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Superação e esperança nas ruas


Por Daniela Arbex

25/12/2011 às 07h00

Eles são meras sombras sociais. Ganham as ruas todos os dias, retiram delas o que pode ser reaproveitado, mas são descartados como o lixo que recolhem. Somam mais de cinco centenas de seres ignorados só em Juiz de Fora, quase 120 mil no país. Invisíveis para a sociedade, essa gente excluída carrega o estigma da marginalidade. No entanto, quando o olhar se despe do preconceito, a imagem distorcida ganha mais clareza. Sob um novo foco, é possível perceber os detalhes de humanidade. Assim, Antônio, o catador de papel que enfeia a via pública e ‘atrapalha’ o trânsito, pode ser enxergado como realmente é: pai de família dedicado, que trabalha debaixo de sol e chuva, para manter o mínimo de dignidade dos seus. Poucos aguentariam recolher, separar e puxar os 500kg de resíduos pelas avenidas, numa maratona diária de superação. Já Paulo, o indivíduo barbado em situação de rua, transforma-se apenas em mais um dos oito milhões de brasileiros desempregados que, ao perderem o lugar no mercado de trabalho, ainda não encontraram recolocação. Engana-se, porém, quem deduz que a vivência de rua é só o que eles têm em comum. Apesar de toda a invisibilidade que lhes é imposta, esses homens desprovidos do mínimo ainda conseguem juntar esperança. Mesmo sem um teto digno e mesa farta, eles brindam ao amanhã e esperam que ele chegue rápido, trazendo uma vida melhor.

Antônio

Antônio Carlos Alves da Silva

Apesar de medir quase 3 metros de altura e pesar mais de 500kg, Antônio Carlos José Alves da Silva, 51 anos, passa despercebido pelas ruas. Sem o carrinho que ele usa para recolher os resíduos que serão reciclados, ele fica com 1,72m de altura e mirrados 58kg. Mesmo franzino, o vascaíno, que há oito anos vive do lixo em Juiz de Fora, parece um gigante durante as 11 horas de trabalho diário. Nem a mão quebrada em uma destas jornadas fez o catador diminuir o ritmo. Sem tempo para sentir dor, esse brasileiro exibe números impressionantes. O maior deles refere-se a meia tonelada de resíduos, contando o peso do carrinho, que ele puxa diariamente por mais de três quilômetros de trajeto. De São Mateus, onde recolhe o material, até a Rua Floriano Peixoto, no Centro, endereço do depósito que compra os produtos de Antônio, ele gasta, em média, 25 minutos. Com a chuva intensa dos últimos dias, faz o percurso em cerca de 37 e, mesmo com as roupas e o calçado encharcados, só pára de trabalhar depois que a última latinha é pesada.

"Não posso esconder da chuva", responde Antônio, ao ser avisado por um morador de São Mateus que deveria se proteger da tempestade. O catador estava em um dos momentos mais delicados da tarefa: a arrumação do carrinho para caber o máximo de lixo. Tudo é separado cuidadosamente, dividido em sacos, acondicionado na carrocinha e amarrado para que a os resíduos não rolem pelo asfalto. Quando a tarefa é concluída e os restos da calçada varridos, tem início a parte mais subumana da atividade: a tração da carroça, momento em que o homem assume a tarefa que deveria ser restrita a um animal. Junto com os veículos, Antônio pára em cada sinal. Para tentar minimizar o impacto no trânsito, chega a correr com o carrinho em alguns trechos do trajeto.

Dia desses, o catador esbarrou seu carrinho na lataria de um carro de passeio. O motorista seguiu Antônio até o depósito, esperou que ele recebesse a féria do dia, cerca de R$ 45, exigindo todo o dinheiro para pagar o conserto do carro que dirigia. Restou a Antônio voltar a pé para Borboleta, onde mora com a família num barraco, sem um tostão no bolso e sem os alimentos que ele compra diariamente para a esposa e os dois filhos de 12 e 16 anos, estudantes de escolas públicas. "Foi duro, mas não me abati. Vou para as ruas com um sorriso no rosto. Faço questão de desejar bom dia para todos, mas a maioria não responde. Tem gente que age como se fosse dona do mundo, apesar de estarmos aqui apenas de passagem", diz.

Após perder o emprego, há oito anos, Antônio foi despejado. Hoje ele e a família residem numa área de invasão, em um imóvel de três cômodos: banheiro, quarto e cozinha. Os pais e os dois filhos adolescentes dividem o mesmo quarto e tentam achar no cubículo um lugar em que não sejam atingidos pela água que pinga através das goteiras. Não passam fome, mas, nesta vida de migalhas, a única coisa que sobra é a necessidade. Lá não há sequer mesa para fazerem as refeições. Por isso, o jantar de Natal e de todos os outros dias é feito com o prato na mão, cada um sentado em sua cama. Mas não é isso que causa tristeza em Janaína, 12 anos, a filha do catador. Para ela, duro mesmo é ver o pai nas ruas. "Não fico bem vendo meu pai carregar tanto peso. Queria uma vida melhor para nós. Sonho com a felicidade da minha família e com o dia em que teremos uma casa onde caiba uma mesa e um quarto para mim e meu irmão", revela a menina. 

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Paulo Tadeu Soares da Silva

O ex-vigia Paulo Tadeu Soares da Silva, 57 anos, passou os últimos quatro dormindo nas ruas. Esse era o último destino que imaginou para alguém que, na maior parte da vida, teve carteira assinada, teto e uma família. Hoje, porém, o pai de três filhos vive só, tendo somente um rádio como companhia. Com pouco estudo, alcançou apenas a quinta série do ensino fundamental. Por isso, Paulo sabe que tem poucas chances de ser reinserido ao mercado de trabalho. Deixou para trás os bons tempos de trabalho no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, e a época em que participou da construção do metrô da cidade fluminense. Mas nem a sujeira das ruas e a violência nas calçadas o incomodam tanto quanto o descaso alheio.

