emergência

“A ambulância passou por aqui e quase chegou à beira do barranco. Se eu não estivesse no local, teria avançado ainda mais. Saí gritando para que parassem, e eles conseguiram frear”, relatou Djalma Sampaio, 58 anos, ao lembrar do episódio em que evitou um acidente na Rua Augusta Vicente Vieira, no Bairro Grajaú, na Zona Leste de Juiz de Fora, onde a falta de sinalização e o avanço da encosta comprometem parte do asfalto. Segundo ele, após a parada forçada, a equipe precisou retirar os equipamentos manualmente. “O pessoal da ambulância teve que carregar as coisas com a mão. Eu ajudei com o balão de oxigênio, porque só tinha duas pessoas na ambulância”. Assim, ele acompanhou a equipe a pé até a casa da vizinha, que precisava de atendimento médico com urgência.
Djalma, morador há 25 anos do Grajaú, explica que o outro caminho para chegar ao local exige dar a volta no quarteirão, entrar por um beco e seguir até o fim da rua. Um desvio que, no cotidiano, pode parecer apenas incômodo, mas que, no caso das ambulâncias – em que o tempo de resposta repercute também no desfecho de uma emergência – torna-se decisivo. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), a área de encosta citada por Djalma foi afetada pelas chuvas registradas em 2022. No entanto, somente três anos depois, em setembro de 2025, é que foram liberados recursos para intervenções no local. Inicialmente, o prazo de conclusão das obras era abril deste ano, conforme anuncio oficial do governo em um outdoor instalado na beira da encosta. Entretanto, a data para o término do serviço foi ampliada para junho, segundo a PJF.
Apesar das obras no local já terem iniciado e, recentemente, um muro provisório ter sido colocado como barreira para o terreno, o acesso de ambulâncias a áreas críticas não é exclusividade do episódio, segundo relatou um funcionário do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que preferiu não se identificar. Para ele, essa é uma realidade frequente no cotidiano dos socorristas. “Existem, sim, muitas áreas e não são poucas em que a ambulância do Samu não consegue acessar devido à falta de infraestrutura urbana adequada”, conta o profissional. “Já houve situações, inclusive em meio urbano, em que a equipe precisou realizar o deslocamento do paciente em maca por longas distâncias, em alguns casos cerca de meio quilômetro, até um ponto onde a ambulância pudesse chegar com segurança. Esse tipo de cenário impacta diretamente no tempo-resposta e aumenta o desgaste físico da equipe, além de representar riscos adicionais ao paciente”, conclui.
Segundo o doutor em planejamento urbano e regional Victor Hugo Godoy, quando se discute acessibilidade urbana, raramente se considera de forma específica a acessibilidade para serviços de emergência. Sem políticas voltadas diretamente para sua circulação, as ambulâncias acabam sendo impactadas por condições gerais da cidade, como buracos, ausência de drenagem adequada de águas pluviais, via muito estreitas ou com topografia acentuada.
Na última semana de fevereiro deste ano, quando fortes chuvas atingiram a Zona da Mata e ocasionaram deslizamentos e enchentes, os serviços de saúde também tiveram dificuldades com os deslocamentos. Um exemplo ocorreu na noite de quarta-feira, 25 de fevereiro, quando um paciente era transferido da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Norte, no Bairro Nova Era, para o Hospital e Maternidade Terezinha de Jesus, na Zona Sul, por meio de uma ambulância do STIH (Serviço de Transporte Inter-Hospitalar).
A situação, flagrada pela equipe de reportagem e posteriormente confirmada pela assessoria do Samu, mostrou que o veículo ficou preso em meio à enchente que tomou conta da Avenida Presidente Itamar Franco. A água invadiu a ambulância, que transportava um paciente internado em decorrência de um quadro de sepse. Após permanecerem por vários minutos dentro do veículo parado pela água, os socorristas ainda precisaram empurrar a ambulância para conseguir seguir o trajeto.

O impacto do território no atendimento de urgência
A fala do especialista em planejamento urbano retrata a rotina também indicada por Júlio César Oliveira de Andrade, responsável técnico pela Medcall Inter-hospitalar, empresa terceirizada que atende o Hospital Monte Sinai. “Você percebe regiões em que o asfalto permanece esburacado por longos períodos, ou com buracos ao redor de tampas de bueiro, devido aos diversos recapeamentos que foram realizados na área. Esses desníveis acabam formando cavidades com profundidade significativa, que causam danos diretos não apenas ao paciente, mas também à equipe e aos equipamentos”, explica Andrade.
Isso porque os obstáculos na via fazem com que a ambulância tenha que diminuir a velocidade, um movimento de “acelerar e freiar” que compromete a chamada “estabilidade hemodinâmica do paciente”. Ele acrescenta que o atendimento também passa a ser comprometido por construções desordenadas que interrompem o fluxo normal de algumas vias. Casas que se aproximam muito das outras em relação ao limite das calçadas ou, até mesmo, das vias, prejudicando o fluxo de veículos – dentre eles, os de emergência. “Em uma rua comprometida, você não consegue estabelecer uma saída rápida”, comenta sobre o uso do espaço. “Hoje o usuário tem fácil acesso à internet e ao celular, então mesmo em áreas remotas ele consegue acionar o atendimento emergencial, mas o deslocamento até lá é muito comprometedor.”
