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Rivalidade de gangues afeta rotina nos ônibus


Por Marcos Araújo

22/03/2012 às 06h00

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A rivalidade de gangues tem feito dos ônibus das regiões periféricas da cidade mais um espaço de confronto. Há registros de atos de vandalismo, com feridos, brigas, que levam passageiros a descer dos coletivos em movimento, e apedrejamento dos veículos. A situação tem deixado passageiros, motoristas e cobradores apreensivos. Casos recentes envolvendo as linhas 726 (Igrejinha) e 740 (Humaitá), localidades consideradas pacatas, têm levado a atrasos e até desvios de trajeto, aumentando o tempo de percurso das viagens. Usuários afirmam que, quando podem, têm evitado os coletivos que atendem as duas comunidades. A insegurança, como mostrado em outras reportagens, também faz parte da realidade de usuários do transporte coletivo de outras regiões da cidade (ver quadro). Para as empresas do setor, a violência representa danos materiais e psicológicos para funcionários, uma vez que motoristas e cobradores se sentem inseguros para trabalhar em determinadas linhas. Na visão de especialistas, a rixa entre grupos de jovens é um fenômeno contemporâneo ligado à ingerência de instituições, que não conseguem impor limites, e à indiferença de pais que não estão atentos às demandas da juventude.

A Tribuna circulou pelos veículos de Igrejinha e Humaitá, onde encontrou usuários amedrontados. Uma vendedora, de 26 anos, contou que utiliza o coletivo da linha 726 todos os dias e que já ouviu relatos de diversos usuários, reclamando da atuação de grupos de adolescentes rivais que atacam os ônibus com pedras. A desavença se daria em função de uma rixa entre gangues de Igrejinha e Humaitá. "A situação deixa a gente com medo. Às vezes, quando moleques de Humaitá estão no ônibus de Igrejinha são agredidos com socos e chutes. Com isso, as pessoas ficam em pânico."

Um servidor público municipal, 38, também passageiro do mesmo coletivo, relatou que já presenciou desavenças promovidas por galeras nos ônibus. "As pessoas ficam com tanto medo, que já vi gente descendo do veículo em movimento, com receio de sair machucada", afirma o trabalhador, defendendo a necessidade de intervenção da Settra, já que este tipo de situação, em muitos casos, leva o ônibus a ficar parado até que a situação seja controlada. "Os horários ficam atrasados. Além de ter nossa segurança ameaçada, temos que chegar mais tarde ao nosso destino." Uma doméstica, 37, disse se sentir encurralada. "Evito a linha 740 (Humaitá) devido à insegurança. Isso dificulta minha vida, pois, sem esse ônibus, só posso contar com o de Igrejinha, no qual também enfrentamos o mesmo problema. Não dá mais para fugir desse transtorno", afirma a usuária, lembrando que a situação é grave, porque, em muitas ocasiões, há crianças no coletivo. "São inocentes que não podem pagar pela falta de humanidade dos outros." Uma comerciária, 36, levanta outra questão. "Como temos que nos reportar ao posto da PM mais próximo, em Benfica, já que não há um em Igrejinha, muitos casos nem chegam a ser registrados. Quando a polícia é chamada, na hora em que chega, devido à distância, as galeras já foram embora", reclamou, acrescentando já ter visto motorista mudando o trajeto para evitar os locais onde acontecem apedrejamentos. Como aponta o presidente da Associação de Moradores de Igrejinha, Luiz Carlos do Nascimento Barbosa, a situação é preocupante e já foi informada à Polícia Militar. "Há pessoas inocentes dentro dos ônibus que não podem ficar sujeitas a essa violência. Ainda não tomei conhecimento de usuários que tenham se ferido, mas o fato, por si só, apavora passageiros."

 

Preocupação com apedrejamentos

De acordo com o gerente de operação da Viação São Francisco, responsável pelas linhas Igrejinha e Humaitá, José Roberto Baganha Ribeiro, a rivalidade entre os grupos é sinônimo de transtorno. Segundo ele, os casos de apedrejamentos das gangues rivais acontecem quando os veículos das linhas que servem aos dois bairros cruzam a BR-040, para acessar a BR-267. O gerente afirmou que, nos últimos três meses, essas ocorrências têm sido uma preocupação, mas não soube precisar quantos veículos foram lesados neste período. Para evitar novos ataques, segundo Baganha, a orientação, quando houver problemas relacionados à violência durante o percurso, é que funcionários acionem a Polícia Militar e a Polícia Rodoviária Federal, já que as linhas trafegam pela BR-267.

