Crianças trocam escola por esmolas nos sinais

Meninos ocupam sinal da Rio Branco para esmolar
A mendicância em Juiz de Fora exibe uma face cada vez mais dura. No lugar de adultos vendedores de canetas, de paçoca ou de panos de chão, meninos a partir dos 5 anos de idade são os pedintes dos sinais. A Tribuna acompanhou a rotina de crianças que passam os dias na via pública em troca de moedas. Apesar do risco, já que os garotos transitam entre os carros de passeio e usam a pista de ônibus para brincar, eles permanecem na invisibilidade. Em uma das noites em que o jornal ficou de plantão no semáforo na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Silva Jardim, I., um menino de 11 anos, foi flagrado pendurando uma pequena bolsa no gradil que separa as pistas das vias. A cada vez que o sinal ficava vermelho, ele fazia a arrecadação e depositava "as doações" na carteira, atividade que, ao final do mês, segundo os pedintes, rende mais de R$ 400. Além dele, outras crianças repetiram o gesto por semanas seguidas sem que tivessem sido abordadas por ninguém. Por trás dos pedidos de esmola, há infrequência escolar, situações de exploração, violência, omissão familiar e descaso das autoridades. O fato é que a mendicância de crianças tornou-se uma realidade diária, mas difícil de ser percebida em 60 segundos de retenção do sinal. Quando a luz verde se acende, os veículos partem, mas as crianças continuam no asfalto até o fim da noite.
Na semana passada, a equipe de reportagem abordou meninos que passaram o dia nesta situação. Entre todos os garotos, o que colocou a bolsa no gradil foi o que mais chamou a atenção. Além de transitar sem medo por entre os carros, ele subiu algumas vezes na lataria do ônibus, encostou na roda dos coletivos e até na porta, ignorando o risco de queda ou atropelamento. Para falar com ele, o jornal precisou ir até o canteiro da Avenida Rio Branco. De pouca conversa, I., o menino de 11 anos, mentiu seu nome e disse que ficava no sinal para comprar salgados e coisas pessoais, como a roda para sua bicicleta que guardava na sacola. No entanto, ele admitiu usar parte do dinheiro que ganha para colocar comida dentro de casa. "Compro açúcar e pó de café." Disse, ainda, que a greve das escolas municipais trouxe privações, já que "quando a escola não está funcionando fica difícil ter lugar para comer". Como outras crianças entrevistadas pela Tribuna em situações de risco, o garoto é aluno do segundo ano do ensino fundamental, mas não sabe ler nem escrever. Quando adultos que também estavam pedindo no sinal se aproximaram para participar da conversa, a criança mudou de atitude. Adotou postura violenta, seguiu a equipe de reportagem e lançou um cabo de vassoura contra o carro da Tribuna, amassando o capô.
Negligência
Para descobrir mais sobre I., o jornal percorreu três escolas públicas. Também foi até o bairro onde mora, identificando mais uma história de negligência familiar e de possível violência doméstica. Filho de uma família de vários irmãos, sendo que o mais velho está preso, o menino teria um histórico de abuso sexual. A mãe, que poderia ser uma referência importante para o garoto, não tem ascendência sobre ele, sendo que nenhum dos filhos a chama de mãe. Com um importante déficit de aprendizagem, I. não tem vínculo com o ensino formal e nem as escolas conseguiram fazer algo por ele. O diretor do atual colégio no qual I. foi matriculado garantiu que vai intervir e oferecer atividades extracurriculares para o menino, a fim de mantê-lo mais tempo na escola, evitando o convívio com a rua.
De acordo com o Conselho Tutelar Leste, diversos encaminhamentos foram feitos no caso de I. A informação mais recente é que ele foi encaminhado para o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Sudeste e, posteriormente, para o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti). No programa, porém, o nome dele não foi identificado nos atendimentos, conforme consulta ao arquivo atualizado. feita ontem.
‘População se habitua com o inaceitável’
G., de 5 anos, foi flagrado perambulando pelo Parque Halfeld sem a presença de um adulto. Matriculado no primeiro ano do ensino fundamental, o menino está evadido da escola. Ele está entre o grupo de crianças ligadas a I. e J. um de seus irmãos.
Para o cientista social e professor da UFJF Paulo Roberto Figueira Leal, enquanto a mendicância de crianças não for retirada da invisibilidade, não haverá mudanças. "A história em si é dramática, porém mais dramático ainda é que ela não pareça tão chocante para a maioria das pessoas. A população se habitua de tal modo a ver uma situação que deveria ser tratada como inaceitável que os casos passam a não chocar pela repetição. Sob qualquer critério, é dramático ver que não há uma mobilização das autoridades e da própria população. As pessoas acham natural ver meninos que deveriam estar na escola pedindo e, assim, os dramas sociais tornam-se invisíveis. Qualquer solução exige a retomada da visibilidade da questão, bem como a sua desnaturalização e a reflexão de que não pode haver omissão pública para fatos como este."
Paulo Roberto também reitera a falta de questionamento social sobre a infância nos sinais. "Existe um problema quando as pessoas não se perguntam porque há uma produção em série de situações que vão contra qualquer norma legal do país, desrespeitando todos os compromissos que a sociedade brasileira assinou nas últimas décadas em todos os fóruns multilaterais e convenções internacionais." O cientista social diz ainda que a cooperação com a mendicância é cultural. "Há uma cultura que mercantiliza o próprio compromisso de cidadania, porque é mais barato para as pessoas imaginarem que pagaram para não enfrentar o problema, desconsiderando que é preciso ter soluções estruturais."
Segundo ele, enquanto a miséria e o abandono de crianças forem tratados desta forma, mais longe a sociedade estará de alterar a realidade e de exigir compromisso público com a população infantojuvenil. "O Poder Público tem o dever constitucional de cuidar dessas crianças, devendo traduzir o dinheiro que pagamos em forma de impostos em políticas públicas e ações efetivas, as quais vão além das meras narrativas de intenção."








