Conflito no trânsito: média de acidentes com motos em Juiz de Fora supera 100 por mês

Crescimento da frota, interdições e cobrança por entregas rápidas estão entre fatores apontados para o aumento da violência contra motociclistas


Por Miguel Baesso*

20/05/2026 às 06h00

Ao menos 11 motociclistas morreram em acidentes de trânsito em Juiz de Fora, entre abril de 2025 e abril de 2026. Os dados são do Samu-Cisdeste. Além das vítimas, o Samu ainda atendeu 1.363 ocorrências envolvendo motociclistas nesse mesmo recorte, o que representa, em média, 113 acidentes por mês e quase 4 por dia. 

Embora o levantamento ainda não inclua os dados de maio, o mês já teve ao menos duas mortes de motociclistas com repercussão em Juiz de Fora, noticiadas pela Tribuna. A mais recente, um motociclista de 25 anos, que morreu ao cair do viaduto Roza Cabinda, no último sábado (16). Mateus Emanuel Matias caiu de uma altura de cerca de 8 metros. Esta foi a terceira morte no mesmo local desde a inauguração do viaduto, em junho de 2024.

Outro caso envolveu Maria Eduarda Almeida, de 21 anos, que morreu após sofrer um acidente no Dia das Mães, em 10 de maio, enquanto transportava a mãe na garupa da moto. O veículo conduzido pela jovem foi atingido na traseira por outra motocicleta, que seguia em alta velocidade na descida do Viaduto BD, na Avenida JK, no Bairro Francisco Bernardino, na Zona Norte do município.

Primeiros meses de 2026 apresentam alta de casos

Os quatro primeiros meses de 2026 também registraram alta no número de acidentes com motos em relação ao mesmo período de 2025. Neste ano, foram 380 ocorrências e quatro mortes, contra 281 acidentes e três óbitos no ano passado.

Conflitos no trânsito repercutem semanalmente e, muitas vezes, a responsabilidade recai sobre as motos. Essa escalada de tensão entre motociclistas e motoristas, segundo especialistas, acontece em função da falta de infraestrutura na mobilidade urbana, ausência de formação para entregadores e longas rotinas de trabalho. Mesmo sendo vítimas de acidentes graves, motociclistas, no geral, são vistos como algozes nas ruas.  

“É um desafio grande o atendimento de acidentes que envolvem motociclistas. Diferente do ocupante de um automóvel, o motociclista está mais exposto, sem uma estrutura de proteção ao redor do corpo, o que aumenta a gravidade das lesões”, relata o diretor técnico do Samu-Cisdeste, Homero Calderaro. Trabalhando diariamente com o trânsito, Calderaro acredita, sim, que alguns dos motivos que levam a um acidente de moto são fatores como excesso de velocidade, desatenção, imprudência e desrespeito às normas de trânsito, mas pondera: “Também observamos situações envolvendo fadiga ou itinerários prolongados”.

uploads Leonardo 07.01.26 11.29.26 Atropelamento moto na AV Rio Branco Foto Leonardo Costa 05
O artigo 29 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece que veículos maiores são sempre responsáveis pela segurança daqueles de menor porte (Foto: Leonardo Costa)

Número de motos em Juiz de Fora teve aumento de 20%

O número de veículos circulando também colabora com o aumento da violência no trânsito da cidade. Registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam aumento de 20% no número de motocicletas na cidade, nos últimos cinco anos, quando foram contabilizadas 46.173 nas ruas em 2025. O dado é significativamente superior ao crescimento da frota de carros, que aumentou em pouco mais de 3% no mesmo período. No ano passado, o município possuía 192.720 automóveis rodando, conforme o IBGE. O cenário indica uma maior procura da população pelos veículos de duas rodas. 

Chuvas evidenciam problemas históricos na infraestrutura do trânsito 

À Tribuna, o especialista em mobilidade urbana Mário Jacometti não enxerga uma perspectiva positiva a curto e médio prazo: “A cidade está em conflito e eu não acredito em um cenário de melhora para, no mínimo, os próximos dois anos. As obras que precisam ser feitas depois das chuvas de fevereiro são caras, exigem competência e ainda vão demorar muito. Diante disso, o povo se digladia na rua. Moto contra carro, carro contra carro, moto contra caminhão”. 

Após as fortes chuvas que atingiram a cidade no final de fevereiro, diversas ruas foram interditadas totalmente. É o caso da Estrada Engenheiro Gentil Forn, que ainda não possui uma previsão para o início das obras de recuperação da estrutura da via. A rota era uma importante alternativa para garantir fluxo ao tráfego de veículos que subiam ou desciam da Cidade Alta para o Centro. Os problemas provocados pela chuva só evidenciaram dificuldades históricas do trânsito de Juiz de Fora, argumenta Jacometti. Com mais pessoas em engarrafamentos e menos fluxo, o comportamento violento e explosivo dentro e fora dos veículos também ficou em evidência.

