Mesmo com insatisfação, coleta noturna é ampliada

Reportagem encontrou lixo fora do horário
A coleta de lixo noturna foi introduzida com o objetivo de otimizar o sistema e melhorar o fluxo do trânsito, principalmente na área central. No entanto, após quase dois anos da implantação, o que se vê são reclamações por parte da maioria da população, que não se adaptou à mudança. No Centro e em bairros de grande movimento comercial, como São Mateus, apesar de o caminhão passar após as 18h, muitas vezes, há coincidência com o horário do rush, e os veículos acabam emperrando o tráfego. Mesmo percebendo os problemas, os trabalhadores do Demlurb não encostam o caminhão, provocando retenções frequentes. Em alguns pontos, as reclamações dizem respeito à falta de horário para a retirada do lixo das vias. Em outros, há denúncias de que alguns moradores deixam os resíduos expostos muito cedo, e, quando a coleta passa, os materiais já estão espalhados e provocando mau cheiro. Esta prática trouxe graves problemas no período chuvoso, já que sacos de lixo foram carregados pela enxurrada, levando a registros de alagamentos em pontos e proporções incomuns. Mesmo reconhecendo as falhas, o Demlurb afirma que pretende ampliar o serviço no horário noturno, passando de 38,62% para 40%.
A Tribuna percorreu diversas regiões para conferir como tem sido realizado o serviço. Em vários locais, o cenário é de mau cheiro, lixo espalhado e pilhas de sacos que dificultam a passagem de pedestres. As calçadas de alguns bairros servem, durante todo o dia, de depósito de detritos, comprometendo a acessibilidade, principalmente de quem empurra carrinhos de bebê ou possui alguma limitação física.
Apesar de o Código Municipal de Posturas prever multa para quem deixa os materiais descartados fora do horário e local adequado (ver quadro), como não há momento certo para o recolhimento, é difícil punir quem mantém o lixo o dia inteiro na rua. O código permite que os resíduos comecem a ser deixados até duas horas antes do horário previsto. "Se as pessoas colocassem o lixo às 16h, seria menos pior. Tem gente fazendo isso pela manhã", pontua o diretor geral do Demlurb, André Zatorre Medeiros. O diretor ressalta que o grande desafio é a conscientização, por isso será lançada uma campanha nos próximos dias. "Vamos mostrar à população os problemas que isso pode ocasionar. Vamos fazer uma parceria com a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU). Será um trabalho contínuo: se necessário, o fiscal vai ficar o dia todo em determinados pontos, quando colocarem lixo fora do horário, farão o alerta. A ideia é conscientizar para depois multar."
No caso dos dias chuvosos, André Medeiros admite que os sacos espalhados trazem problemas. "A pessoa coloca o lixo cedo. No final da tarde, começam os temporais, e o lixo vai para a boca de lobo, e acontece isso." Uma maneira de evitar este problema seria colocar os sacos em contêineres. No entanto, estes dispositivos não têm sido usados em muitos locais onde há o serviço noturno. O síndico de um condomínio na Rua Benjamin Constant, no Santa Helena, explica que o lixo é retirado dos contêineres e deixado em sacos porque não há quem recolha os recipientes da via no período da noite, já que, em alguns dias, a coleta acontece até mesmo de madrugada. "Nosso medo é de que os contêineres sejam furtados."

‘Cidade vira lixão a céu aberto’
Atualmente o recolhimento dos materiais começa depois das 18h em 119 bairros. A reportagem ouviu moradores de diversas localidades, e todos se mostraram insatisfeitos com o serviço. Se desafogar o trânsito é um dos objetivos da implementação da coleta no período noturno, a falta de respeito às leis de trânsito por parte de alguns motoristas dos caminhões de coleta atravanca as vias. A cena é comum: o condutor dos veículos do Demlurb para em frente ao ponto onde o lixo foi deixado, não se preocupando com o tráfego no entorno. "Mesmo quando tem vaga para estacionarem, param no meio da rua, obrigando todos os condutores a pararem também, é absurdo", desabafa Roberto Falcão, morador do Bairro Santa Luzia.
