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Usuários enfrentam pontos precários


Por CÍNTIA CHARLENE

24/11/2013 às 07h00

A chegada do período chuvoso é sinônimo de preocupação para quem depende do transporte público coletivo em Juiz de Fora. Apesar de um mapeamento de todos os pontos de ônibus do município já ter sido feito pela Settra, o resultado desta pesquisa ainda não foi concluído, e muitas paradas continuam em situação precária, não cumprindo o papel de proteger os usuários. A Tribuna percorreu pelo menos dez pontos em várias regiões e ouviu reclamações de passageiros em todas elas.

Na Rua Benjamin Constant, região central, em frente ao Hiper Bretas, a área de embarque e desembarque não comporta o número de usuários. Muitos precisam ficar fora do toldo de proteção que é unido ao outro por meio de um arame, facilitando assim a entrada de água nos dias de chuva. "Acho este lugar horroroso, a cobertura não protege a gente. O banco é muito baixo, e a sensação que temos é que vamos sentar no chão. É uma vergonha esta situação. Na frente, quando chove, empoça água, e o ônibus quando passa molha a gente", desabafa a promotora de vendas Ana Clara Lopes, 21 anos.

Outro cenário que pode ser observado nos pontos da Avenida Getúlio Vargas é a falta de espaço para os usuários, que se apertam nas calçadas nos horários de rush. Em alguns trechos da via, como próximo ao cruzamento com a Rua São João, quando chove, os passageiros se abrigam nas marquises dos prédios. "Não tem nem lugar para sentarmos. As pessoas que precisam carregar crianças no colo, como eu, sofrem com essa situação", afirma a usuária Cristiane Paula da Silva, 32, que todos os dias pega o coletivo no local em direção à Zona Norte. "Com a chuva, essa situação pode trazer ainda mais transtornos. Deveria ter pelo menos uma cobertura para que as pessoas pudessem se abrigar" completa o professor Thiago Severino, 27. O mesmo quadro pode ser observado na Rua Antônio Fellet, no Vale do Ipê. As paradas do coletivo estão localizadas nos passeios estreitos, não há abrigos e nem bancos. Ao longo da via, os pontos são marcados apenas por uma placa indicando a parada do ônibus.

Na Rua Mariano Procópio, no bairro homônimo, a estrutura de um ponto de ônibus próximo à Rua Santa Terezinha é antiga, e o teto possui rachaduras. Quando chove, a água atinge os usuários. Não há bancos, e a calçada está mal conservada, com vários buracos. "Outra coisa que faz falta é uma placa com a identificação dos coletivos que passam na via. Elas deveriam ser da mesma cor da linha do ônibus, de forma que facilitasse a identificação. Muitos ficam perdidos e, às vezes, pedem ajuda, mas há o risco de receberem informações erradas", afirma o aposentado Antônio Carlos Teixeira, 56.

 

 

Pesquisa levanta condições dos abrigos

Com o trabalho de georreferenciamento, realizado entre 19 de julho e 8 de outubro, o intuito é identificar os itinerários dos coletivos e as condições dos pontos. No entanto, como a pesquisa ainda precisa ser digitalizada, somente no próximo ano, poderá haver alguma melhoria efetiva nas ruas como consequência deste estudo. De acordo com a chefe do Departamento de Transporte Público da Settra, Andréia Júlia Gonzalez, a cidade possuía 5.600 pontos, porém este número pode ser alterado com a pesquisa. "Nós já georreferenciamos todos os pontos de Juiz de Fora, inclusive com o cadastro, levantando largura e condição do passeio, se tem abrigo e de que tipo. Acredito que, daqui a 45 dias, já tenhamos um resultado, com as informações digitadas por lugar."

Para o engenheiro e professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da UFJF, Cézar Henrique Barra, a situação dos pontos interfere diretamente na opção pelo transporte coletivo. "O ponto serve como proteção das intempéries e permite comodidade ao usuário, principalmente, se houver um banco limpo, no qual se possa sentar. Se a pessoa encontra um ponto sem banco ou tem dificuldade para encontrar o local de parada, ela desanima. Portanto, se tiver outra maneira de se locomover, ela fará isso."

 

GPS

Além de identificar as condições dos pontos de ônibus, "o georreferenciamento vai servir primeiro para o estudo que está sendo feito para a rede de transporte. É importante ter tanto os itinerários como as paradas de ônibus. Há uma intenção de viabilizar a implantação de GPS nos ônibus. Se isso acontecer, há uma informação essencial também para o sistema ter os pontos georreferenciados, etapa que já está pronta", declara a chefe do Departamento de Transporte Público da Settra, Andréia Júlia Gonzalez .

 

Desestímulo

Para o engenheiro e professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da UFJF, Cézar Henrique Barra, o excesso de pontos é outro problema prejudicial aos usuários. "A ausência ou a falta de estrutura desestimula o uso, mas o excesso é outro problema. É melhor termos pontos em lugares estratégicos que permitam a fluidez do trânsito e que atendam ao cidadão, que não tenha que se deslocar tanto e que chegue ao destino no tempo certo." Cézar Barra cita a Rua Dom Silvério, no Alto dos Passos, como uma área onde há excessos de pontos. Por ser uma via de mão dupla, com muito movimento, há retenções frequentes devido às muitas paradas dos coletivos.

A responsabilidade que compete à Settra em relação às paradas é a avaliação da necessidade de criá-las ou extingui-las. "Em relação aos abrigos, se for em bairros, é obrigação da empresa que opera naquela região. Se for na área central, são de responsabilidade da Astransp. Mas é a secretaria quem precisa avaliar a necessidade de reforma ou implantação tanto no Centro como nos bairros. Aqueles que identificarem problemas devem ligar para a Settra, no telefone 3690-8218 e registrarem a reclamação", esclarece Andréia.

 

 

Problemas se arrastam nos bairros

A Tribuna voltou a alguns pontos que apresentavam problemas em agosto deste ano e observou que a maioria continua sem melhorias. Na Rua José Sobreiro, no Linhares, Zona Leste, o ponto de ônibus continua na contramão. Do lado em que deveria estar a placa, não existe calçada, e a rua é estreita. "Sempre foi assim. Os moradores até já se acostumaram", afirma Raquel Helena de Oliveira, 28 anos. Em outro lugar do bairro, na Rua Professor Antônio Aguiar, o local de embarque e desembarque está em condições precárias, com muito lixo e em meio à vegetação. Além disso, não existe calçada. Há apenas o poste indicando a passagem do coletivo. "Já reclamamos, mas não adianta. É muita sujeira, é uma vergonha", desabafa um morador que reside há 20 anos no bairro e que prefere não se identificar.

Outro ponto em que a reportagem esteve novamente está na Rua Archanjo de Campos Miranda, no Eldorado, região Nordeste. A estrutura foi improvisada e construída pelos próprios moradores, sendo sustentada por vigas de madeira presas ao chão e coberto por telhas.

Na Rua Coronel Quintão, no Monte Castelo, Zona Norte, não há placa indicando a passagem do coletivo no ponto, apenas uma cobertura e o mastro. "Tiraram a placa, mas é tranquilo para os moradores que residem no bairro. Falta um assento, e isso faz muita falta. O telhado é alto e, quando chove, acaba molhando a gente. A maioria dos pontos não tem banco, só a cobertura. As placas indicando os números das linhas que passam no bairro ajudariam quem não é daqui", acrescenta a professora Irla Souza, 45.