Os dados do Samu comprovam crescimento no número de acidentes após as chuvas de fevereiro. Nos primeiros meses de 2026, o serviço atendeu 175 acidentes, já em março e abril o número sobe para 205 ocorrências – aumento de cerca de 18%. Com isso, soma-se à tensão gerada pela falta de infraestrutura no trânsito do município a escalada na violência entre motoristas e motociclistas. 

“Motoqueiros são analfabetos, bandidos e marginais”, comentou um leitor em uma publicação da Tribuna sobre um acidente entre uma moto e um carro, no Bairro Cascatinha, em março de 2026. Discursos de ódio contra motociclistas são normalizados nas redes sociais: “Pior é que esse aí vai ocupar vaga no HPS e gerar despesas”, retrucou outro leitor na mesma postagem. As falas agressivas se repetem em diversas publicações da Tribuna sobre o trânsito de Juiz de Fora. 

Conforme Jacometti, nada justifica a direção imprudente tanto de motociclistas quanto de motoristas no trânsito de Juiz de Fora, uma vez que esses comportamentos impactam diretamente na vida de terceiros. Ainda assim, a Tribuna buscou entender como certos obstáculos que compõem o ecossistema do trânsito influenciam para que haja uma escalada na violência nas ruas e, principalmente, contra as motos.

Entregadores enfrentam cobrança pelo tempo e falta de formação adequada

Longos itinerários de trabalho, estresse físico e exigências discrepantes de tempo fazem parte da rotina dos motociclistas, e são fatores que influenciam na direção. Essas condições, no entanto, não são exclusivas da categoria e não devem ser usadas para justificar comportamentos de risco no trânsito, seja por motociclistas, motoristas ou outros condutores. É neste ponto que está a diferença de quem usa o trânsito como transporte e de quem usa como fonte de renda, explica o secretário da Associação dos Motoboys, Motogirls e Entregadores de Juiz de Fora (Ammejuf), Nicolas Souza. Conforme o motociclista, existe um problema no processo de formação dos motoboys e motogirls no país: mesmo sendo uma profissão regulamentada desde 2009, direitos e deveres são, na prática, desrespeitados em todo o Brasil.

uploads Leonardo 05.03.24 01.17.20 LEONARDO COSTA APLICATIVOS DE DELIVERY 3
Motociclistas alegam que aplicativos de delivery estimulam correria nas ruas (Foto: Leonardo Costa)

Nicolas argumenta que atualmente qualquer um com a CNH A vira entregador em pouco tempo. É o exemplo de Alexandre Miszkovski, de 23 anos. Sem alternativas de remuneração, o jovem se viu na necessidade de, em 2022, começar nas entregas. Ele acreditava que essa seria uma forma rápida de garantir renda: “Não tem uma restrição para trabalhar em alguns aplicativos de delivery. Você baixa o app, cria conta e espera a aprovação para começar a rodar. Assim que aprovou, só saí à noite e comecei a fazer as entregas”, conta. 

Para Nicolas, essa facilidade evidencia que os grandes aplicativos de delivery não estão, de fato, preocupados com quem está realizando entregas pela plataforma: “O primeiro ponto é: por que as empresas de delivery não capacitam entregadores? O segundo: essas empresas não só não formam, como também criam mecanismos para que a gente trabalhe de forma insegura”. Ainda segundo o secretário da Associação dos Motoboys, esses aplicativos de delivery estabelecem curtos prazos de tempo para que os entregadores se desloquem de onde estão até o estabelecimento comercial – prática que é considerada ilegal desde 2011, no Brasil. 

Sem uma formação específica para trabalhar com plataformas de delivery, Alexandre ainda revela que enfrentou dificuldades para “fazer dinheiro de verdade” com as entregas. Ele explica que para conseguir corridas é necessário ter uma espécie de pontuação alta calculada pelo próprio aplicativo. Essa pontuação depende do volume de entregas, avaliações e pontualidade, o que também estimula a velocidade dos motociclistas no trânsito. 

Jacometti também entende que a precarização de trabalhos que envolvem motos contribui para imprudências de motociclistas: “O número de motoboys é crescente, e normalmente o perfil é de quem não tem qualificação profissional. O subemprego é uma situação real, então, os motociclistas vão tentar sobreviver. Com muitas demandas e a exigência de fluxo de entregas, começa a correria.”

Alexandre também reforça: “Falta fiscalização em cima dos dois lados. Não vi hora nenhuma na cidade uma blitz para carros ou caminhões. Ninguém toma multa dirigindo no celular e essa é uma das coisas que mais acontece”. 

