Trotes já superam chamadas de socorro no Samu de Juiz de Fora
A quantidade de trotes recebida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Juiz de Fora no mês de março superou o número de chamadas de socorro no mesmo período. De acordo com o coordenador do serviço na cidade, Paulo César de Oliveira, foram 1.986 ligações inconvenientes ao 192 contra 1.770 chamados de pessoas que realmente necessitavam de ajuda médica. Em todo o ano passado, foram cerca de 28 mil ligações, ao passo que a quantidade de trotes quase empatou, chegando perto de 27 mil. Os números assustam e expõem as dificuldades enfrentadas pelos atendentes dos serviços de urgência e emergência na cidade.
Entre os bombeiros, cerca de 60% das nove mil ligações mensais recebidas pelo 193 são trotes, enquanto que 30% das 60 mil chamadas do 190 da Polícia Militar também são inadequadas e até criminosas. Para piorar a situação, os serviços já operam no limite da capacidade, uma vez que alguns contam com poucos atendentes em cada plantão. Boa parte das chamadas que trazem algum tipo de prejuízo aos órgãos é feita por cidadãos que, nos momentos de desespero, acionam o primeiro telefone de emergência que lhes vêm à mente. A perda de tempo com o deslocamento de uma viatura para um caso que não necessita do serviço pode ser fatal para um usuário em estado mais grave. A informação sobre qual serviço acionar em cada ocasião, no entanto, pode garantir um socorro correto (ver quadro).
Durante a visita às centrais de atendimento dos órgãos de urgência e emergência, a Tribuna constatou que os funcionários dessas instituições são obrigados a recorrer constantemente à paciência. "Nós passamos por cursos de atendimento, mas, no dia a dia, vamos aprendendo a lidar com essas situações", comenta a atendente do Samu Juliana Carmo. Nas conversas, as histórias mais esdrúxulas são contadas em meio a risos, mas também há relatos dos danos causados pelas ligações equivocadas.
"Nesses casos, as chamadas reais podem ficar sem atendimento adequado. Algumas situações de emergência exigem que o atendimento seja feito em dez minutos ou até menos, como em caso de pacientes com parada cardiorrespiratória ou incêndios em locais que acumulam materiais inflamáveis", alerta o tenente Júlio César Gomes da Silva, do Corpo de Bombeiros. "A quantidade de trotes varia muito dependendo da época do ano. O número diminui nas férias escolares, mas aumenta quando as crianças voltam às aulas, porque elas costumam ligar de orelhões próximos ao colégio", completa o tenente. "Acredito que a pessoa do outro lado da linha veja o trote como um prêmio", critica o coordenador médico do Samu, Paulo Ribeiro do Valle.
Para inibir essa prática, a PM prepara uma campanha de esclarecimento que será implementada até o meio do ano. Os militares pretendem distribuir materiais informativos, intensificar as recomendações nos meios de comunicação e orientar a população, de uma forma geral, sobre a importância de acionar o190 apenas em momentos de necessidade. "Havendo elementos suficientes para comprovar o trote, a pessoa pode ser presa por comunicação falsa de crime, perturbação do trabalho ou falso alarme, dependendo do caso", explica a comandante do Copom, capitão Williana Costa Vieira de Vasconcelos.
Atendentes colecionam histórias bizarras
Nos plantões dos serviços de urgência e emergência da cidade, os atendentes colecionam histórias de tarados notívagos que ligam todos os dias, carentes emocionais em busca de conselhos e pessoas descontroladas que utilizam o telefone para agredir os trabalhadores com palavrões. No Samu, por exemplo, um adolescente ligou para o 192 interessado em saber a utilidade do creme de barbear. Após receber a resposta do atendente, que explicou pacientemente a função do cosmético, o jovem não se contentou: "E o creme pós-barba? É para usar antes ou depois?" Em outra situação, um homem questionou se fazia mal beber uma mistura de água com banana, batida no liquidificador. "Não", respondeu a atendente. "Banana com água é suco. Com leite, é vitamina", completou, com bom humor.
Há ainda casos do rapaz que desejava ser internado por estar sendo ameaçado por um traficante de drogas, da mulher reclamando que tinha sido agredida verbalmente pelo marido e de outra queixosa de um mosquito dentro de casa. "Para evitar esse problema, fazemos uma série de perguntas ao usuário antes de enviarmos uma ambulância até o local. Às vezes, a população reclama dessas perguntas, mas isso é necessário", afirma o coordenador médico do Samu, Paulo Ribeiro do Valle.
