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Escolas públicas e privadas apostam em ensino integral


Por JÚLIA PESSÔA

25/11/2012 às 07h00

A educação em tempo integral tem crescido como boa opção não apenas pedagógica, mas social e econômica, na formação de crianças e adolescentes. Muitos pais apostam que este tipo de ensino pode melhorar o desempenho dos filhos. No caso específico da rede pública, a escolha tem sido alternativa para pais que trabalham durante todo o dia e não podem se dedicar às crianças neste período. Hoje, em Juiz de Fora, 21 instituições do estado e cinco do município oferecem a modalidade. Na rede particular, também há colégios que oferecem este ensino, enquanto outros se preparam para esta realidade diante da maior demanda.

Segundo o coordenador do projeto Educação em tempo integral, do Governo de Minas, Gustavo Nominato, parte das famílias não pode pagar alguém ou uma instituição para dar assistência aos filhos depois que saem das aulas. Este é o caso dos pais de Vitória Gabriele, 7 anos, que está no segundo ano do ensino fundamental na Escola Estadual Professor Lindolfo Gomes, no São Benedito, na Região Leste. Eles trabalham o dia todo e ficam mais tranquilos se eu estiver na escola, porque estou aprendendo e estou com os professores, conta a menina. Nominato ressalta, ainda, a importância da alimentação no colégio, que pode ser um diferencial no caso das famílias de baixa renda. Para as mais vulneráveis, é um alívio saber que os jovens estarão em um local onde serão bem alimentados e não estarão expostos à violência ou às drogas, por exemplo.

O diretor pedagógico do Sistema Degraus de Ensino, Rodrigo Mendonça Pereira, diz que a maioria dos pais acredita neste tipo de ensino e que a produtividade dos filhos será maior se eles estiverem na escola em vez de ficarem com um parente, empregada ou mesmo sozinhos quando já têm idade para tal. Na rede particular em que ele trabalha, alunos podem frequentar as aulas por até 12 horas, dedicando-se a atividades diversas, que vão desde aulas em formato bilíngue até atividades de lazer, como cinema e teatro, além de reforço escolar, entre outras.

O aumento da procura tem levado algumas escolas a se adaptarem. É a situação do Colégio Stella Matutina, que atualmente possui atividades extraclasse e poderá trabalhar integralmente em breve. Estamos fazendo adaptações de infraestrutura para poder funcionar neste sistema. Entre o turno curricular e o extracurricular, que a maioria dos estudantes frequenta, poderemos preencher o tempo com atividades variadas, que contribuem tanto para a formação acadêmica quanto para a cultural, além de oferecer lazer, aponta o diretor educacional Francisco Bessa.

Papel social

O professor da Universidade de Brasília (UnB), Marcelo Medeiros, que possui estudos sobre desigualdade, também defende que o ensino integral tenha um papel social importante, independente de ser oferecido por instituições particulares ou públicas. Com as crianças passando mais tempo na escola, o ensino integral é capaz de reduzir uma parte das desigualdades educacionais, pelo fato de alguns alunos viverem em famílias de baixa escolaridade e outras não, estudem eles em colégios públicos ou privados. Ele alerta, entretanto, que é preciso que a instituição esteja preparada para oferecer este tipo de atendimento, ou os benefícios não serão alcançados. Ensino em tempo integral não significa que as crianças passarão o tempo todo em aula. Há uma série de atividades importantes, inclusive estudos. Várias adaptações administrativas e pedagógicas precisam ser feitas. Mas essa decisão depende de cada escola, já que são elas que sabem avaliar suas habilidades e capacidades, além do perfil dos alunos.

Diversidade de atividades é considerada primordial

Para o coordenador do projeto Educação em tempo integral, do Governo de Minas, Gustavo Nominato, o rendimento escolar é inegavelmente beneficiado pela ampliação da jornada. Fizemos o acompanhamento de 15 mil alunos em idade de alfabetização que tinham baixo rendimento em 2009, e seu índice de aproveitamento no Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa) subiu de 60% para 79% após dois anos de ensino integral. Os resultados são incontestáveis. Nas escolas de Minas Gerais, o modelo educacional é oferecido por meio do programa estadual, voltado para estudantes com dificuldades de aprendizado e de baixa renda e por uma parceria com o Governo federal, pelo Mais Educação, destinado preferencialmente a estudantes atendidos pelo Bolsa Família.