Preconceito dificulta convivência segura no trânsito 

“Somos vistos apenas como parte da paisagem urbana ou mesmo como estorvo: ‘gente louca, kamikaze’. Ninguém sai de casa pensando em morrer”, argumenta Nicolas Souza. Ele afirma que o serviço prestado pela categoria é essencial, mas só é respeitado em casos como nas chuvas do fim de fevereiro ou como durante a pandemia da Covid-19, quando os entregadores atuaram levando água, alimentos e outros suprimentos básicos para auxiliar a população. Mesmo assim, para o secretário da Ammejuf, os entregadores continuam sendo frequentemente desumanizados: “Quando a comoção passa, a gente é novamente marginalizado”.

De acordo com dados apresentados na Conferência Nacional de Saúde de 2025, os motociclistas ocupam cerca de 70% dos leitos do SUS. “Então, nós somos todos doidos? É sério que a gente vai nesse caminho? As pessoas deveriam colocar o alvo no lugar certo”, rebate Nicolas. O motociclista também alega que as condições de trabalho são agravantes para que a tensão entre motos e carros aumente: “A carga diária de um entregador é de 12 horas. São jornadas que se estendem demais e, a longo prazo, isso afeta de forma irreversível. São muitas horas carregando peso, a pilotagem da moto exige muito do corpo, tem o estresse acumulado do trânsito e ainda em um ambiente insalubre, cheirando fumaça dos veículos o dia inteiro. Somando isso, certamente o risco de acidente aumenta”.

Nicolas defende que responsabilizar as motos pelos problemas é o “mais fácil”, mas, trabalhando no trânsito em toda sua vida, ele acredita que a ineficiência da mobilidade urbana tem mais culpa do que a imprudência de certos condutores. “O número de entregadores dobrou, mas a estrutura do trânsito não mudou em nada.”

uploads FELIPE COURI 09.07.25 05.48.43 MOTOS EMPLACAMENTO FELIPE COURI 1 1
Especialistas recomendam que população evite deslocamentos desnecessários no trânsito em horários de pico (Foto: Felipe Couri)

Prefeitura reconhece limitações na estrutura viária de Juiz de Fora

Com a repercussão dos problemas no trânsito de Juiz de Fora, a reportagem ouviu especialistas em mobilidade urbana para compreender o que poderia ser feito para garantir mais segurança aos motociclistas e motoristas nas ruas. 

Entre os principais mecanismos apontados para qualificar a infraestrutura urbana do tráfego, foram citados o aumento no tempo de sinais em pontos estratégicos, a melhoria da sinalização horizontal e vertical, mais agentes de trânsito nas ruas controlando o fluxo de veículos, maior número de vagas para motos na área central, disponibilização de uma “faixa azul” exclusiva para o uso dos motociclistas e melhoria no fluxo do transporte coletivo de Juiz de Fora. 

A Tribuna questionou a Secretaria de Mobilidade Urbana (SMU) para entender se, de fato, a infraestrutura do município não é adequada para a realidade do trânsito, que confirmou: “O cenário atual do trânsito reflete o crescimento da cidade e da frota de veículos sem a expansão proporcional da estrutura viária, que enfrenta limitações físicas e urbanísticas, especialmente em áreas consolidadas, como a Avenida Barão do Rio Branco, onde não há possibilidade de ampliação”, explica. 

Conforme a SMU, com o crescimento constante do trânsito também é necessário responsabilizar condutores, que, ainda segundo a pasta, têm obrigação de construir uma cultura de paz no trânsito. “O fator humano é elemento essencial no trânsito”. Com isso em mente, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) afirma que mantém investimentos permanentes em ações de educação para o trânsito.

Em relação às interdições em decorrência das chuvas do final de fevereiro, a SMU explica que as mudanças no trânsito têm levado em consideração, primeiramente, a segurança da população, obedecendo às recomendações da Defesa Civil sobre a passagem em trechos com instabilidade estrutural. “Em situações de risco, a prioridade é sempre a segurança da população”, argumenta.

Já em relação a outras medidas apontadas pelos especialistas, como a diminuição no tempo do sinal, a Prefeitura destacou que esse tipo de ajuste operacional impacta diretamente no tempo de travessia dos pedestres. Por esse motivo, o Poder Público tenta considerar todos os modais e usuários das vias, “buscando sempre equilíbrio, funcionalidade e segurança”, completa. Além disso, a gestão também garante que há agentes de trânsito nas vias de toda a cidade, seja presencialmente ou através do sistema de monitoramento da PJF, contribuindo com a fluidez viária.

*Estagiário sob supervisão da editora Mariana Floriano

Tópicos: trânsito