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Estupros crescem 71% na cidade


Por Tribuna

23/04/2016 às 07h00

as vitimas de violencia sexual independem de idade sexo raca e religiao diz ana claudia bastos coordenadora do parbos fernando priamo07 04 16

“As vítimas de violência sexual independem de idade, sexo, raça e religião”, diz Ana Cláudia Bastos, coordenadora do Parbos (Fernando Priamo/07-04-16)

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A violência sexual na cidade aumentou 71,% no ano passado, se comparado ao ano anterior. Segundo o Protocolo de Atendimento ao Risco Biológico, Ocupacional e Sexual (Parbos), 287 protocolos foram abertos em 2015, contra 204 em 2014. Deste total, 80% correspondem ao sexo feminino e 20% ao masculino. Se a incidência é mais expressiva entre crianças e adolescentes, – menores de 18 anos correspondem a 70% dos casos – também chama atenção os episódios envolvendo mulheres em seu ambiente de trabalho e idosas. Segundo a coordenadora do Parbos, Ana Cláudia Esteves Pereira Bastos, a vítima mais velha atendida pelo serviço é uma senhora de 71 anos. Em outro caso, uma jovem foi violentada pelo próprio chefe, durante o horário de almoço, na empresa onde ela foi contratada em seu primeiro emprego. Trancada em um cômodo, a funcionária foi forçada a se relacionar sexualmente com o empregador que acabou sendo preso mais tarde. Ana Cláudia explica que episódios como esse desmitificam a ideia de um perfil específico sobre as vítimas.

“As jovens são mais vítimas do que outras porque são alvos fáceis. No entanto, as vítimas de violência sexual independem de idade, sexo, raça e religião”, alerta a enfermeira. De acordo com Ana Cláudia, para que o estupro ocorra basta que o agressor encontre oportunidade. Os casos atendidos no Parbos indicam que também não existe um horário específico para que o crime aconteça. “Há mulheres violadas na saída de casa para o trabalho, voltando da escola, dentro do seu local de emprego, na balada, no clube”, explica.

Um dos atendimentos mais marcantes para a enfermeira foi de uma mulher adulta violentada há cerca de cinco anos. Com mais de 30 anos, a vítima foi estuprada ao sair do trabalho, por volta de meia-noite. Segundo Ana Cláudia, a mulher trocava de ônibus na Avenida Rio Branco na direção de casa quando foi abordada por um estranho e obrigada a acompanhá-lo até o pátio de uma igreja na região central. A violência afetou o comportamento da vítima e a relação familiar. Além de tentar o suicídio, ela rejeitou por quase um ano o filho adolescente, porque via nele a imagem do agressor.

Serviço de saúde faz coleta de material

Considerado um serviço pioneiro em saúde, o Parbos existe há mais de uma década na cidade e hoje é referência para a macrorregião. Além de atender as vítimas de violência sexual, atualmente o protocolo acolhe pessoas que tiveram prática sexual consentida, porém, desprotegida, e aquelas em que um dos parceiros é sorodiscordante. Na prática, além de realização de perícia, o Parbos fornece profilaxia preventiva para HIV que, utilizada até 72 horas após a exposição sexual de risco, reduz a chance de contaminação do vírus. “Somos um serviço específico para o atendimento a vítima de violência sexual. Se encontramos dados sugestivos de violação do indivíduo abaixo de 18 anos, a providência imediata é comunicar o caso à Polícia Civil o mais rápido possível e fazer os procedimentos solicitados pela autoridade policial. Em parceria com o IML de Juiz de Fora, fazemos a coleta de material da vítima. Também é recolhido material toxicológico, quando há relato do uso de bebida, pois algumas drogas alucinógenas, como “o boa noite cinderela”, podem inibir a defesa da vítima”, explica a coordenadora Ana Cláudia Esteves Pereira Bastos.

Acima de 18 anos, a denúncia de violência só vira ocorrência policial com autorização da vítima. No entanto, a subnotificação é recorrente. Segundo dados fornecidos pela Polícia Militar, 52 estupros entre maiores de 18 anos foram registrados na cidade em 2015, quatro a mais do que em 2014. Se comparado com o número de atendimentos realizados no Parbos, os números da PM são 25% menores do que o total de mulheres assistidas no HPS. Por medo e vergonha muitas vítimas não prestam queixa.

Além de violência sexual, o Parbos atende pessoas que sofreram acidente com material biológico e entraram em contato com qualquer fluido orgânico. Noventa por cento das vítimas de acidentes de trabalho são profissionais de saúde.

Estuprador transmite HIV para a vítima

O ano de 1999 tinha tudo para ser especial. Luciana, 16 anos, fazia um curso profissionalizante e estava namorando pela primeira vez. Tinha planos de entrar para a faculdade e, como toda adolescente, sonhava com um mundo de realizações. Mas a dois meses da chegada de 2000, ela foi surpreendida por um estranho no caminho de casa. O rapaz, que cheirava a perfume barato, mudou sua história para sempre. Quase 17 anos depois de ter sido estuprada e infectada pelo HIV, a ex-estudante transformou-se em exemplo de superação. Hoje, com 32 anos, a mãe de 4 filhos encontrou na maternidade e no amor a força que precisava.

No começo, porém, não foi fácil lidar com a violência que sofreu e nem com sua nova realidade. “Sentia uma tristeza profunda, porque em vários momentos eu não conseguia entender. Na época, eu estava namorando. Era o meu primeiro namorado e eu tinha perdido a virgindade 15 dias antes do estupro. Uns meses depois de eu ter descoberto (o HIV), meu namorado terminou comigo, porque não conseguiu lidar com a situação. Durante muito tempo, pensei que não ficaria com ninguém. Não era bem uma frustração, era um receio de a minha vida não ter continuidade”, revela. Das oito vítimas feitas pelo agressor, ela foi a única contaminada pelo vírus da AIDS.

Além de Luciana, todos em sua família foram afetados pelo crime. “Meu pai sofreu demais, achei que ele fosse enlouquecer”, revela. Logo após ser estuprada, o pai de Luciana saiu de carro para tentar localizar o autor. “Por sorte, a gente não achou ele, porque, se tivesse achado, meu pai tinha matado ele”, comenta.

Apesar de toda a dor, Luciana diz ter escolhido não se comportar como vítima. “Eu escolhi não ficar sofrendo com o que aconteceu. Não sou uma pobre coitada e esse não é o papel que quero assumir na minha vida. Peguei as lembranças ruins e coloquei em uma caixinha. Hoje, sinto pena do agressor, porque só alguém muito infeliz cria o impacto que ele criou na vida dos outros”, explica.

Parte de toda essa força, Luciana retira da presença dos filhos. “Não sei como estaria hoje se não fosse por eles”, diz ao falar da rotina em família. As crianças são fruto de um casamento que durou sete anos. Mesmo sabendo que ela tinha HIV, o ex-marido optou por não usar preservativos, o que não é indicado nos casos em que um dos parceiros é soropositivo. Assintomática, Luciana só começou a tomar medicamentos para a AIDS quando engravidou da primeira vez, condição que lhe rendeu algumas internações. Os cuidados médicos, no entanto, impediram a transmissão vertical, de mãe para filho. Todos os bebês nasceram sem o vírus da AIDS.

“A única coisa que quero é ser feliz e eu sou. Tenho filhos maravilhosos, tenho problemas como todo mundo e uma família que sempre me ajudou”, conclui Luciana, cujo nome verdadeiro foi alterado, a fim de preservar sua identidade.