Famílias aguardam notícias de desaparecidos após soterramento em Juiz de Fora

Buscas continuam nos bairros Parque Burnier e Paineiras; até o início da tarde, número de desaparecidos chega a 21 nessas duas localidades


Por Nayara Zanetti e Pâmela Costa 

24/02/2026 às 13h10

Parque Burnier - Leonardo Costa
Equipes de resgate atuam no Parque Burnier, na Zona Sudeste, durante buscas por desaparecidos após o temporal (Foto: Leonardo Costa)

A Tribuna esteve, na manhã desta terça-feira (24), em duas das áreas mais afetadas pelo temporal que atingiu Juiz de Fora nas últimas 24 horas para acompanhar o trabalho das equipes de resgate e encontrou familiares em busca de informações sobre desaparecidos. No Parque Burnier, na Zona Sudeste da cidade, as buscas por moradores soterrados seguem desde as 21h de segunda-feira (23). Segundo o major Demetrius, subcomandante do 4º Batalhão da Polícia Militar (BPM), 17 pessoas ainda estavam desaparecidas pela manhã no local, entre elas crianças. O Corpo de Bombeiros atua na área com 14 militares e reforço de um cão farejador. Até por volta de meio-dia, nove pessoas foram resgatadas com vida e quatro mortes foram confirmadas no bairro.

Moradores e familiares se concentram no local em busca de notícias. “Conheço todas as pessoas que estão desaparecidas. É terrível. Não tenho o que expressar. É um misto de emoções, de tristeza, de dor”, desabafa Sandra Jaqueline, de 45 anos, que ajuda amigos e vizinhos. A situação é ainda mais delicada porque voltou a chover na região, aumentando a apreensão de quem acompanha os trabalhos de resgate. 

Os pais de Fabrício da Costa Fonseca, 39 anos, moram na Rua Natalino José de Paula, três casas acima de onde ocorreu o deslizamento. A família aguarda o laudo da Defesa Civil para saber o que será feito em relação a casa. “Estamos esperando para ver se vai ser interditada ou se vamos poder voltar para dentro de casa. Não deu tempo de pegar nada, só os documentos e uma peça de roupa”, diz Fabrício, que lamenta toda a situação. “Meu pai está muito abalado. Eu não durmo direito sabendo que meu pai e minha mãe estão aqui, sabendo que tem amigos de infância debaixo dos escombros.” 

Regina Costa, de 59 anos, contou que estava deitada com o neto nos cômodos na parte de baixo da casa quando ouviu um barulho forte. “Isso já tinha acontecido no sábado passado, então ficamos quietos. Mas, por volta de 22h50, escutamos outro ainda mais forte. Ficamos preocupados e saímos de casa”, relatou. Agora, fora da residência, ela vive a angústia de não poder voltar. “Meus cachorros estão lá, estou muito preocupada. É muito difícil ficar fora de casa”, desabafou. 

Crianças, avó e padrasto desaparecidas no Paineiras 

No Bairro Paineiras, região Central, o cenário também é de dor e apreensão. A casa de Odério Filho, de 63 anos, fica de frente para a área atingida pelo deslizamento no Morro do Imperador. Ele, que cuida dos pais idosos, conta que percebeu o perigo pouco antes da tragédia. “Ouvi um estrondo, mas pensei que fosse trovoada. Só depois percebi que não era. Entrou água na minha casa. Estou com medo de ter mais chuva hoje. Muita gente abandonou a residência e foi embora”, relatou. 

Conforme apuração da Tribuna, o deslizamento na Rua Engenheiro Murillo Miranda de Andrade deixou duas crianças — uma menina de 6 anos e um menino de 9 — soterradas. A mãe, de 32 anos, foi resgatada com vida. O padrasto das crianças e a avó seguem soterrados e até o início da tarde desta terça não foram localizados. Os bombeiros continuam as buscas no local. Prima da mulher resgatada, Josiane Aparecida acompanha o trabalho das equipes com angústia. “Não é fácil. É muito triste. Minha tia, duas crianças, ainda estão lá. Nosso coração está explodindo”, desabafou. 

O medo de novos deslizamentos levou moradores a deixarem o bairro. Patrícia Rodrigues Martins, de 50 anos, decidiu sair de casa com o esposo, as duas filhas, o pai, a irmã, o cunhado e a sobrinha. “Estamos saindo do bairro porque estamos com medo de mais deslizamentos. Vamos para a casa de uma tia, no Manoel Honório”, diz. Ela conta que, ao sentir a vibração da janela e da porta, acordou assustada. “Ouvi uns gritos e saí para ver se tinha acontecido alguma coisa com alguém e nos deparamos com esse desastre. É muito triste. É o risco de perder as coisas que a gente construiu.” 

Os comentários nas postagens e os conteúdos dos colunistas não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir comentários que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.