Moradores passam a madrugada na rua após alagamentos e risco de deslizamentos na Zona Norte
Após alagamentos, Defesa Civil interdita casas e Prefeitura orienta cadastro para acesso a auxílio-moradia

Com medo de novos alagamentos e deslizamentos, moradores do Bairro Francisco Bernardino, na Zona Norte, passaram a madrugada desta quinta-feira (26) na rua, dentro de carros ou sob guarda-chuvas, sem conseguir dormir diante do risco de a água voltar a subir. Tanto no Francisco Bernardino quanto no Jardim Natal, bairro vizinho, casas foram interditadas pela Defesa Civil após apresentarem sinais de instabilidade, enquanto outras ficaram inundadas. Entre perdas materiais, insegurança e incerteza sobre o retorno para casa, moradores relatam uma das noites mais difíceis já vividas na região.
Moradores da Rua João Visioná, no cruzamento com a Tomás Gonzaga, no Bairro Francisco Bernardino, tentam dimensionar os prejuízos após a chuva. Rosângela de Almeida, 53 anos, conta que alagamentos já faziam parte da rotina da via, mas nunca nessa proporção.
“Sempre que chove, alaga no final da rua, mas não assim. As casas que desceram do Jardim Natal caíram dentro do rio, obstruíram a passagem da água e ela voltou toda, entrando pela frente das casas”, relatou.
Segundo a moradora, a situação foi inédita para a comunidade. “Nunca teve nada dessa proporção. O que aconteceu aqui foi a primeira vez. Tem muita casa em área de risco e a gente está com medo de que, com novas chuvas, a água encha de novo.”
Rosângela afirmou que a Defesa Civil esteve no local, mas a noite foi de apreensão. “Desde o primeiro estalo que a gente ouviu, passamos a noite inteira na rua, com criança, sombrinha e tudo. Na minha casa, a água entrou e marcou a parede numa altura muito alta. Nossos vizinhos ficaram desesperados. Não dormimos. As crianças dormiram dentro do carro.”
A casa de Maria Silva da Cruz, 53 anos, foi atingida pela terra e pelos destroços de outros imóveis que desabaram na região. Desde segunda-feira, ela e a família precisaram deixar o local às pressas e ainda não puderam retornar, já que a residência foi interditada pela Defesa Civil.
“Só conseguimos tirar documentos e algumas roupas”, contou. Segundo Maria, a saída foi repentina. “É muito triste termos que deixar nossa casa, mas, pelo menos, eu, meus filhos e meu marido saímos com vida.”
Moradora do endereço há mais de 30 anos, ela diz que nunca havia presenciado algo semelhante. “Criei meus filhos todos ali. Isso nunca aconteceu em todo esse tempo que a gente mora aqui.” Sem poder voltar para casa e ainda sem assistência, a família tem passado as noites na casa de conhecidos. “É muito difícil. A gente vê tudo desmoronando.”

‘Já tinha perdido minha casa 40 anos atrás’
Morador da casa número 378 da Rua Dr. Augusto Eckman, no Bairro Jardim Natal, Zona Norte, Charles Faustino, 56 anos, viu o imóvel ser interditado após apresentar sinais de deslizamento desde segunda-feira (23). Esta é a segunda vez que ele perde uma casa em situação semelhante. “Eu já tinha perdido aquela casa ali há 40 anos. Agora lá vai ela de novo… E agora a minha também está indo embora. Tem dois anos que comprei essa casa e já perdi”, lamentou.
Atualmente acolhido na casa da irmã, Charles conta que ainda não conseguiu retirar todos os pertences. “A parte de cima está com meus móveis, mas não dá para tirar, porque corre o risco de cair.” Trabalhando com fretes de mudança, ele diz que agora precisa recomeçar mais uma vez. “Agora é trabalhar para ver o que vou conseguir. Vamos ver se consigo o auxílio da Prefeitura para arrumar um lugar para ficar.”
Defesa Civil orienta moradores a deixarem residências
A secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular, Cidinha Louzada, esteve na região e reforçou que a principal orientação para moradores de áreas classificadas como de risco é deixar o imóvel imediatamente ao primeiro sinal de instabilidade.
“A primeira coisa é sair. A Defesa Civil orienta a pessoa a sair. Ontem mesmo, todas as pessoas que foram orientadas e saíram tiveram suas vidas preservadas”, afirmou. “O que a gente vê hoje aqui parece um campo de guerra.”
Segundo ela, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) já estruturou pontos de apoio para atender as famílias afetadas. Um dos abrigos funciona na Escola Municipal Antônio Carlos, além de uma base de atendimento montada na própria rua atingida. A secretária destacou que muitos moradores ainda não aparecem nas estatísticas oficiais porque estão desalojados, mas acolhidos temporariamente por vizinhos e parentes.
As famílias que perderam suas casas devem procurar a Defesa Civil para realizar cadastro e solicitar o auxílio-moradia. “A pessoa poderá alugar um imóvel no próprio território, para que, enquanto a casa dela não for restabelecida ou a prefeitura não consiga fazer alguma intervenção, ela esteja segura”, explicou. Não há prazo limite para solicitar o benefício e, segundo ela, a liberação ocorre de forma ágil, especialmente em situações de calamidade.
Além disso, o município conta com o programa “Minha Casa para Sua Casa”, que recebe doações de móveis e itens essenciais para redistribuição às famílias atingidas. “Dependendo daquilo que a pessoa perdeu, a gente vai doando. Já fizemos isso em outros locais e aproveitamos para pedir que quem puder doar, procure a prefeitura”, disse.
O contato para informações e acesso aos serviços pode ser feito pelo telefone (32) 3029-7600.









