Escolas reveem forma de preparação dos alunos

Atividades práticas relativas aos conteúdos aprendidos em sala fazem parte da estratégia
Com a crescente utilização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma de ingresso nas universidades brasileiras, escolas e cursinhos têm procurado se adaptar à forma como os estudantes são avaliados pela prova. A pouco mais de duas semanas da aplicação dos testes, diretores destas instituições discutem estas alterações, ressaltando que, desde sua criação, o Enem busca se distanciar da cobrança de tópicos e informações, no modelo "certo e errado", aproximando-se de um critério avaliativo que tem como principal característica a integração de conhecimentos e aplicação destes a situações do dia a dia dos alunos. Segundo a coordenadora geral do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da UFJF (Caed), Lina Kátia Mesquita de Oliveira, o conteúdo programático ainda é abordado, mas de forma diferente. "O conteúdo por si só deixou de ser o fim da questão para ser seu meio. O aluno precisa, por exemplo, conhecer o Teorema de Pitágoras, mas o Enem exige que ele saiba aplicá-lo em um problema do dia a dia, analiticamente."
De acordo com o diretor pedagógico do Colégio Stella Matutina, Francisco Bessa, a preparação para uma prova nestes moldes requer, além dos tradicionais plantões de dúvidas e de aulas extras, atividades práticas relacionadas a temas debatidos em sala. Para o professor de física Ciro Lima Bellan, os resultados deste método são sempre muito positivos. "O aluno tem que entender como o que ele aprende em uma aula acontece na realidade. O que eles aprendem em laboratório é muito mais fácil de ser assimilado porque eles veem o fenômeno acontecer. Mas, para que isso aconteça, é importante fazer experimentos que eles vivenciem em suas vidas, como a reação química que ocorre com fermento de bolo ou como o olho humano forma imagens." A iniciativa tem feito sucesso entre os discentes. Segundo Everton Cassiano, 17 anos, esta metodologia permite uma preparação em que os conteúdos estejam mais integrados. "Por isso mesmo estamos bem preparados tanto para o Enem quanto para vestibulares tradicionais. Temos mais autonomia para usar nosso conhecimento, porque aprendemos a raciocinar melhor."
Conforme a psicóloga do Cave Eliana Balena, outra mudança essencial no ritmo de estudos dos candidatos diz respeito à questão de redação do Enem. "Como ela tem um grande peso na nota final, tivemos que dar mais atenção a este item. Com isso, durante todo o ano letivo, os professores debatem temas da atualidade em sala, propondo produções de texto relacionadas a ela. Como a UFJF tinha abolido a redação em seu vestibular, foi uma mudança grande. Pelo mesmo motivo, reforçamos as aulas de idioma." Para o aluno Samuel Rodrigues, 18, estas adaptações são fundamentais. "Hoje em dia, se não tivermos uma formação voltada para o que acontece no dia a dia e para os acontecimentos recentes, não conseguimos entrar no ensino superior. Só acumular conteúdos não basta."
Fase de transição
Na visão de Marco Fisbhen, professor de física e fundador do site "Descomplica" (www.descomplica.com.br), que prepara alunos para o Enem por meio da internet, muitos candidatos ainda enfrentam dificuldades no Enem porque os modelos de seleção para o ensino superior estão em uma fase de transição. "Acredito que estamos caminhando para este formato que o Enem propõe, focado menos em conteúdo e mais em conhecimentos integrados e aplicados ao dia a dia. Nos últimos dez anos, até as instituições que mantiveram seus vestibulares têm caminhado para este tipo de avaliação, e acho que a tendência é que esta metodologia se consolide. No entanto, a maioria das escolas ainda segue o modelo de fórmulas, datas e acúmulo de informações, por isso os alunos têm que buscar outras formas de se prepararem, o que pode significar desvantagem para os que não podem pagar cursinhos."
Especialistas dão dicas aos candidatos
Segundo a doutora em educação Maria Inês Fini, que fez parte da equipe de criação do Enem, é ilusório pensar que a prova tem tantas diferenças em relação ao modelo clássico dos vestibulares. "O fato de as questões exigirem um pouco mais de interpretação de texto e reflexão não faz do Enem necessariamente uma avaliação melhor. O exame atualmente se baseia na exclusão, como faziam os vestibulares, por isso as questões se valem de artifícios, como armadilhas e pegadinhas. O Enem era uma ferramenta de qualificação, que ordenava e classificava os alunos. Agora é um instrumento de seleção, que precisa tirar candidatos da disputa."
A psicóloga do Cave Eliana Balena também argumenta neste sentido. "A forma de avaliar os alunos pode até ter mudado, mas a competição continua. Por isso, é preciso haver a mesma dedicação e empenho para ser um dos selecionados." Para o fundador do site "Descomplica" Marco Fisbhen, a primeira preocupação dos inscritos no Enem deve ser resolver versões anteriores da prova. "Além de o aluno treinar sua capacidade de resolução da prova no tempo previsto, as áreas abordadas são razoavelmente esperadas, adequando-se a fatos recentes do ano em questão." Fisbhen destaca que o estudante deve saber fazer analogias entre disciplinas e conteúdos. "Eles devem esquecer de decorar fórmulas e acontecimentos históricos, por exemplo, e tentar compreender como o conhecimento relacionado a eles tem ligação com a atualidade e com fenômenos do cotidiano."
Reta final
Para a coordenadora geral do Caed, Lina Kátia Mesquita de Oliveira, a duas semanas do exame, o momento é para consolidação do conhecimento adquirido. "Isso faz toda a diferença, sobretudo nas matérias em que o aluno tem mais dificuldade. Uma revisão em um ponto que não ficou muito bem esclarecido pode fazer a diferença na hora de garantir a vaga desejada." A psicóloga do Cave ressalta, entretanto, que o ritmo dos dias que antecedem a prova deve ser desacelerado. "Não adianta tentar aprender agora o que não se aprendeu durante todo o ano. É preciso confiar no trabalho que foi feito neste tempo e cuidar do corpo e da mente, até porque a prova é longa, e a resistência durante o exame certamente é um critério eliminatório." A coordenadora do Caed destaca, ainda, que é imprescindível que o candidato conheça bem o modelo de prova que vai fazer. "O grau de dificuldade de um exame depende muito da forma como o aluno se prepara. E só conhecendo o tipo de prova que vai enfrentar é que o aluno pode se programar e organizar melhor o tempo em função de seu conhecimento."







