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Com o Aedes aegypti na mira

Infectologista Guilherme Cortes Fernandes defende o combate ao mosquito como medida essencial para evitar novas epidemias de dengue em JF


Por Tribuna

24/12/2017 às 07h00

O médico infectologista Guilherme Cortes Fernandes defende o combate ao Aedes aegypti como medida essencial para evitar novas epidemias de dengue, na cidade. Mas também alerta que é preciso facilitar o acesso da população aos exames laboratoriais que detectam a presença do vírus da zika e chicungunya, nas redes pública e particular, para o controle mais eficaz dos riscos de surtos e epidemias.

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(Foto: Carolina Milani)

Qual deve ser a nossa preocupação com relação à dengue, zika e chicungunya?
Guilherme Cortes Fernandes – Dengue, zika, chicungunya e febre amarela são doenças transmitidas pelo mesmo mosquito, o Aedes aegypti. Esse vetor está muito bem adaptado ao meio urbano. Para termos uma epidemia, precisamos de alto índice de infestação por aedes, pessoas susceptíveis, ou seja, que ainda não tiveram a doença, e a presença do vírus circulando no aedes.

Foi o que aconteceu em Juiz de Fora com a dengue?
Sim. Antes da epidemia, tivemos a dengue reintroduzida em Juiz de Fora em pequenos surtos. Ao longo dos anos, foram acumulando pessoas susceptíveis e com o aumento da infestação por aedes, a situação ficou muito propícia para a epidemia. No ano seguinte, não tivemos dengue, porque muita gente já tinha tido. Então, mesmo tendo aedes, mesmo tendo o vírus, as pessoas não estavam mais susceptíveis à dengue. Pelo menos, não àquele sorotipo que circulava ainda. Esse é o clássico caso das epidemias de dengue. Demoram três anos, mais ou menos, para ter uma nova.

“Temos muita dificuldade por questões de acesso, recurso e regulamentações em fazer os testes de diagnósticos de zika e chicungunya. A disponibilidade no SUS é muito restrita. Nos convênios, também, porque são exames que não estão no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Para fazer tem que pagar e são caros”.

Há riscos então de nova epidemia nos próximos anos?
Temos quatro sorotipos de dengue. Tivemos um deles circulante. Para termos uma nova epidemia é preciso que tenhamos um novo sorotipo introduzido, infestando esses aedes. O que vimos acontecer como já ocorreu no Rio de Janeiro, Pernambuco e outros estados, é que tinha essa condição – infestação de aedes, aí chegou um novo vírus – zika e chicungunya. Poderemos ter uma epidemia de zika, chicungunya e dengue de algum outro sorotipo. Minas vive um aumento preocupante dos casos de chicungunya, no leste do estado. Se tivermos alta infestação, não nesse ano, mas nos próximos, poderemos enfrentar epidemia de zika, chicungunya ou outro sorotipo de dengue.

Qual a melhor forma de prevenir?
O controle do mosquito. Essencialmente, a eliminação dos criadouros. Ações públicas são muito importantes para o controle vetorial. Se isso falhar, é preciso focar nos casos suspeitos e as pessoas saberem como se comportar.

E como devemos nos comportar?
A abordagem inicial dessas três doenças é a mesma: muita hidratação. Não temos medicamentos específicos para dengue, zika e chicungunya. A manifestação clínica é muito semelhante: febre, dor no corpo, não tem como diferenciar, clinicamente, só com os testes laboratoriais, com a sorologia.

“Isso gera problema para o entendimento se o vírus está circulando aqui ou não. Se o exame der negativo para a dengue, o paciente pode ter tido zika ou chicungunya. Mas, sem a sorologia, ninguém saberá dizer. A percepção da circulação dos vírus será tardia e a vigilância epidemiológica terá muito mais dificuldade em compreender e atuar depois.”

Esses exames são acessíveis?
Temos muita dificuldade por questões de acesso, recurso e regulamentações em fazer os testes de diagnósticos de zika e chicungunya. A disponibilidade no SUS é muito restrita. Nos convênios, também, porque são exames que não estão no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Para fazer tem que pagar e são caros.

Qual a consequência disso?
Isso gera problema para o entendimento se o vírus está circulando aqui ou não. Se o exame der negativo para a dengue, o paciente pode ter tido zika ou chicungunya. Mas, sem a sorologia, ninguém saberá dizer. A percepção da circulação dos vírus será tardia e a vigilância epidemiológica terá muito mais dificuldade em compreender e atuar depois.

E a vacina, é eficaz?
Para falar de vacinas de doenças transmitidas pelo aedes, não podemos esquecer da febre amarela. Essa vacina é muito segura, temos desde 1937, ganhou Prêmio Nobel. Na mesma busca foi desenvolvida a vacina de dengue. Só que ela não se mostrou tão eficaz para controle quanto a da febre amarela. Foi liberada para prevenir casos graves da doença, em adultos, em lugares com alta transmissão. No pós-licenciamento, acompanhando pessoas vacinadas, foi observado que aquelas que nunca tiveram dengue e se vacinaram apresentavam quadros mais graves, quando contraiam a doença. A lógica é a mesma: a pessoa que tem dengue uma vez e pega uma segunda pode desenvolver o caso mais grave da doença. Isso acontece porque ela já tem os anticorpos e aí exacerba a inflamação no corpo, na segunda. Então, a pessoa que nunca teve a dengue e tomou a vacina passou a ter anticorpos. A primeira vez que ela contrai a dengue é como se fosse a segunda. O mesmo não foi observado nas pessoas que já tinham tido dengue e se vacinaram. A Anvisa então mudou a bula. Quem nunca teve confirmação de dengue não deve vacinar.