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Crônica: SALLE DES PAS PERDUS


Por Danilo Lovisi

20/10/2013 às 07h00

O poeta Danilo Lovisi

O poeta Danilo Lovisi

vó,
i. salledespasperdus, aqui, é o nome pra esses lugares que a gente anda sem ideia de fim; perdendo tempo, perdendo passos. pode ser na estação (atrasou, o trem pra Benfica?), na sala de espera do hospital (morreu, a tia de Guarani?), ou embaixo do relógio do Parque Halfeld (estarei de vermelho, tênis preto – não esquece).é onde os pés esmagam tic-tacs.
 
ii. aqui são muitos os parques, você deve ter visto pelas fotos que enviei mês passado. acontece que eles não cheiram a memória. a tempo, sim, cheiram: não mofo nem guardado, mas tempo histórico, pesado; cheiro de livro grosso, de sebo, capaduresco. o que a mim cheira a memória (que não é, perceba, cheiro de tempo) são os parques daí. sim, voilà. mesmo aqui em Paris sinto falta do cheiro do parque do museu. o Mariano, sim: do cheiro do sol aerado caindo das folhas das árvores centenárias (e dizem que foi o Pedro, o Dom, quem plantou. vai saber). sinto falta do cheiro de phebo vindo do pano do teu vestido. o mesmo cheiro que vinha da tua gaveta de calçolas (porque um dia, sim, vó, eu abri tua gaveta – a terceira, de baixo pra cima). aqui não tem cheiro que faz lembrar. toda memória é original, percebe?
 
iii. salledespasperdus é também quando ficamos presos num pensamento que roda: uma ideia que roça nas paredes da cabeça desde a noite anterior; que acorda a gente puxando o peito – numa fisgada fria – puxando o peito feito um peixe vivo, ainda sonolento & morno, do lago cor de terra do museu – do lago da cabeça da gente – que não tem bicho há muito tempo, pelo que sei.
 
iv. ontem sonhei que tomávamos café usando a louça (de cerâmica) do imperador. de bicicleta eu te encontrava no portão de entrada, que era também verde e com as pontas, no topo, douradas, como no parque do Louvre. "vem rápido, filho, porque o café esfria ligeiro aqui", disse você em francês, só que em português. um cardume de pássaros passou voando & nadando na nossa frente: estava servida a mesa com a louça do Pedro, o Dom, que, dizem, tomava suco de laranja nessas canecas, vai saber. faltavam 18 segundos para o nascer do sol (tinha um relógio que marcava o tempo, no topo da pirâmide de vidro) e um mico roubou a broa da minha mão. ouvi dizer que não tem mais mico nas ilhotas do museu, é verdade?
 
v.salledespasperdus é quando a memória morre e a gente sai sem rumo & rio à procura de um tempo antigo pra segurar. é quando a marca do sapato fica no chão de terra (é ainda de terra o chão do parque, não é?) mesmo depois da chuva da tarde. é quando a gente procura um cheiro que faz lembrar; é quando a gente procura um cardume de pássaros, uma gaveta, um sabonete: um museu de memória; uma sala vazia, som de passos.escuta?
 
Danilo Lovisi –  Nasceu na última década do século XX: ainda não morreu. Poeta, graduando em Letras pela UFJF e coeditor da Um Conto, terá seu primeiro livro de poemas, "(quando silêncio)", publicado em 2014, como prêmio do concurso "Só para poetas" (Edith/Patuá – São Paulo). Atualmente mora na França e escreve esporadicamente no www.chaleiramuda.wordpress.com