Setembro Amarelo: Estigmas dificultam diagnóstico e tratamento de depressão em adultos

Desde 2020, mais de 600 tentativas de suicídio e 200 autoextermínios foram registrados em JF; casos podem ser evitados, alertam especialistas


Por Sandra Zanella

21/09/2025 às 06h00

depressão - setembro amarelo
(Foto: Leonardo Costa)

“Será que essa tristeza é depressão?” A pergunta ecoa muitas vezes sem resposta, escondida em algum lugar profundo e dolorido. Em tempos de ansiedade, dificuldades financeiras e uso excessivo de telas, questões de saúde mental têm afetado cada vez mais pessoas. E é nesse cenário que o Setembro Amarelo – mês de prevenção ao suicídio – quer intervir, chamando a atenção para a importância de buscar ajuda especializada. A campanha, promovida pela Associação Brasileira de Psiquiatria, em parceria com o Conselho Federal de Medicina, aponta que, em média, 38 pessoas cometem suicídio por dia no Brasil. Quase 100% dos casos estão relacionados às doenças mentais, principalmente não diagnosticadas ou tratadas incorretamente. Só em Juiz de Fora, 199 pessoas tiraram a própria vida desde 2020. Os dados do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais, contabilizados até julho deste ano, ainda revelam que houve 607 tentativas de autoextermínio na cidade no mesmo período. Já na 4ª Região de Segurança Pública (Risp), que engloba mais 86 municípios do entorno, houve 919 tentativas de suicídio e 734 casos consumados nesses últimos anos.

“Eu não conversava com ninguém por medo e vergonha. Medo de ser repreendida, por ser a reação mais comum dentre os meus interlocutores, e vergonha, porque acreditava que eu não tinha o direito de ter depressão, afinal, sempre tive uma vida confortável, uma família amorosa, amigos queridos e, especialmente, pais com histórias de vida marcadas por privações e que lutaram muito para que seus filhos não vivenciassem tais experiências. Eu associava o fato de ter depressão ao reconhecimento de fraqueza e ingratidão.” O desabafo é da advogada L.Z., de 37 anos, explicitando o que está por trás da dificuldade em falar sobre o assunto. O isolamento social e a queda na autoestima podem aumentar o sofrimento psíquico e levar a ações impulsivas devastadoras, que poderiam ser evitadas com auxílio psicológico e/ou psiquiátrico. Nesta terceira reportagem da série especial sobre o Setembro Amarelo, a Tribuna foca na saúde mental na vida adulta e na importância do diagnóstico e tratamento.

Diagnosticada com transtorno depressivo recorrente, caracterizado pela ocorrência de múltiplos episódios de depressão, a advogada tem conseguido superar crises com acompanhamento e tratamento adequados, obtendo maior “controle” dos sintomas. Ela conta que desde a infância/adolescência apresentou episódios depressivos, após vivenciar situações “satélites” e eventos traumáticos que nunca foram adequadamente tratados. No entanto, não tinha consciência de que a desregulação emocional poderia configurar um transtorno. “Eu tinha preconceito em relação ao uso de medicação psiquiátrica e acreditava que não precisava de acompanhamento profissional. Não dava a real importância para o ‘incômodo’ que eu sentia.” Pensamentos sobre “deixar de existir” ou de “nunca ter existido” a acompanhavam. Mas foi na fase adulta que as ideações suicidas se intensificaram, começando por atitudes autodestrutivas que a colocavam em situações de risco e vulnerabilidade. Já em estado consciente, ela praticou três tentativas de suicídio. “Fatores externos desencadearam episódios de crise, como conflitos, frustrações, crença de desvalor, baixa autoestima. No entanto, por inúmeras vezes, eu não consegui identificar o que havia engatilhado um novo quadro depressivo.”

Tristeza ou depressão?

depressão - psiquiatra
“Tristeza, frustração, decepção, ansiedade, exaustão… Muitas coisas podem nos deixar para baixo, mas nenhuma delas deveria nos manter assim”, observa o psiquiatra David Sender (Foto: Arquivo pessoal)

O psiquiatra e autor de “O livro para quem adoeceu”, David Sender, explica que a tristeza e a depressão podem ter gatilhos semelhantes, como eventos estressantes ou traumáticos. “A diferença está em como reagimos a esses acontecimentos. A tristeza é uma resposta emocional comum diante de situações dolorosas, e é parte essencial do nosso desenvolvimento emocional. A intensidade da tristeza pode variar diante de diferentes fatores. É importante reconhecer que a depressão vai além disso, muitas vezes se manifestando sem a presença óbvia de tristeza.” Segundo o especialista, enquanto a tristeza geralmente é passageira e permite a recuperação ao longo do tempo, a depressão pode causar uma sensação de desesperança e desamparo, dificultando a retomada do bem-estar. Diferenciar a emoção do transtorno sem ajuda, no entanto, pode ser um desafio. “A depressão é um transtorno mental que precisa ser tratado e acompanhado por profissionais. Se você está enfrentando um período de tristeza ou se questiona sobre sua saúde mental, não hesite em procurar um psiquiatra para avaliação e orientação adequadas.”