Segundo Andrade, que é especialista também em busca e resgate em estruturas colapsadas, a Zona Norte e as áreas rurais são pontos críticos. Mas, por toda a cidade, alguns padrões se repetem: pavimentação ruim, vias com pouca ou sem acessibilidade, a linha férrea interrompendo o fluxo de veículos e o trânsito são alguns desses exemplos. No caso desse último, mesmo quando a população auxilia a passagem da ambulância, muitas vezes, o asfalto comprometido não permite que o espaço seja, de fato, aproveitado, “porque o pavimento interrompe esse deslocamento adequado”, justifica.
A responsabilidade de cada um
O profissional destaca ainda uma dimensão que ultrapassa os problemas de infraestrutura urbana e passa a envolver a responsabilidade de cada um. Carros estacionados de forma irregular ou abandonados, bloqueando a passagem em determinadas ruas; curiosos que atrapalham o acesso das equipes de socorro para fotografar acidentes; e estabelecimentos comerciais que ocupam indevidamente as calçadas estão entre os fatores apontados por ele como comprometedores.
O deslocamento até a chegada na casa do paciente também foi observado por Jose Rafael Kasmiroski, coordenador do SOS Unimed – serviço de atendimento móvel da Unimed Juiz de Fora como um percurso com obstáculos. Ele percebe que a acessibilidade urbana hoje não é pensada para garantir um deslocamento rápido de serviços de emergência e cita dois aspectos chave: o aumento da frota de veículos e a considerada baixa implementação de corredores exclusivos para ônibus, que coloca os serviços de urgência reféns do tráfego acentuado. “Pensar na fluidez do trânsito impacta diretamente na saúde e na segurança de nosso povo”, ele afirma.
Kasmiroski cita que a sobrecarga em alguns pontos faz com que, constantemente, os profissionais pensem em rotas alternativas para acessar mais rápido o local das ocorrências. Mas há, também, momentos em que isso não é suficiente e é preciso fazer de outra forma. “Já ocorreram situações em que precisamos chegar até a casa do paciente a pé, por causa da rua não estar pavimentada, o que gerava muita lama e risco de atoleiro para o veículo.” Outro caso que ele relata é o das vias que ficam alagadas pela cidade quando chove, afetando toda a população, inclusive as ambulâncias.
Planejamento urbano em uma cidade desigual
Para o especialista em planejamento urbano Victor Hugo Godoy, caminho possível a fim de mitigar esses problemas seriam políticas de zoneamento mais flexíveis. Uma cidade menos dispersa, mais conectada e melhor estruturada faz com que a mobilidade urbana funcione para todos, especialmente para ambulâncias e outros serviços que dependem de rapidez no deslocamento, avalia.
Um aspecto levantado por Godoy trata-se de como o solo é organizado na cidade, o chamado zoneamento.“Quando o planejamento urbano permite bairros muito espalhados, com baixa densidade e expansão constante do perímetro urbano, os serviços precisam percorrer distâncias maiores, o que aumenta o tempo de resposta e dificulta o acesso a algumas áreas”, explica o especialista.
Ele aponta que um exemplo pode ser visto em condomínios de alto padrão, onde o tamanho mínimo dos terrenos é significativamente maior, o que reduz a densidade urbana e contribui para uma expansão mais dispersa da cidade. Em uma sociedade desigual, essa dinâmica também empurra parte da população para regiões mais afastadas, onde o custo do aluguel tende a ser menor.
Conforme explica Godoy: “se a gente imaginar que a ambulância tem que percorrer muitos quilômetros para chegar na casa de alguém, depois muitos quilômetros para chegar no hospital”, acena para moradias em locais isolados e distantes, inclusive, de hospitais, Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidade de Pronto Atendimento (UPA). “O planejamento urbano também deveria prever, idealmente, a distribuição dos serviços de saúde na cidade. Esses são princípios básicos do planejamento urbano: a distribuição dos serviços públicos pela cidade de forma mais igualitária, de modo que não haja tanto impacto ou que não fique sobrecarregada apenas uma área da cidade.” Para ele, ao identificar essas carências em determinadas regiões o próximo passo seria direcionar investimentos para aquele local.
“Eu acho que há uma correlação muito direta entre infraestrutura urbana e acessibilidade de serviços de saúde. E, claramente, locais com infraestrutura urbana mais precária, lugares mais afastados, com topografia mais difícil, vias mais estreitas e mais tortuosas, com buracos, problemas de drenagem, regiões com mais alagamentos e muito congestionamento, têm tudo isso relacionado a essas questões de infraestrutura”, finaliza Godoy. Assim, infraestruturas urbanas precárias somam ainda mais desafios ao acesso ao socorro. Um caminho para enfrentar esse problema, conforme indica o especialista, seria uma melhor articulação entre a distribuição dos serviços de saúde e a densidade populacional das regiões, evitando a sobrecarga de unidades específicas e também extensos deslocamentos de ambulâncias.
Tópicos: Ambulância / juiz de fora









