Rota de fuga para caminhões

Dos quatro acidentes mais graves registrados este ano na região envolvendo caminhões que transportavam cargas perigosas, três ocorreram na BR-267. O transporte deste tipo de produto traz apreensão, principalmente quando os veículos circulam próximo a municípios vizinhos, onde não há quartéis do Corpo de Bombeiros. Os registros ocorridos recentemente com explosões de carretas que transportavam combustível despertaram a atenção para o tipo de veículo pesado que vem utilizando as estradas do entorno de Juiz de Fora. Levantamento realizado pela Tribuna mostra que a BR-267 não deveria ser passagem de alguns veículos acidentados, levando em consideração o menor percurso entre a origem e o destino destas viagens. A situação é agravada porque o maior fluxo de veículos deste porte aumenta a insegurança numa rodovia com trechos sem acostamento, sem pistas duplas e sinuosos. Embora os órgãos envolvidos não falem abertamente sobre o assunto, o quadro preocupa a Polícia Rodoviária Federal (PRF), tanto da delegacia de Juiz de Fora como da de Leopoldina, ambas responsáveis pela estrada.
De acordo com o gerente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Juiz de Fora (Setcjf), Osvaldo José da Silva Filho, a BR-267 é rota de fuga utilizada por caminhoneiros que seguem, principalmente, do interior do Estado de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro. "Setenta por cento desses caminhões que passam pela estrada não deveriam estar aqui. Eles estão fugindo de balança de pesagem, de fiscalização da receita e dos pedágios. Como resultado, temos aumento no número de acidentes, e isso é comprovado pelo fato de todos os caminhões envolvidos nestas ocorrências serem de outras regiões do país. A BR-267, assim como outras estradas da região, são pouco fiscalizadas, e há muitos veículos trafegando acima do peso e com problemas na nota fiscal. Por isso os caminhoneiros preferem desvios, de 70, ou até cem quilômetros, para conseguir chegar ao destino."
Acidentes
O primeiro acidente do ano foi registrado no dia 7 de fevereiro, quando um caminhão que transportava 40 mil litros de etanol partiu de Pirassununga (SP) em direção a Duque de Caxias (RJ) e pegou fogo na BR-267 próximo a Bicas. Curioso é que, sem passar pelo município mineiro, a viagem poderia ser concluída em 593 quilômetros, e não com 819 quilômetros, necessários após o desvio feito. No entanto, o número de pedágios no trajeto mais longo é de sete, enquanto no outro seriam 12, sem contar que o condutor evita passar pelas barreiras fiscais de Levy Gasparian (RJ) e Matias Barbosa, ambas na BR-040.
O mesmo ocorreu no dia 8 de março, quando outra carreta bitrem partiu do município paulista, transportando 45 mil litros de gasolina e tombou em uma ribanceira da BR-267, no trecho entre Lima Duarte e o distrito juiz-forano de Valadares. Após o acidente, com vazamento de 60% da carga, o motorista morreu.
Na ocorrência mais recente, registrada em 31 de julho, uma carreta carregada com dez mil litros de gasolina e 15 mil litros de óleo diesel pegou fogo no acesso ao município de Maripá de Minas. De acordo com a PRF, o condutor seguia de Duque de Caxias (RJ) para Cataguases. Como nos casos anteriores, a viagem mais curta não seria pela BR-267, e sim pela BR-116, com percurso de 244 quilômetros, embora a quantidade de pedágios também seja menor: sete contra 12. Passando por Juiz de Fora, a viagem é concluída em 265 quilômetros.
Completa a lista das quatro ocorrências a tragédia na BR-116, entre Cataguases e Leopoldina, quando dez pessoas morreram em virtude da explosão de uma carreta. Partindo de Duque de Caxias em direção a Manhuaçu, o caminhão viajava pelo traçado mais curto entre os dois municípios.
Fiscalização
Sem dar detalhes sobre operações policiais, o chefe da seção Juiz de Fora da PRF, inspetor Armstrong Carvalho, afirma que uma das hipóteses é o fato de a BR-267 ter menor fluxo de fiscalização, já que o posto local, instalado próximo à Ewbank da Câmara, é responsável por monitorar 373 quilômetros das rodovias BR-040 e BR-267, com efetivo de 65 homens. "Nosso trabalho é grande, e só aumenta. Somos responsáveis pelo trecho na 040 entre a divisa com o Estado do Rio de Janeiro, próximo a Três Rios, até o novo Viaduto das Almas, após Conselheiro Lafaiete. E pela 267, de Bom Jardim de Minas até Bicas. A partir daí, a responsabilidade já é da delegacia instalada em Leopoldina."