Ainda na Zona Norte, o problema também é percebido nas linhas que percorrem os bairros Jardim Natal e Milho Branco. Na sexta-feira, dia 16, a reportagem embarcou no ônibus da linha 609 (Milho Branco), por volta das 20h30. Nos últimos assentos do coletivo, três jovens, durante todo ao tempo da viagem até próximo à entrada do Jardim Natal, faziam algazarra. Em determinado ponto, na Rua Bernardo Mascarenhas, no Fábrica, onde o veículo parou, um grupo de adolescentes que estava do lado de fora, aguardando a linha do Jardim Natal, apontou para um dos jovens dentro do ônibus e gritou: "Olha lá, ele não consegue me encarar." No interior do veículo, o jovem que era apontado respondeu: "Se entrar numa com natalino (morador do Jardim Natal) parto para cima, sem nenhuma pena." Um integrante do grupo se manifestou: "Entro na parada contra o Jardim Natal para arrancar a cabeça." Apesar das ameaças, não houve atritos de fato, mas, mesmo assim, os passageiros ficaram amedrontados. Em outubro do ano passado, a Tribuna mostrou que pedras, de até 30cm, ficavam espalhadas pela Rua Otávio Schettino, no Jardim de Natal, devido à briga entre jovens de bairros diferentes. O vandalismo chegou a destruir a cobertura do ponto de ônibus. O encarregado de pessoal da Viação Norte, responsável pelas linhas, Mauro Antônio de Faria, confirmou que a rixa entre integrantes das duas comunidades já causou prejuízos materiais em função apedrejamentos. "Isso acontecia quando alguém descia do ônibus. Entretanto, os casos eram mais perceptíveis há cerca de três meses."

 

Ônibus já foi invadido no Floresta

A Viação São Cristovão, no ano passado, enfrentou problemas com meninos entre 9 e 12 anos de idade, que apedrejavam ônibus da linha Vila Ideal, na Zona Sudeste. Atualmente, conforme o encarregado da empresa, João Freesz, as dificuldades acontecem nas linhas que servem aos bairros Jardim Esperança e Retiro. "Eles jogam pedras no veículo quando um indivíduo de um grupo rival está no ônibus. No Floresta, por exemplo, já houve ocasião em que o carro foi invadido por seis homens, que pularam a roleta, deixando motorista e trocador apavorados. São casos que, além do dano material, assustam nossos usuários e ainda amedrontam os funcionários. Já teve cobrador que me perguntou se haveria seguranças para ele quando viu na escala o bairro onde iria trabalhar. É uma situação complicada. Pedimos que a PM reforce a segurança nessas áreas", afirma o encarregado, acrescentando que, nos diversos ataques sofridos por carros da empresa, foi difícil identificar os autores.

De acordo com assessor de comunicação do 27º Batalhão da PM, tenente Flávio Campos, a questão deve ser combatida pela polícia em parceria com a comunidade. "Funcionários e usuários devem denunciar. Mesmo que não haja detidos, é preciso informar à PM locais e horários onde o problema acontece. Além disso, é necessário que os autores sejam identificados, sendo importante que nos passem nomes e características, para traçarmos ações preventivas. As denúncias podem ser feitas de forma anônima", destaca o militar. Quanto aos apedrejamentos em Igrejinha e Humaitá, ele disse que há uma viatura que dá cobertura a essas localidades e que deve ser acionada pela população e pelas empresas de transporte. "O problema deve ser trazido para a PM, porque, em função da distância e outras situações alheias, o registro da ocorrência pode ser prejudicado", afirma, lembrando que reuniões já foram realizadas com as comunidades para tratar da situação. Para garantir a segurança dos ônibus urbanos, em 2011, os 570 veículos do transporte coletivo de Juiz de Fora começaram a ganhar, cada um, quatro câmeras filmadoras. Três destes equipamentos são capazes de fazer imagens internas e um é direcionado para a parte externa do coletivo. Segundo a assessoria de comunicação da pasta, hoje somente 42 veículos do total da frota ainda vão receber os equipamentos. Outros, que estão próximos de completar dez anos de fabricação, serão substituídos, por isso não serão contemplados.

 

Falta de diálogo e consumismo

Professor da UFJF e integrante do grupo de estudos da UERJ que desenvolve pesquisas sobre violência e juventude, Wedencley Alves, afirma que a formação de gangues não é um fenômeno de Juiz de Fora, mas que tem precedentes em países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Segundo ele, a ação destes grupos juvenis, que apelam para a violência sem se importar com inocentes, pode estar ligada a uma sensação de que se é permitido fazer de tudo, inclusive agressões a terceiros, porque há uma percepção generalizada de que as instituições não oferecem limites. Isso seria conjugado com o fato de os pais não entenderem seus filhos e com a entrada precoce no mundo do consumismo. "É preciso conhecer a demanda desse jovem, saber o que está por trás destes atos de violência. Atualmente, a família terceiriza a educação, ficando surda aos problemas dos jovens", avalia o pesquisador, acrescentando que: "Ações policiais, por si só, não são suficientes para sanar o problema. Alguma coisa que falta a esse jovem é capaz de levá-lo ao crime. A sociedade peca em não entender sua demanda. É preciso políticas públicas voltadas ao acompanhamento da juventude antes que ela chegue à agressividade. Isso pode começar na escola, por exemplo. Já os pais devem ficar atentos, não responsabilizar só a escola pela educação de seus filhos. Além disso, é preciso haver diálogo antes da realização de desejos materiais, que é utilizada pelas famílias para compensar suas faltas."