Já os atendentes dos Bombeiros recebem dezenas de ligações de pessoas perguntando as horas e os números de telefones de órgãos públicos. "Uma das histórias é a da senhora que passava pela Avenida Brasil e viu uma família de capivaras às margens do Rio Paraibuna. Quando passou pelo mesmo local momentos depois, ela percebeu que estava faltando uma capivara e ligou para os Bombeiros para saber o que havia acontecido", conta o assessor de comunicação dos 4º Batalhão, capitão Marcos Santiago.
Na lista dos casos mais bizarros, está o da mãe que ligou para solicitar aos militares que furassem a orelha da filha recém-nascida, o do paciente com dor de dente que exigiu um resgate para levá-lo até o HPS, e as clássicas ligações para relatar falta d’água ou energia elétrica.
No Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), a rotina não é muito diferente, e os atendentes também enfrentam situações excêntricas, como a do rapaz que acionou o 190 exigindo uma viatura porque teria queimado a língua ao comer um pastel quente, da senhora reclamando que realizou um exame intravaginal sem que o médico colocasse preservativo no aparelho e do cidadão que garantia ter visto um disco voador no Náutico, na Zona Norte. Por mais bizarro que possa parecer, também são comuns ligações de usuários de droga reclamando da qualidade do entorpecente comprado.
Identificado após 200 chamadas
Antônio Jorge Costa foi atendente da Defesa Civil da cidade durante 20 anos. Hoje, ele enfrenta as mesmas ligações esdrúxulas na central de atendimento do Samu, no Centro. Ele conta que, há cerca de três anos, a Polícia Militar conseguiu identificar um homem que ligou mais de 200 vezes para a Defesa Civil em um único dia. Nas ligações feitas pelo celular, o homem descarregava palavras pornográficas e ameaçadoras contra o atendente. "Em uma das chamadas, eu dei corda para ele. Mas dei a desculpa de que eu só poderia continuar falando se ele ligasse de um telefone público. Ele desligou o celular e ligou de um orelhão. Quando eu vi o número, acionei a polícia e continuei conversando com ele, até os militares chegarem na rua onde ele estava", conta. O autor das ligações foi levado para a delegacia e depois foi obrigado, pela Justiça, a doar cestas básicas.
Na última quarta-feira, um homem de 26 anos acabou detido após acionar os bombeiros dizendo que sua esposa havia sido esfaqueada na Vila Olavo Costa. Quando a unidade chegou ao endereço informado, constatou haver uma pessoa passando mal, com fortes dores pelo corpo e dificuldade para respirar, sem qualquer sinal de esfaqueamento. O suspeito alegou ter mentido para garantir que a esposa fosse socorrida. Ele foi encaminhado à delegacia e liberado.
Em setembro do ano passado, um desempregado de 27 anos foi preso após passar um trote para o 190. De acordo com o boletim de ocorrência, registrado como perturbação da tranquilidade, o suspeito teria ligado para o serviço de atendimento diversas vezes e dito palavras de baixo calão aos telefonistas da PM. Após realizar o rastreamento do número, os militares descobriram que as ligações partiam de um telefone público na Avenida Agilberto Costa, no Bairro São Benedito, Zona Leste. Ao chegarem ao local, policiais abordaram o suspeito. O homem foi levado à 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil, onde assinou termo circunstanciado de ocorrência (TCO) e foi liberado.
Rio cobra multa por ligações
Desde o ano passado, o Estado do Rio de Janeiro conta com legislação específica que prevê multa para quem passa trote para os serviços de emergência, principalmente os que envolvem remoções, resgates, combate a incêndios ou ocorrências policiais. O valor do deslocamento e outros custos são cobrados na conta telefônica usada para os trotes. A medida, segundo os profissionais que lidam com essa situação diariamente, poderia ser adotada em Juiz de Fora. Mesmo que a ligação para esses serviços seja gratuita para o cidadão, toda a população paga o custo dos trotes, já que o dinheiro desperdiçado poderia ser investido em equipamentos e material humano para PM, Samu e Bombeiros. Isso sem contar o que é gasto com a mobilização de equipes, combustível, entre outras despesas. Enquanto a legislação não coíbe os abusos em Juiz de Fora, os próprios funcionários se mobilizam para acabar com o problema.









