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Lentidão de ações públicas entrava combate ao crack


Por Guilherme Arêas

21/03/2012 às 06h00

Centro de Recuperação Resgatando Vidas recebe beneficiários do 'Aliança pela vida'

Centro de Recuperação Resgatando Vidas recebe beneficiários do ‘Aliança pela vida’

As políticas públicas de combate ao crack ainda se mostram incipientes se comparadas ao avanço epidêmico da droga. Para especialistas, o entrave nas ações representa uma das principais dificuldades no tratamento de dependentes que não têm condições de arcar com os altos custos de internação em clínica ou comunidade terapêutica. Medidas mais rápidas e eficazes dos governantes poderiam evitar novos casos, como o da mãe de L., que amarrou o filho adolescente aos pés da cama para que ele não comprasse as pedras, ou talvez trazer de volta para casa o jovem de 23 anos que pode estar perambulando pelas ruas de Juiz de Fora há dois anos, após a mãe desistir do filho, como mostrado na primeira reportagem da série "Até quando?", no domingo. "As políticas públicas deveriam andar junto com o crescimento do crack, mas, na prática, isso não acontece. Em muitos casos, o tempo de internação não é suficiente ou a mão de obra oferecida no tratamento não é qualificada", problematiza a psicóloga Franca Leone, especialista em dependência química.

Hoje em Juiz de Fora, apenas dez famílias recebem auxílio financeiro para tratamento por meio do projeto "Aliança pela vida", convênio entre a Prefeitura e o Governo estadual iniciado em dezembro. O objetivo era que até mil pessoas de Juiz de Fora e Teófilo Otoni fossem beneficiadas com R$ 900 mensais. Doze famílias chegaram a receber o cartão, mas desistiram, por motivos variados, segundo a Prefeitura. Outras 32 estão em processo de documentação, sendo 19 em estágio mais avançado. No município do Vale do Mucuri, cuja população chega a 130 mil habitantes, nenhuma pessoa ainda recebeu o cartão com o qual poderá sacar o dinheiro. Um impasse sobre a responsabilidade da gestão do programa, entre as secretarias estaduais de Defesa Social e Saúde, seria uma das explicações para essa situação.

O subsecretário de Polí­ticas Antidrogas de Minas, Clóvis Benevides, garante que a meta de mil famílias será cumprida, mas afirma que é preciso prudência nesta fase inicial. "Como a ação ainda está sendo implementada, estamos testando a tecnologia adotada para avaliar onde existem furos ou resultados positivos."

A parceria destina R$ 900 mensais ao tratamento, sendo R$ 800 para clínicas de reabilitação credenciadas e R$ 100 para custeio de transporte dos parentes até o local da internação. Em Juiz de Fora, duas entidades estão credenciadas: o Centro de Recuperação Resgatando Vidas, que recebe apenas homens, e a Associação Projeto Amor e Restauração (Apar), que acolhe as mulheres beneficiadas pelo projeto.

Vagas disponíveis

Conforme a coordenação do Resgatando Vidas, parte dos assistidos já se recuperou e deixou o local. De acordo com o diretor José Carlos Dias Vieira, existem 15 vagas masculinas disponíveis para o "Aliança pela vida", mas, diante da ausência de novos encaminhamentos do Governo, os espaços estão sendo ocupados por pacientes particulares. "Nosso tratamento dura quatro meses e, como a rotatividade é grande, a criação de vagas não é problema. Após a liberação do beneficiário do ‘Aliança’, temos condições de recebê-lo em até 15 dias."

O dinheiro é depositado enquanto durar o tratamento, por até nove meses, podendo ser prorrogado por até dois anos. Para ter acesso, a família deve ter renda de até dois salários e procurar a Secretaria de Assistência Social ou unidades do Cras e apresentar relatório de psiquiatra do sistema público de saúde que ateste a dependência química e recomende a internação como tratamento. O município emite parecer recomendando ou não a inclusão no programa.