"A maior humilhação é as pessoas segurarem suas bolsas quando passo perto delas. Sou um trabalhador, embora a gente seja julgado pela aparência. Deixo minha barba assim exatamente para afastá-las. Mas o que tenho dentro de mim não corresponde ao que sou por fora", afirma o homem em situação de rua. Mesmo na exclusão, Paulo não cultiva o hábito de lamentar-se. "Tem gente pior do que eu. Apesar de dormir embaixo do carrinho em que recolho papel, não sinto frio. Tenho colchão, duas cobertas boas e a lona que coloco sobre ele impede a chuva de entrar. Meu único problema hoje é ocupar a mente", diz Paulo, referindo-se ao período de abstinência. Largou a dependência sozinho e luta para manter a droga, que conheceu a partir da experiência na rua, longe da sua vida.

O trabalho de catador ajuda a preservar o resto de dignidade, já que o dinheiro que recebe com o material de reciclagem, menos de um salário mínimo, evita o constrangimento de ter que pedir dinheiro para comer. "Estou feliz neste Natal, porque posso festejar com frango e refrigerante. Apesar de só, sei que Deus estará comigo". Aliás, Paulo salienta que está numa boa fase, já que comemora o fato de ter conseguido juntar dinheiro para a recente compra de um novo carrinho, uma conquista e tanto para alguém que tinha tudo para nada planejar. "Ainda sonho sim. Tenho esperança de voltar ao que era antes, arranjar um emprego digno e uma casa para morar", confidencia.

Na despedida, Paulo surpreende de novo com uma revelação: "Não me lembro qual foi a última vez que alguém apertou a minha mão." 

 

 

‘Fingir que não vê é uma forma de se proteger da dor’

Em matéria de produção científica, não há exemplos tão radicais de dedicação ao trabalho de campo como o dele. Há 17 anos, o doutor em psicologia social pela USP, Fernando Braga da Costa, 36 anos de idade, assumiu, pela primeira vez, a função de gari, varrendo as ruas de uma das maiores universidades públicas do país. A ideia nasceu de uma atividade acadêmica proposta por um professor no segundo ano da faculdade de psicologia, mas a experiência foi tão transformadora que levou o então jovem estudante a manter o projeto por dez anos. O que começou como iniciação científica virou tese de mestrado e doutorado. De uniforme e vassoura na mão, Fernando sentiu na pele como é fazer parte da invisibilidade pública. "A gente finge que não enxerga essas pessoas. É preciso reinventar a divisão de trabalho para que não exista uma pessoa responsável por limpar nossa sujeira. Caso contrário, não conheceremos democracia de verdade ou uma sociedade de iguais. "

Fernando Costa – O que mais impressionou nessa experiência?

Tribuna – O que mais me pareceu chocante foi o fato de que eles vivem uma situação de grande miséria material, além do trabalho insalubre, mas, em dez anos de convivência com esse grupo, raríssimas vezes, eu poderia mencionar, eles reclamaram sobre falta de dinheiro. A despeito da miséria material, eles tinham uma presença muito rica de outras coisas. O contato com eles era muito feliz e de muita solidariedade.

– Foi difícil ser ignorado pelas pessoas quando estava vestido de gari?

– No começo, era muito chocante. Quando eu comecei a trabalhar como gari, as pessoas passavam por mim, e eu parava de varrer para cumprimentá-las. No entanto, elas nem olhavam na minha cara. É curioso que os meus companheiros ainda perguntaram: "Você achou mesmo que ia colocar uniforme e os seus colegas da faculdade iam te enxergar com essas roupas? Eles nem olham na cara da gente."

– Quer dizer que eles têm essa percepção de que são invisíveis?

– Depois eu comecei a me fazer essa pergunta. Como é que eu achava que eles não iam ter essa percepção? Levei um tempão para me dar conta disso, porque eles sabem. Em última instância, se quisermos ser bastante firmes e críticos com respeito a nossa conduta classista, burguesa, a gente finge que não enxerga essas pessoas.

– O que alimenta a invisibilidade pública e social no país?

– Isso é algo muito complexo. Em nível primário de avaliação, a gente deve levar em consideração que, muito embora possamos fingir que não enxergamos o outro, a humanidade dessa pessoa está ali escancarada para nós. Identificamos um ser humano ali, embora a gente possa até fingir que não. Quando identificamos um ser humano numa situação subumana, desumana, insalubre, nós somos remetidos a um tipo de dor, é como se a gente tivesse sendo mordido por dentro pelo sentimento de identificação, no qual a gente se imagina passando por aquilo. Fingir que não vê é de alguma maneira uma forma de se proteger dessa dor, daquilo que a desumanidade me traria.

– No seu livro "Homens Invisíveis – Relatos de uma Humilhação Social", você fala sobre a relação da sociedade com esses trabalhadores. Por que é tão difícil reconhecer as atividades realizadas por quem vive da rua?

– Quem vai trabalhar como gari a primeira vez não precisa de meia hora para aprender tudo que vai fazer a vida inteira. O trabalho degradante é muito desqualificado. Quando as pessoas não valorizam esse tipo de tarefa, elas têm razão. Por outro lado, elas não têm razão de agir como agem com as pessoas. Porque os garis ou os trabalhadores que estão na rua são muito mais qualificados do que as tarefas que executam. Eles só estão ali, não pela baixa qualificação deles, mas pela baixa qualificação do nosso sistema.