A advogada L.Z. fez a primeira consulta com um psiquiatra aos 18 anos, após ter transtorno do estresse pós-traumático e, algum tempo depois, crises de ansiedade. “No entanto, após aparente melhora do quadro, eu abandonava o tratamento e interrompia o uso de medicamentos sem orientação.” Os episódios depressivos tornaram-se progressivamente mais intensos e mais frequentes. “Em meados de 2014, desenvolvi quadro de síndrome do pânico, impactando significativamente a minha rotina. Iniciei tratamento psicoterápico e, em sequência, psiquiátrico, a fim de conciliar as duas abordagens, conforme orientação da minha psicóloga.” Ela observa que os tratamentos foram decisivos para proporcionar períodos de maior estabilidade emocional. “Nesse longo e intenso processo de autoconhecimento, de desconstrução de crenças equivocadas e paralisantes, de rompimento de preconceitos sobre tratamento psiquiátrico e medicação, de cuidado de feridas antigas, atuais e latentes, pude compreender o meu lugar no mundo e estou aprendendo a me tratar com mais carinho.”

Para saber quando a luz amarela deve ser acesa, Sender recomenda ficar atento a sinais que durem mais do que duas a quatro semanas, como pensamentos repetitivos; preocupações exageradas; mudanças de humor, memória e atenção; cansaço progressivo; mudanças em comportamentos ou reações, seja por excesso ou atenuação; especialmente se acompanhados de outras alterações em outros aspectos como sono, apetite, criatividade, autoestima; e em mais de um âmbito, como no trabalho, família, relações sociais e relacionamento. “Tristeza, frustração, decepção, ansiedade, exaustão… Muitas coisas podem nos deixar para baixo, mas nenhuma delas deveria nos manter assim.”

UBSs são porta de entrada para tratamento

Segundo a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) no município é composta por um conjunto de serviços e programas de saúde mental direcionado a pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). “Envolve os setores da Atenção Primária à Saúde, a Atenção Especializada, a Rede de Urgência e Emergência e a Atenção Hospitalar. Isto significa que o cuidado em saúde mental poderá acontecer em diferentes pontos, conforme a atenção que o caso requer, tais como: Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Centro de Convivência e Cultura, Consultório na Rua, Centros de Atenção Psicossocial (Caps), serviço de urgência e emergência do HPS e serviços hospitalares conveniados.” Ainda conforme a PJF, a porta de entrada preferencial desta rede é a UBS do território em que a pessoa vive ou o Consultório na Rua (em caso de pessoa em situação de rua).

Por meio dos encaminhamentos das UBSs, os Caps atendem aos casos mais complexos, de pessoas com transtornos mentais severos e persistentes e/ou em uso abusivo de álcool e outras drogas. “O atendimento é focado na atenção psicossocial, e a abordagem considera as dimensões psíquicas, sociais e culturais.” Nesse contexto, são considerados os vínculos com familiares, amigos, o território em que vive, as condições de vida e outros fatores que afetam a saúde e o adoecimento.

Para psicóloga, políticas públicas devem ser mais efetivas

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“Se você tem algum problema que não está conseguindo resolver sozinho, está na hora de procurar terapia”, avalia a psicóloga Eduarda Mota (Foto: Arquivo pessoal)

A psicóloga Eduarda Silva Mota concilia atendimento social em seu consultório e avalia que faltam políticas públicas na saúde mental. “Nossa cultura não vê como algo necessário.” Sobre os principais gatilhos que desencadeiam questões mentais em adultos, como depressão, ela aponta situações financeira e familiar. “Nossas relações próximas têm grande poder. Todos os vínculos fortes que exigem convivência diária impactam de forma significativa a saúde mental.” Para ela o Setembro Amarelo vem para popularizar o tratamento. “Desmistificar e mostrar que tratar é se manter saudável. Não quer dizer nada ruim sobre a nossa condição.” Ela alerta para a importância de tratamentos seguros. “Não adianta procurar tipos de terapia que não tenham respaldo teórico, científico.”

O uso excessivo de telas pode agravar quadros de ansiedade e depressão, segundo a especialista. “Já conseguimos fazer essa correlação.” Atividade física, cuidados com sono e alimentação são aliados para uma vida melhor. “Hoje não percebemos carga genética para tentativas de suicídio. A predominância é ambiental: fatores que acontecem no ambiente, junto com a fragilidade emocional, podem resultar em ideações suicidas.” Mas quando pedir ajuda? “Se você tem algum problema que não está conseguindo resolver sozinho, está na hora de procurar terapia. A própria psicóloga vai fazer a indicação para um psiquiatra, se for o caso de usar medicamento.”

“Se entender, se acolher, buscar ajuda, tratamento adequado e estudar sobre o transtorno são passos essenciais para que se possa alcançar o bem-estar e melhor qualidade de vida. Transtornos psiquiátricos não nos definem e não limitam os papéis que desempenhamos ou os caminhos que buscamos ao longo de nossas existência”, atesta a advogada L.Z. “Por mais que tenhamos a tendência de nos isolar quando episódios depressivos se instalam, é importante que todos que estão enfrentando esse desafio saibam que não estão sozinhos e que procurar ajuda não é sinal de fraqueza, muito pelo contrário, é um ato que exige imenso esforço físico, emocional e muita coragem. Estar doente não é escolha. Se estiver muito difícil, converse com uma pessoa de confiança, diga como está se sentindo e que está sem energia e/ou com dificuldade para buscar ajuda sozinha (o).” A advogada finaliza dizendo que a vida não precisa ser pesada e que cuidar da saúde mental é um ato de amor próprio e aos próximos. “A crise depressiva nos leva a um lugar tão profundo de desvalorização da própria existência que desenvolvemos percepções equivocadas da realidade, além de crenças incapacitantes e depreciativas fazendo com que não consigamos enxergar a beleza da vida e dos afetos.”