 

Tratamentos dependem de recursos

Quando se fala em crack, droga que devasta física e moralmente o viciado, a urgência do tratamento de dependentes é grande. "A cada dia, temos mais novos usuários do que recuperados", alerta o presidente da Comissão Parlamentar Antidrogas, vereador Noraldino Júnior (PSC). "Pelo potencial de interferir de forma pesada no sistema de recompensa e prazer, associado à grande capacidade de dependência, o crack é hoje uma das drogas mais devastadoras", complementa o psiquiatra Mário Sérgio Ribeiro, responsável pelo Laboratório de Pesquisa em Personalidade, Álcool e Drogas da UFJF.

O coordenador da Comunidade Terapêutica Geração de Adoradores, pastor Cláudio Luis Carvalho, reconhece que as iniciativas privadas não conseguem acolher toda a demanda de viciados de baixa renda. "Quem tem dinheiro consegue se tratar. Quem não tem, não se trata. Hoje, como não tenho ajuda do Governo, não consigo receber pessoas que não podem pagar."

SUS

Basicamente, existem hoje na cidade duas portas de entrada para dependentes que buscam tratamento pelo SUS: as unidades de atenção primária à saúde (Uaps) e o Hospital de Pronto Socorro (HPS). A partir de um protocolo de prioridades e com base na rede de atendimento disponível no município, os pacientes são encaminhados para o tratamento mais adequado.

Em relação aos leitos, são 32 no Hospital Ana Nery, 32 vagas exclusivas para crianças e adolescentes, 32 em comunidades terapêuticas, além de vagas disponíveis em hospitais psiquiátricos e coordenadas pela central de regulação da Secretaria de Saúde. De acordo com o chefe do Departamento de Saúde Mental do município, José Eduardo Amorim, outras 23 vagas devem ser criadas ainda no primeiro semestre, com a reformulação da rede de urgência e emergência do município. "Felizmente, Juiz de Fora encontra-se muito bem se comparada com outros municípios de igual ou até de maior porte. Aqui, a oferta de possibilidades é muito interessante."

Ainda conforme o responsável pela saúde mental na cidade, há outras formas de assistência aos dependentes, como o Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (Caps AD), que atualmente atende mais de 400 pessoas, e o programa "Consultório de rua", que, em 30 dias, realizou 379 abordagens a pessoas em situação de rua.

 

Acesso às drogas precisa ser contido

"O grande problema é a disponibilidade do crack. Enquanto ele estiver disponível para ser comprado, vamos ficar enxugando gelo", sentencia o psicoterapeuta Dionísio Banaszewski. Nesse sentido, torna-se fundamental o papel das polícias em conter o acesso de drogas ilícitas, incluindo o óxi, variante mais perigosa do crack. A principal dificuldade da Polícia Civil é a grande capilaridade da droga, o crescimento no número de dependentes e de pontos de venda. "Cada vez mais, o usuário está praticando o comércio, nem que seja para sustentar o vício", diz a delegada Sheila de Melo Oliveira.

Embora garanta que a polícia esteja identificando e prendendo traficantes, principalmente os que aliciam menores de idade no tráfico, a delegada reconhece o poder desse comércio ilegal. "O crack em si não é lucrativo, mas é altamente destrutivo e viciante. Então, o traficante não ganha tanto pelo valor da pedra, mas pela quantidade vendida."

O baixo custo e a alta dependência também são a explicação da Polícia Militar para a rápida expansão da droga em Juiz de Fora. "Pela frente repressiva, a PM tem atuado de forma inteligente, utilizando os recursos disponíveis e as denúncias de cidadãos de bem que não querem mais conviver com esse problema", explica o assessor de comunicação da 4ª Região da Polícia Militar, major Sebastião Justino.

Mas a aposta da PM é na prevenção, principalmente com crianças e adolescentes, por meio de iniciativas, como o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), o Jovem Construindo a Cidadania (JCC), palestras nas escolas e o Grupo Especializado no Atendimento à Criança e Adolescentes em Risco da PM (Geacar).