Conforme Armstrong, durante as blitze de rotina são cobrados dos caminhoneiros que transportam carga perigosa a documentação do condutor e do veículo, e a nota fiscal do produto. Nela devem constar a origem e o destino do produto. "Quando a rota é suspeita, questionamos os motoristas e entramos em contato com a empresa para saber o porquê de estarem utilizando este traçado."
Sobre os acidentes registrados, e o possível aumento deste tipo de carga passando pela região, o inspetor diz que há inúmeras explicações. Entre elas, o próprio aquecimento da economia, que resulta em aumento da demanda por combustíveis nos postos de abastecimento dentro das cidades.
Segurança ameaçada em pequenos municípios
Embora o fluxo de veículos pesados seja intenso na BR-267, as cidades próximas à estrada não contam com o aparato do Corpo de Bombeiros. Quando necessário, são deslocadas viaturas de Juiz de Fora ou Muriaé, o que leva à demora no socorro. No acidente do dia 31 julho, em Maripá de Minas, por exemplo, quando um bitrem pegou fogo, os caminhões de combate a incêndio precisaram percorrer cerca de 50 quilômetros até chegarem ao local. Neste intervalo, moradores ficaram apreensivos, principalmente pelo acidente ter ocorrido na mesma semana da explosão de outro caminhão na região, entre Além Paraíba e Leopoldina.
O serralheiro Wantuil Peres Machado, 47 anos, morador de Maripá, disse que as pessoas se assustaram no momento do incêndio. "O motorista do caminhão tentou apagar o fogo com extintor e não conseguiu. Depois disso, ele saiu desesperado, dizendo para as pessoas correrem. Todo mundo saiu de suas casas, os comércios foram fechados. Apenas quando os bombeiros chegaram, cerca de 40 minutos depois, os curiosos foram se aproximando." Ainda de acordo com o serralheiro, é comum o tráfego de veículos com este tipo de produto na estrada.
Segundo o assessor de comunicação do 4º Batalhão de Bombeiros Militar (4ºBBM), capitão Marcos Moreira Santiago, umas das dificuldades da corporação é o fato de apenas 54 municípios do estado terem quartéis dos bombeiros, sendo seis na região: Ubá, São João del-Rei, Barbacena, Muriaé, Conselheiro Lafaiete e Juiz de Fora. "O ideal seria estarem presentes em mais cidades, principalmente naquelas com mais de 30 mil habitantes, mas esta não é a nossa realidade."
Evitar novos acidentes
Conforme o inspetor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Juiz de Fora, Armstrong de Carvalho, quando se trata de materiais que podem explodir e contaminar mananciais, a primeira orientação é isolar a área. Isso deve ser feito, quando possível, pelo próprio condutor do veículo, que é capacitado para lidar com este tipo de situação durante curso obrigatório. "As pessoas devem identificar o produto pelo código existente afixado no caminhão e fazer a comunicação com os órgãos competentes."
De acordo com cartilha disponibilizada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em caso de acidente envolvendo este tipo de veículo, as pessoas não devem se aproximar. A orientação inicial é de que o Corpo de Bombeiros e a PRF sejam informados do fato. Depois disso, outros motoristas e curiosos devem se afastar, já que os ventos podem espalhar os gases tóxicos presentes nos combustíveis.
Capitão Santiago ressalta que deve ser evitada a presença de curiosos na área, o que é comum neste tipo de ocorrência. "Se tiver condições de resgatar as vítimas e auxiliar, isso deve ser feito. Mas se a pessoa não souber como agir, deve sair imediatamente." O bombeiro lembra que estas orientações valem também quando não há incêndio, já que estes produtos inflamáveis correm risco de explosão.
Lei específica para produtos perigosos
O transporte de produto perigoso não se resume a combustíveis. Conforme a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), enquadra-se neste grupo todo material que representa risco à saúde humana, ao meio ambiente ou à segurança pública. Para transportá-lo, o motorista deve se submeter a um curso específico, conhecido como movimentação operacional de produtos perigosos (Mopp), com 40 horas de duração, além de treinamentos de reciclagem a cada cinco anos e mais 16 horas de aulas. Após a conclusão, o condutor recebe um certificado, e o Detran insere na carteira de habilitação a permissão para transporte de materiais inflamáveis. Além disso, a legislação exige identificação dos caminhões, a partir do tipo de produto que ele carrega.
O gerente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Juiz de Fora (Setcjf), Osvaldo José da Silva Filho, explica que a categoria não mantém um cadastro de caminhões que carregam produtos perigosos e circulam na região, mas estima que eles representam dois em cada dez veículos que passam pelas rodovias BR-267 e BR-116, em horários de pico. "Até 2007, nós tínhamos estes dados, mas eles estão defasados. A partir deste ano, a ANTT passou a fazer este controle." De acordo com a agência, não existem dados sobre quantos destes caminhões circulam atualmente no país, mas sabe-se que a frota de veículos de transporte é de 1,96 milhão.








