Projeto gratuito leva segurança digital a comunidades de terreiro em Juiz de Fora
Iniciativa gratuita une saberes ancestrais e proteção no ambiente virtual para fortalecer comunidades de matriz afro-brasileira diante do avanço da intolerância religiosa e da violência digital
Os ensinamentos ancestrais dos orixás aliados à segurança digital das comunidades de terreiro são o tema do novo projeto gratuito promovido pelo Instituto Feijão de Ogum, em Juiz de Fora. A iniciativa será realizada de forma presencial nas próximas terças-feiras, dias 21 e 28 de julho, às 19h, no Centro de Preservação da Memória Negra de Juiz de Fora e Região, localizado na Avenida Barão do Rio Branco, 2234, no Centro. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas por meio do formulário on-line.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) as religiões de matrizes africanas são as principais vítimas da intolerância religiosa que tem crescido no país. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) revelam, ainda, que Minas Gerais figura entre os três estados com mais denúncias sobre esse tipo de violência feitas pelo Disque 100, ficando atrás somente de São Paulo e Rio de Janeiro.
Para Ana Luísa Schuchter, doutoranda premiada pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação com a pesquisa “Um olhar opositor sobre os memes macumbeiros: velhas e novas práticas de racismo religioso contra as comunidades tradicionais de terreiro na cultura digital”, fruto da dissertação de mestrado orientada por João Paulo Carrera Malerba, falar de cuidados digitais para as comunidades de terreiro vem sendo urgente mediante a disseminação de discursos de ódio na internet, que ampliam violências históricas para as populações negras. Assim surgiu a iniciativa que busca o enfrentamento ao racismo religioso ao passo que promove estratégias de mobilização nas redes e proteção de dados.
“Um exemplo prático disso é o próprio resgate do segredo, que na nossa cultura sempre foi uma tecnologia ancestral de preservação. Nas redes, isso se traduz em entender os limites do que é sagrado e não deve ser exposto, mas também em adotar defesas técnicas rigorosas no dia a dia das casas.” explica Ana, que ressalta a importância dos terreiros também estarem atentos a proteção de dos sensíveis e uso de navegadores seguros.
Quando o assunto é inteligência artificial, o uso criativo da tecnologia deve ser acompanhado de uma postura crítica para evitar a reprodução de vieses racistas e discriminatórios. “Para nós, o cuidado digital une a nossa tradição com a proteção técnica. O terreiro sempre criou tecnologias de sobrevivência, e agora precisamos cuidar da nossa presença digital”, destaca a pesquisadora. Nesse contexto, a roda de conversa vai apresentar o conceito de colonialismo digital, que aborda a forma como grandes plataformas lucram, comercializam e exploram saberes negros e ancestrais, ao mesmo tempo em que deixam as comunidades de terreiro mais suscetíveis a ataques e outras formas de violência no ambiente virtual.
Segundo a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), mais da metade dos terreiros já sofreu ataques online. Para dar conta da urgência e sensibilidade do tema, a roda de conversa da próxima terça-feira (21), vai tratar das Estratégias de mobilização e conta com a presença de Tais Oliveira, mulher de terreiro, pesquisadora e diretora do Instituto Sumauma; Kerley Winques jornalista e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora e Camilo Azarias, pai de santo da casa de Dya e diretor do Instituto Feijão de Ogum.
No dia 28, que será voltado à Memória, tradição e cuidados digitais , quem tomará a palavra será Mutala Ambizu (Naiara Silva), que é psicologa, escrito e pesquisadora, o artista visual e diretor de fotografia Thiago Britto e a também jornalista e mulher de terreiro Ana Schuchter. Ao final da programação, será lançada uma cartilha digital com orientações sobre cuidados digitais para as populações de santo. O material será disponibilizado gratuitamente ao público.