No Granbery, na região central, onde o recolhimento acontece às terças, quintas e sábados, a partir das 18h, a reportagem flagrou, em dias alternados, lixo espalhado na maioria das ruas desde antes das 15h, e, segundo os próprios moradores, em algumas vias, os materiais são colocados até mesmo na parte da manhã, descumprindo a recomendação do Demlurb, que é de colocar o lixo na rua depois das 18h. O morador do Granbery Walter Franco questiona a falta de compromisso da população: "Desde que começou a coleta noturna, parece que houve um retrocesso da comunidade. O caminhão passa no sábado e só volta na terça, mas tem gente que já começa a colocar o lixo na rua no domingo." O aposentado José Passos, morador da Rua Princesa Isabel, acredita que o problema não é só falta de conscientização da comunidade. "Muitos saem para trabalhar cedo e não conseguem colocar o lixo à tarde." A síndica de um prédio da Rua Barão de Cataguases, também no Granbery, diz que o horário de trabalho do zelador do edifício precisou ser trocado para a parte da tarde, mas nem assim o horário de colocar o lixo na rua consegue ser cumprido. "Ele sai às 16h30. Se ele não levar o lixo, os dejetos vão se acumular no prédio. Então, qual a solução?," questiona.
Na Avenida Olegário Maciel, no Paineiras, a mesma situação: sacos espalhados durante a tarde, trazendo incômodo a quem trafega pela área. "Não sou contra a coleta noturna, mas, da forma como está sendo feita, não está bom", diz o morador Paulo Graças. No Cascatinha, na Zona Sul, o lixo também atrapalha a circulação de pessoas, como na Rua Nair de Castro Cunha. Uma mãe reclama que não consegue passar com o carrinho do bebê porque o passeio fica tomado de sacos de lixo. "Preciso descer o meio-fio sem rampa e me arriscar na rua para conseguir passar." A moradora ressalta ainda a falta de consciência de vários residentes que atravessam a rua para juntar o lixo nesta mesma calçada, longe de suas casas e em frente ao muro do Clube Cascatinha.
Nos bairros São Mateus e Santa Luzia, Zona Sul, os sacos de lixo também degradam a paisagem urbana. No São Mateus, a insatisfação é grande. Moradores criticam a falta de frequência no horário dos caminhões. "Tem dias em que passam às 21h, em outros, à 1h," diz a dona de casa Maria Auxiliadora Rodrigues, que reside na Rua São Mateus.
Em uma das principais vias de Santa Luzia, a Rua Ibitiguaia, a insatisfação vem de comerciantes. "O lixo fica aqui durante todo o dia. O cheiro é horrível, e acaba atrapalhando o movimento do meu restaurante. À noite, o caminhão não tem hora para passar, é complicado", diz Rodrigo Ferreira. Residente na Avenida Santa Luzia, Rômulo José da Silva acredita que o recolhimento no horário noturno prejudicou a cidade. "Tem gente que, infelizmente, não tem condições de colocar o lixo no horário estipulado, aí a cidade vira este lixão a céu aberto."
Entrevista: André Zatorre Medeiros
"O cidadão tem que se adaptar"

A Tribuna levou ao diretor-geral do Demlurb, André Zatorre Medeiros, os principais questionamentos e reclamações de moradores e comerciantes sobre a coleta de lixo. Nesta entrevista, Medeiros fala sobre o custo-benefício da coleta noturna, os alagamentos agravados por lixo nos bueiros e o impacto dos caminhões no trânsito.
Tribuna – Há possibilidade de expansão na coleta noturna?
