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Juiz de Fora tem o maior número de mortes em pelo menos dez anos

Dados do IBGE mostram que em 2020, primeiro ano de pandemia, quantidade de óbitos cresceu 8,3% em comparação a 2019


Por Carolina Leonel, repórter, e Gabriel Silva, sob supervisão do editor Eduardo Valente

19/11/2021 às 07h53

O ano de 2020 teve o maior número de mortes entre moradores de Juiz de Fora desde 2011. No total, 4.824 pessoas faleceram nos 12 meses do ano passado, resultando em um aumento de 372 óbitos em relação a 2019, quando 4.452 residentes do município morreram. Os dados, que fazem parte das estatísticas do Registro Civil, foram levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgados nesta quinta-feira (18). Os registros também apresentaram alta a nível nacional e estadual, crescimento que pode ter sido impactado pelas mortes causadas pela pandemia de Covid-19, que teve início em 2020.

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Estatísticas também apontam que menos pessoas nasceram em 2020 na cidade, em comparação ao ano anterior: queda foi de 6,7% (Foto: Fernando Priamo)

Os números divulgados pelo IBGE nesta quinta mostram aumento de 8,3% no número de mortes entre 2020 e 2019. Além disso, o total de óbitos é o maior na última década. Em 2018, 4.181 pessoas morreram no município; em 2017, foram 4.273 falecimentos; em 2016, foram 4.426 óbitos; em 2015, 4.169; em 2014, 4.036; em 2013, 4,067; em 2012, 4.009; e, por fim, em 2011, foram registrados 4.047 falecimentos.
A Tribuna analisou, também, a ocorrência do número de óbitos por Covid-19 durante o ano de 2020. No total, foram 538 mortes por complicações relacionadas à doença em Juiz de Fora, quantidade maior que a diferença entre os totais de 2020 e 2019, que é de 372 falecimentos. O dado aponta que, caso não houvesse pandemia, o número de óbitos em 2020 teria sido menor que em 2019.

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Além disso, o IBGE registrou que do total de 4.824 mortos no município em 2020, 3.634 tinham 60 anos ou mais, ou seja, mais de 75%. Em 2019, o número absoluto foi menor, com 3.286 óbitos dentro dessa faixa etária. Entretanto, a proporção foi semelhante: 73% dos falecimentos eram relacionados a idosos. Em números absolutos, foram 348 mortes a mais entre as pessoas com 60 ou mais anos entre os dois anos.

Aumento foi de quase 15% no país

As altas nos números de óbitos foram ainda maiores considerando-se os dados de Minas Gerais e do país. A nível estadual, foram registrados 151.785 óbitos de pessoas com residência em Minas em 2020, frente a 140.625 no ano anterior. A taxa de crescimento foi ligeiramente superior à vista em Juiz de Fora, com 7,9% de alta.

Quanto aos números nacionais, o Brasil teve 196 mil mortes a mais em 2020 em relação ao ano anterior. O número saiu de 1.314.103 falecimentos em 2019 para 1.510.068 no ano passado, o que representa uma variação de 14,9%, a maior desde 1994, conforme os registros civis em cartórios. A critério de comparação, entre 2018 e 2019, o aumento no registro de óbitos foi de 2,6%, com 33 mil mortes a mais entre um ano e outro.

Outro dado importante é que 99% do crescimento no total de óbitos ocorreu por mortes por causas naturais, classificação que inclui os falecimentos por doenças, como a Covid-19. As informações divulgadas pelo IBGE são resultado de dados coletados em mais de 7.900 cartórios de Registro Civil de Pessoas Naturais (RCPN).

Menos nascimentos e casamentos

Se o número de óbitos subiu 7,7% em Juiz de Fora entre 2019 e 2020, o número de nascimentos registrou queda em proporção parecida. Segundo os dados do IBGE, 5.991 nascimentos ocorreram na cidade no ano passado, frente a 6.395 ao longo do ano anterior. A diferença, em números absolutos, é de 404 nascimentos a menos, ou 6,7% de variação entre os dois anos.

A queda no número de nascimentos foi maior, em proporção, do que a observada em âmbito nacional. Em 2020, foram 2.678.992 registros de nascimentos, número 4,7% menor do que o registrado em 2019. Entre 2018 e 2019, os dados de nascimentos já haviam recuado em 3%, mantendo a sequência de quedas. Os dados de Minas Gerais apontam para queda de 3,6% no último ano, com 257.775 nascimentos no estado.