Ambientação

Para a diretora da Escola Municipal José Calil Ahouagi, Virgínia Braga, que atende cerca de 200 alunos da educação infantil ao nono ano em sistema integral, um dos motivos para a melhora no desempenho dos alunos é o estreitamento de seus laços com a escola. Passando mais tempo no colégio, eles se sentem mais à vontade neste ambiente. Assim, iniciativas como o reforço escolar surtem mais efeito. Além disso, o conteúdo extracurricular atua de duas formas para o desenvolvimento intelectual: por um lado, o que é aprendido em sala de aula pode ser trabalhado de maneira mais lúdica e divertida, aumentando o interesse. Por outro, os jovens podem descobrir talentos e habilidades, como a música e as artes em geral, por exemplo.

Já a diretora da Escola Estadual Professor Lindolfo Gomes, Alaíde Almeida, destaca que o engajamento de monitores ligados à comunidade onde a escola está localizada, no São Benedito, também tem impactos positivos no ensino. São pessoas que conhecem a realidade destes alunos e estão preparadas para trabalhar as potencialidades deles, o que permite um aproveitamento muito grande durante as atividades e de forma geral. A instituição oferece atividades esportivas, xadrez, oficinas de música, teatro e reforço escolar fora da sala de aula, e a receptividade tem sido positiva. O tempo passa rápido, porque fazemos muitas coisas diferentes, e fica mais fácil aprender. Até porque quem precisa de reforço pode fazer no colégio mesmo, conta Wesley José Marçola, 10, aluno do quinto ano.

Interesse

Para a diretora pedagógica da Escola Internacional Saci, Luciana Barros, a diversidade de atividades é primordial para o benefício do aprendizado. Acho importante oferecer algo diferente do momento curricular e, acima de tudo, algo de que o aluno queira participar, o que é determinante para haver interesse na atividade e, consequentemente, para o alcance das vantagens dela. No caso específico da instituição, os alunos podem aderir a grupos de voluntariado, jornalismo, culinária e até terem um tempo reservado para dormirem – sobretudo os mais novos – , além de fazerem atividades diversas na língua inglesa, pelo ensino bilíngue, oferecido à tarde. O aluno alcança uma imersão no idioma em diversas situações cotidianas, como refeições, jogos, esportes, atividades lúdicas, entre outras, todas desenvolvidas em inglês. Isso facilita o aprendizado da língua, além de ajudar a desenvolver diversas capacidades cognitivas.

Adaptação precisa ser avaliada

Para o professor da UnB Marcelo Medeiros, não há restrições para a adoção do sistema integral. Todos os países desenvolvidos adotam esta educação de forma massiva. Em situações normais, não há risco de problemas de adaptação. Entretanto, a maioria dos educadores defende o respeito às características individuais de cada estudante. O fato de o ensino ser integral não quer dizer, necessariamente, que seja melhor. O tempo na escola tem que ser de qualidade e, acima de tudo, atender às necessidades da criança, adequando-se à idade, perfil e ao momento que está vivendo, destaca a diretora pedagógica do Saci, Luciana Barros.

Apesar de estar acostumado, o aluno Matheus de Souza, 10, do quinto ano da Escola Estadual Professor Lindolfo Gomes, revela ficar um pouco cansado com a jornada prolongada. Preferia estudar só pela manhã ou só à tarde. A diretora da Escola Municipal José Calil Ahouagi, Virgínia Braga, pondera que, em alguns casos, os discentes não estão preparados para passarem o dia todo fora de casa. Apesar de termos um índice de mais de 90% de satisfação, alguns estudantes, independente da idade, não conseguem ficar tanto tempo fora de seu ambiente ou se sentem sobrecarregados com a jornada prolongada. Isso depende da personalidade de cada um, e, em alguns casos, insistir nesta permanência prolongada pode ser prejudicial.

Para o diretor do Sistema Degraus de Ensino, Rodrigo Mendonça, é preciso haver acompanhamento para assegurar que as crianças e os adolescentes estão adaptados ao modelo de turnos ampliados. Para alguns, funciona ampliar a permanência gradativamente, até que se sintam à vontade para ficar no horário integral. O importante é a certeza de que a criança ou o adolescente esteja bem, até para que se beneficie do horário estendido.

Estrutura

Luciana Barros acrescenta que, para garantir a adaptação, são necessários investimentos que vão desde adaptações no espaço físico até a assistência de uma equipe multiprofissional. A coordenação pedagógica tem que estar muito atenta, e um profissional precisa ficar na escola o tempo todo, até para fazer a ponte entre o professor da manhã e o da tarde, para que o aluno esteja bem assistido nos dois turnos, sobretudo as crianças. Também é necessário que haja acompanhamento de um nutricionista escolar. O espaço físico precisa estar adequado à permanência dos estudantes em tempo integral, respeitando a diversificação das atividades. Além disso, o trabalho do psicólogo é fundamental para ver se o jovem está se beneficiando deste tipo de ensino ou não.