André Zatorre – Hoje 38,62% das rotas são feitas no horário noturno. O ideal é que chegue a 40%, e vamos conseguir isto em breve. Não há projeto para aumentar mais que isto, este nível já é considerado ótimo. A coleta noturna é tendência em cidades de grande porte, principalmente para desafogar o trânsito. Imagina, por exemplo, a Rua Santa Rita com coleta diurna, iria causar um nó em todo o trânsito da área central. Outro ponto de vantagem é a otimização do valor pago pelo aluguel dos caminhões, se usamos o caminhão durante o dia e a noite, pagamos o mesmo preço se tivéssemos usado apenas na parte do dia.
Encontramos lixo nas ruas o dia todo. O senhor acredita que com a coleta noturna a cidade ficou mais suja?
Este é o nosso grande problema hoje. Por isto, vamos começar uma ampla campanha tentando conscientizar a população em relação ao horário de colocação do lixo na rua. É importante lembrar que os caminhões saem da garagem a partir da 18h, e, começam a percorrer o trecho por volta de 20h. Pelo Código de Posturas Municipal, o gerador do resíduo é obrigado a colocar o lixo de forma regular e em recipiente próprio. A legislação define isto, e eles estão sujeitos a multa. Se ele é deixado antes, há chances de ocorrer vários problemas. O importante é a população saber que antes das 18h o caminhão não passa, então, não tem motivo para colocar o lixo antes deste horário.
E quem não tem condições de colocar lixo no horário indicado? Então, a coleta noturna não é pior para a cidade?
É uma questão de maturação e adaptação. A coleta noturna tem que existir, não há como reverter. Nós vamos deixar de fazer a coleta porque o lixo está sendo colocado em horário irregular? O cidadão tem que se adaptar e colocar no horário certo, é questão de cidadania. Se você sai mais cedo ou vai chegar tarde, combine com vizinho, coloque no contêiner dos condomínios. A população tem que buscar o bem comum. Não dá mau cheiro e a cidade não fica feia. Imagina o transito, com a quantidade de veículos que trafegam, com o caminhão de lixo durante o dia? Dá um nó no trânsito. Ao meu ver, existem problemas específicos, mas são pontuais, e o poder público trata da coletividade.
Por que a coleta noturna em área residencial? Como se pensou estas rotas?
Isto foi pensamento há dois anos, quando eu não estava aqui. Normalmente, se desenha as rotas baseado no fluxo de veículos das ruas e quantidade de lixo recolhida. Estamos sempre analisando. Existem critérios técnicos que definem a identificação das rotas, mas, dependendo da avaliação da população, pode haver adaptações. Estamos abertos à reavaliação.
Em relação aos grandes alagamentos observados nos últimos temporais, o fato de o lixo estar na rua pode ter contribuído para isto?
Com certeza. A pessoa coloca lixo cedo, chega 18h, como é típico dos meses de janeiro, fevereiro e março, tem o temporal, o lixo vai para boca de lobo e gera todo este transtorno
Os caminhões não têm horário certo para passar. O site do Demlurb diz apenas que eles começam a passar às 18h. Há locais em que moradores relatam o recolhimento em um dia às 21h, em outro, à 1h. Como resolver o quadro?
Isto realmente é uma lacuna. Temos uma margem de duas horas para que o caminhão faça o trabalho. Estamos fazendo um levantamento para ser disponibilizado para o cidadão ter noção de que horas ele pode passar. Estamos trabalhando para que o controle de horário seja o mais eficiente possível, e tentando melhorar a visualização no site, deixar de forma mais clara o horário que o caminhão vai passar, até mesmo para a população se organizar. Porém, não tem como projetar, podem ocorrer problemas no trajeto.
Sobre os motoristas de caminhão que desrespeitam as normas de circulação, o que o Demlurb pode fazer?
Estamos estudando a realização de cursos de qualificação motivacional para reciclar nossos servidores. Não dá para acompanhar todos, então a saída é fazer um trabalho macro de conscientização.









