Fumacê tenta barrar explosão de dengue

Frente a frente com a possibilidade de uma epidemia de dengue, Juiz de Fora já lança mão do fumacê, na modalidade costal, em bairros com maior infestação do mosquito Aedes aegypti, na tentativa de conter a proliferação da doença, que cresce de forma vertiginosa. No início do mês (dia 4), a cidade tinha 127 diagnósticos positivos. O número saltou para 369 no boletim divulgado nesta quarta-feira (20), o que representa aumento de 203% em um período de 16 dias. Com o desafio de evitar um cenário tão crítico quanto o observado em 2010, quando a cidade viveu a pior epidemia de sua história, com 9.050 infecções pela doença e 17 mortes, a Prefeitura decretou estado de emergência para a dengue, ao mesmo tempo em que tenta garantir a eficiência na notificação de casos e alinhar a estratégia de enfrentamento. No entanto, ainda não há previsão de uso do fumacê em veículos.
A subsecretária de Vigilância em Saúde, Glênia Campos, explica que o fumacê costal, ou ultra baixo volume costal (UBV leve), lança um inseticida mais leve que o usado nos veículos. O remédio, carregado em uma espécie de mochila, é borrifado, pelos profissionais por meio de um cano. O município lança mão do recurso em locais onde há notificações da dengue, na tentativa de bloquear o foco. "O paciente com suspeita da doença corre risco de transmiti-la para o mosquito sadio. A ideia é matar o inseto, quebrando esse ciclo".
A chefe do Departamento de Vigilância Epidemiológica, Mônica Santana, explica, no entanto, que antes de utilizar o UBV, é realizado um tratamento focal em um raio de 150 metros do local onde há confirmação ou suspeita de dengue. "Somente após o tratamento focal usa-se o UBV também em um raio de 150 metros". Conforme Mônica, o serviço é desenvolvido por sete agentes de endemias, distribuídos em duas equipes. A assessoria de comunicação da pasta, no entanto, não informou os bairros que já teriam recebido UBV, nem a programação dos próximos dias.
Com relação ao uso do carro fumacê, que vem sendo solicitado em alguns bairros, Glênia informa que o município só lança mão dessa ferramenta quando o quadro de epidemia já está instalado, ou seja, quando o total de diagnósticos confirmados da doença atinge o patamar de 1.500.
A subsecretaria argumenta que é necessário bom senso na utilização do fumacê, já que se trata da introdução de um inseticida no meio urbano. Ela acrescenta que o contato do mosquito com o remédio vai fazendo com que o inseto adquira resistência. Conforme Glênia, as pessoas alérgicas podem sentir certo incômodo com o remédio, já que, para que o tratamento funcione, é necessário que as janelas das casas estejam bem abertas, deixando que o inseticida fique impregnado na parede. "Mas o mal da alergia é muito menor do que o da dengue", conclui.
Forma hemorrágica da doença preocupa
O aumento acelerado e contínuo nos casos de dengue eleva a preocupação com o risco da forma hemorrágica da doença, considerada mais grave. O temor é maior entre as pessoas que já contraíram a moléstia uma vez. No entanto, o infectologista Sérgio Botti garante que as pesquisas não indicam risco maior de dengue hemorrágica em pessoas que já foram infectadas outras vezes.
O fungicultor José Francisco Scurachio integra os grupo dos reinfectados. Ele teve o segundo diagnóstico da moléstia entre a última semana de fevereiro e a primeira de março deste ano. Francisco lembra que, na primeira vez que contraiu dengue, em outubro 2011, teve febre muito alta, que não cedia facilmente com remédios, mas, apesar disso, o quadro foi relativamente brando.
Já da segunda vez, o fungicultor conta que os sintomas foram mais acentuados, começando com diarreia, passando para vômito, febre e manchas pelo corpo. Como na primeira vez, ele dirigiu-se ao hospital, onde tomou soro e foi medicado como se estivesse com problema estomacal, já que o vírus não foi diagnosticada no primeiro momento. No local, o médico orientou que o doente procurasse um infectologista dentro de 48 horas. Só depois deste período, a doença foi realmente constatada.
Apesar dos sintomas de Francisco terem sido mais fortes ao ser picado novamente pelo Aedes aegypti, Botti afirma que os dois fatores não têm ligação. O infectologista explica que, por existirem tipos diferentes de vírus, os sintomas também são diversos e isso não está relacionado ao número de vezes que o paciente contrai a doença. "Não existe uma explicação (para a dengue hemorrágica). O que existe é a interação entre o vírus e a pessoa, o que depende de muitos fatores, como imunidade, carga viral (quantidade de vírus que circula) e outros até mesmo desconhecidos".