Já em relação aos casamentos, o levantamento do IBGE não aponta dados referentes a Juiz de Fora. Por outro lado, os números nacionais indicam queda severa no número de matrimônios oficializados em 2020: foram 757.179 durante os 12 meses, número 26,1% menor que o total de casamentos civis registrados em 2019. Já em Minas foram 77.862 casamentos no último ano, queda também de 26%.

Impacto da pandemia pode ser ainda maior, diz especialista

Para o professor do Departamento de Estatística do Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Marcel Vieira, comparar o total de mortes de 2020 (4.824) com a média de óbitos dos três anos anteriores (4.302) já evidencia o impacto que a pandemia pode ter causado no total do último ano. O pesquisador pondera também que, talvez, o impacto da Covid-19 na mortalidade da população seja ainda maior por conta da subnotificação. “O que temos são dados oficiais de óbitos por Covid-19. Mas o que a gente imagina é que, não só em Juiz de Fora, mas no Brasil, haja subnotificação de mortes”, analisa.

O pesquisador acredita que a pandemia também causou falecimentos de forma indireta, como, por exemplo, de pessoas que não conseguiram tratamento ou atendimentos adequados para outras enfermidades devido à superlotação das unidades de saúde por pessoas infectadas pelo coronavírus. Para se ter real noção do impacto da pandemia nas mortes ocorridas em 2020 na cidade, Marcel pontua que seria necessária maior análise dos dados, considerando diferentes aspectos. Entretanto, por meio dos dados oficiais, o professor analisa que um total de mortes acima da média dos últimos anos, aliado ao fato de o quantitativo de óbitos do ano passado ser o maior da última década, “já dá uma noção do tamanho do impacto”.

Marcel Vieira também é coordenador do projeto JF Salvando todos, plataforma desenvolvida na UFJF e que mostra o avanço da Covid-19 na cidade e região. Ele acredita que o número de pessoas que morreram na cidade este ano já seja maior do que o total registrado em 2020. “É bem possível que o número de pessoas que morreram em 2021 seja maior que o de 2020, acredito até que já tenha passado. Em relação a óbitos pela Covid-19, ano passado a pandemia começou em março, esse ano ela está indo ao longo do ano todo. E os piores meses da pandemia foram esse ano, então, só pela doença, o número já é maior”, observa. Levantamento feito pela Tribuna com base nos dados da PJF mostra que, somente em 2021, mais de 1.500 moradores da cidade faleceram vítimas da Covid-19. Para Marcel, no ano que vem, quando forem divulgados os dados referente a 2021, teremos uma “noção mais clara do tamanho do problema que tivemos em 2021 em termos de óbitos.”

Índice de transmissão do vírus em JF é moderado

Atualmente, o índice de transmissão do coronavírus em Juiz de Fora está moderado, conforme aponta o pesquisador Marcel Vieira, tendo por base dois indicadores analisados por seu grupo de pesquisa. Um deles é o proposto pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), que classifica a taxa em função do número de casos por cem mil habitantes.

“Juiz de Fora já teve uma classificação de nível de circulação do vírus elevadíssimo durante muito tempo, a maior parte deste ano. Há cerca de dois meses, caímos para elevado, e há três semanas passamos a ser classificados como nível de circulação moderado – uma taxa entre 10 e 50 casos por cem mil habitantes por semana. O ideal é que passasse para o nível de circulação baixo, quando acusa menos de dez casos por cem mil por semana. Mas a gente vem percebendo essa evolução favorável, precisamos continuar acompanhando para ver se vai continuar melhorando”, diz.

Outro indicador analisado é o RT, que indica a taxa de transmissão da doença estimada para a cidade. Essa taxa, conforme Marcel, tem um nível maior de flutuação, porque analisa o número de casos nos últimos sete dias. “Atualmente o índice está abaixo de 1, mas, normalmente, não conseguimos manter esse índice por muito tempo. Estamos classificados como ‘moderado’, então, certamente, há uma evolução favorável. Por outro lado, ainda continua morrendo um alto número de pessoas (por Covid-19). Precisamos ficar atentos ao número de mortes.”