Controle de narrativas
A criação da CPI dos atos de 8 de janeiro, antes pauta exclusiva da oposição, já ganha adeptos no Governo, com o objetivo de imputar as responsabilidades ao oponente

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Adicionar Tribuna de MinasA saída do general Gonçalves Dias do comando do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), depois de vídeos vazados nos quais ele é visto perambulando pelo Planalto no mesmo horário em que manifestantes depredavam o prédio, dá margem para um novo enfrentamento entre governistas e oposição em torno da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os atos de 8 de janeiro.
Em princípio, a causa estava restrita aos seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro, sob o argumento de que uma investigação profunda iria distribuir responsabilidades, isto é, o Governo, no seu entendimento, não foi surpreendido pelos atos. Com oitos dias de mandato, teria informações suficientes para conter os invasores, preferindo, no entanto, fica à margem para se apresentar como vítima de uma conspiração.
Com a saída do general, os governistas, agora, tentam reverter o jogo e apontar que as ações podem até ter tido a conveniência de membros do atual GSI, mas por funcionários oriundos do mandato passado e com forte aproximação com os dirigentes da última legislatura. Em suma, a semana promete discussões intensas ante dois argumentos que devem ocupar boa parte da agenda do Congresso.
A CPI é o olhar político em torno de um evento que já está sob investigação sob o viés criminal e tendo vários de seus participantes detidos em decorrência das prisões em flagrantes efetuadas no coração do Distrito Federal. O Supremo Tribunal Federal – um dos alvos atacados – já formou maioria para processar os cem primeiros indiciados, embora haja, ainda, margem para recurso. A Corte resolveu fatiar o caso, a fim de garantir mais eficácia no seu encaminhamento ante o expressivo número de envolvidos. O desfecho, porém, está longe.
A discussão no Congresso tem outro viés, pois será um enfrentamento em busca de responsáveis e colaboradores, a fim de, ao final, estabelecer-se uma narrativa para permear os próximos passos do embate entre direita e esquerda e que deve perdurar por um bom período, como, certamente, vão prevalecer outros enfrentamentos ainda fruto da polarização que teve o seu embrião em 2018 e se ampliou no pleito de 2022.
A CPI, pela ótica política, tornou-se necessária para investigar, sobretudo, os fatos anteriores ao evento de janeiro e o seu desfecho. Os envolvidos devem ser punidos, mas o que se buscará na Comissão Parlamentar de Inquérito vai além disso, já que os dois lados, em busca do controle de suas narrativas, vão imputar a responsabilidade ao seu antagonista.: o Governo enfatizando a culpa dos opositores e estes, por sua vez, destacando que o Planalto, especialmente, poderia ter agido com antecedência e evitado a manifestação.
Nesse jogo estarão em jogo duas agendas, mas é necessário levar em conta as consequências. CPIs, todos sabem como começam, mas seu resultado é incerto, podendo chegar a qualquer conclusão, inclusive a nada. A CPI da Covid é um claro exemplo: fez uma série de apontamentos, mas seus desdobramentos ainda são desconhecidos, já que todos os supostos indiciados ainda não tiveram qualquer definição de mérito.









