Estrutura do Samu é questionada
O atendimento do Samu continua causando reclamações em Juiz de Fora e dando indícios da necessidade de reformulação do serviço, que funciona há oito anos no município. Embora o número de viaturas e profissionais esteja adequado à Portaria 2048/2002 do Ministério da Saúde, que estabelece critérios para o atendimento móvel de urgência, especialistas em saúde pública e profissionais da área defendem que outros parâmetros precisam ser avaliados para garantir a eficiência do sistema. Dois outros pontos são relevantes nessa discussão: a desinformação da população em relação ao atendimento do Samu, o que ocasiona pedidos de socorro em casos indevidos, e o número de trotes que, apesar de ter registrado queda neste ano, ainda corresponde a 40% do total de ligações recebidas.
A subsecretária de Urgência e Emergência da Prefeitura de Juiz de Fora, Adriana Fagundes, afirma que a frota do Samu atende à demanda do município e segue a portaria ministerial que determina os casos prioritários e normatiza o número de ambulâncias necessárias para cada grupo de cem mil pessoas. No caso de Juiz de Fora, que ultrapassa a casa dos 500 mil habitantes, conforme o Censo 2010, existem quatro Unidades de Suporte Básico (UBS), uma Unidade de Suporte Avançado (USA), uma motolância e outras três ambulâncias de reserva técnica, que substituem o efetivo no período de manutenção. Em relação aos recursos humanos, Adriana informa que são 20 médicos, cinco enfermeiros, 27 técnicos em enfermagem, 24 condutores socorristas e 24 telefonistas auxiliares de regulação médica, que atendem 24 horas por dia.
Para o especialista em Gestão Pública e Saúde Coletiva Ivan Chebli já não é eficaz avaliar a adequação do serviço apenas pelo critério de número de habitantes do município, como define a portaria. Ele afirma que as chamadas causas externas, que correspondem hoje a cerca 44% da média de 1.200 atendimentos mensais do Samu (ver quadro), sobrecarrega o serviço. "Os acidentes de trânsito e a violência urbana têm mudado o perfil de morbidade das cidades."
A médica do Samu Eveline Montesse também reconhece que, embora esteja em conformidade com o Ministério da Saúde, a frota do Samu já não é suficiente, pois Juiz de Fora possui uma população flutuante, que acaba aumentando a demanda.
Chebli defende que o Samu precisa ser reestruturado em bases regionais, a partir do Plano de Ação Regional de Urgência e Emergência da Macrorregião Sudeste de Minas Gerais, polarizado por Juiz de Fora. "É a chamada ‘regionalização’, que permitirá a ampliação do serviço e adequação à real demanda do município." Conforme o especialista, o projeto está em tramitação na esfera estadual, e, se aprovado, poderá disponibilizar uma frota de dez viaturas de USB e três de USA, além de três motolâncias e um helicóptero específicos para a cidade, além de outras viaturas em municípios de oito microrregiões da Zona da Mata. Neste caso, a central regional do serviço deve funcionar em Juiz de Fora, sendo gerida em parceria pela Prefeitura e o Governo do estado.
Ouvidoria
A ouvidora municipal de Saúde, Edna Rodrigues, convive com queixas frequentes sobre o serviço prestado pelo Samu. "Existe a necessidade de ampliação do serviço, e a população sente isto." Ela também faz uma crítica ao mecanismo de triagem. "Os profissionais do Samu precisam ter agilidade e sensibilidade para perceber a gravidade de cada caso. A pessoa do outro lado da linha está sob forte emoção e não tem capacidade para diagnosticar com clareza os sintomas, o que pode mascará-los até que o Samu chegue no local."
Com relação à possibilidade de interligação do Samu com o Resgate, unificando as centrais 192 e 193, cogitada como alternativa para agilizar o atendimento móvel de urgência, a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde informa que esta proposta não foi formalizada e, no momento, não existem novas discussões sobre o assunto. Outra mudança também sem data definida para implementação é a transferência da sede do Samu da Rua Benjamin Constant para o Hospital Regional, no Bairro São Dimas, perto da rodoviária, uma vez que as obras da nova unidade de saúde não foram finalizadas.
Nem sempre casos são de urgência
Situações que aparentemente envolvem risco de morte ou implicam em grave sofrimento geralmente deixam as pessoas em alerta e mobilizadas no sentido de prestar socorro. No entanto, em boa parte dos casos, quem presencia a situação fica sob forte emoção, o que dificulta a constatação da gravidade da ocorrência. Dessa forma, muitas vezes, o atendimento móvel é solicitado de forma indevida, e a viatura não chega a ser enviada, o que causa descontentamento com o serviço.
O aposentado Pedro da Silva Vargas, 60 anos, por exemplo, teve o atendimento negado duas vezes pelo Samu, em função da regulação não ter considerado o caso urgente. Seu irmão, debilitado após passar por uma cirurgia de emergência, sentia muitas dores, e a família precisava de uma ajuda especializada para removê-lo da residência até uma unidade hospitalar. "Não consigo entender o que é urgência e emergência para eles. É um serviço público, não tem por que ser negado. Inclusive, a atendente sugeriu que pedíssemos uma ambulância particular, o que me deixou surpreso. Conseguimos a remoção pelo Corpo de Bombeiros até a UPA de Santa Luzia. De lá, ele foi encaminhado para uma nova cirurgia no HPS, mas não resistiu e faleceu", relata.
Chebli afirma que o serviço do Samu não é direcionado para o transporte de pacientes. A médica Eveline Motesse completa que "o não envio de ambulância não significa omissão de socorro. Por isso, orientamos que as pessoas fiquem calmas e respondam a todas as perguntas, pois é por meio delas que o médico define o atendimento, decidindo se há ou não necessidade de envio da viatura até o local".
A médica observa que são avaliados critérios como o estado clínico e a idade do paciente, além da demanda de atendimentos no dia. A subsecretária de Urgência e Emergência, Adriana Fagundes, ressalta que os critérios estão vinculados a questionamentos básicos, feitos ao solicitante da viatura, como se o paciente tem respiração, qual seu nível de consciência e se responde a estímulos. "O Samu deve atender prioritariamente acidentes graves e casos crônicos agravados como AVC, infarto e hipertensão."








