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Ladrões ignoram câmeras e agem em ônibus urbanos


Por MARCOS ARAÚJO

19/08/2014 às 06h00

Duas mil trezentas e cinquenta seis câmeras de segurança foram instaladas nos ônibus do transporte coletivo urbano de Juiz de Fora. Cem por cento da frota, composta atualmente por 589 veículos, está equipada com quatro dispositivos, sendo que três focalizam as imagens internas e uma, as externas. O investimento para aumentar a segurança girou em torno de R$ 2 milhões, conforme a Astransp. Entretanto, não tem sido suficiente para conter a audácia de assaltantes que, cada vez mais, ignoram a vigilância eletrônica, roubam e colocam em risco a vida de motoristas, cobradores e passageiros. Para se ter uma ideia da frequência dos roubos, basta comparar os números disponibilizados pela 4ª Região de Polícia Militar. De janeiro a julho deste ano, foram registrados 40 assaltos a coletivo urbano no município. O número já é superior ao registrado durante todo o ano de 2013, quando, de janeiro a dezembro, foram 32 registros de roubo à mão armada a ônibus. Profissionais do setor assustam-se com a constância dos casos. Há trabalhadores que já foram vítimas mais de uma vez. Isso reflete no afastamento do emprego por medo e na vida familiar. Neste cenário, usuários também não ficam imunes, já que muitos também estiveram na mira de ladrões e, além disso, estão expostos a brigas dentro dos coletivos.

O descaso pela presença das câmaras ficou evidente em 23 de julho, ocasião em que um homem, de 35 anos, foi assassinado, em um ônibus da linha 411 – Vitorino Braga. O veículo estava estacionado no ponto final da Rua Clorindo Burnier, no Vitorino, Zona Sudeste, quando um adolescente, 16, acompanhado de outro homem, entrou no coletivo e disparou contra a vítima, que morreu no local. O circuito de câmera do ônibus flagrou a ação criminosa, e as imagens colaboraram para identificação e prisão do suspeito. De acordo com o presidente da Astransp, Fernando Goretti, a violência tem crescido apesar da vigilância e da bilhetagem eletrônica, que retirou 80% do dinheiro em circulação nos carros. Assusta, pois, nestes seis primeiros meses, os assaltos já ultrapassaram o total de 2013, ressalta Goretti. Segundo ele, chamam atenção, os casos nos quais são roubadas quantias ínfimas. Houve crime em que levaram R$ 4. O indivíduo se arrisca por pouco, para roubar R$ 20, R$ 30 ou R$ 40, o que me faz crer que esses assaltos sejam cometidos para a manutenção do vício nas drogas. Eles entram nos veículos com audácia e de cara limpa. Sabemos das limitações da Polícia Militar, que é nossa parceira, mas continuamos pedindo para que possa dar uma resposta mais rápida nesses casos. A Astransp tem orientado cobradores a não deixarem grande volume de dinheiro no caixa e jamais reagir.

Subnotificação

Para o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário (Sinttro), o que vem ocorrendo é grave, uma vez que o órgão considera que, na realidade, o número de casos de roubos é maior do que o apresentado pela PM, pois muitos motoristas e cobradores não registram o assalto por medo, já que, no dia seguinte, têm que voltar a trabalhar na mesma linha. De acordo com o primeiro secretário do Sinttro, Armando de Souza Castro, a insegurança tem feito muitos trabalhadores abandonarem empregos. Hoje existe uma dificuldade para contratar cobrador devido à falta de segurança, afirma Castro, acrescentando que a maioria dos roubos tem sido registrada na Zona Norte.

Sobre as câmeras, Castro considera que esses equipamentos não têm servido para a prevenção. Servem para controlar os profissionais e há relato das dificuldades para conseguir essas imagens para que sejam tomadas medidas junto à polícia, assevera Castro, acrescentando que já foi protocolado pedido de reunião entre o sindicato e o comando do 27º Batalhão de Polícia Militar, para que sejam traçadas metas de prevenção. Também vamos encaminhar pedido à Settra, já que muitos pontos finais de linha estão em locais ermos e mal iluminados. Nossa solicitação é para que esses pontos sejam alterados para trechos mais movimentados e seguros.

Motorista assaltado quatro vezes só este ano

Um motorista de 45 anos viveu momentos de tensão, em julho passado, quando o ônibus que conduzia foi assaltado no Bairro Jardim Natal, na Zona Norte, em plena manhã de domingo. Era cerca de 8h30, quando o coletivo da linha 616 foi invadido por um adolescente de 16 anos, armado com uma faca, na Rua Antônio Carlos Silva. O veículo estava no ponto final, quando o infrator entrou e anunciou o assalto. Ele tentou roubar o cobrador, ameaçando-o com uma faca no pescoço. Entretanto foi imobilizado por um passageiro. O jovem ficou detido até a chegada da PM, que o apreendeu. Para o condutor, que trabalha há 30 anos na profissão, a situação tem se agravado. Segundo ele, os assaltantes não temem a presença das câmeras, porque têm a certeza da impunidade.

Eles fazem o que querem, e a gente fica exposto a essa violência. É uma sensação horrível, pois o cobrador que estava comigo teve a faca colocada no seu pescoço, afirmou o condutor, contando que, só este ano, já foi assaltado, pelo menos, quatros vezes. Cerca de 20 dias antes do assalto no Jardim Natal, um homem entrou no coletivo que ele conduzia, em um ponto da Rua Bernardo Mascarenhas, no Fábrica, nas proximidades do terminal rodoviário, armado com um facão. Ele veio até a mim e mandou parar o ônibus. Em seguida, foi até ao cobrador e o ameaçou com o facão. Roubou o que queria e depois desembarcou no ponto seguinte, já no Bairro Cerâmica. A gente que trabalha nessas linhas não tem a quem recorrer. As autoridades precisam fazer alguma coisa. Minha família, todas às vezes que saio para trabalhar, teme pela minha segurança, contou o motorista, que é casado e pai de quatro filhos.

Passageiros também se sentem acuados

Usuários ouvidos pela Tribuna concordam que as câmeras não têm cumprido o objetivo de garantir mais segurança. A balconista Gislaine da Silva, 21 anos, contou que, no último dia 13, estava no coletivo da linha 540 (Nova Germânia), quando teve início um tumulto dentro do veículo. Seis jovens começaram a pular nos bancos e a ameaçar os universitários, gritando fora universitários, porque o ônibus estava lotado. Todos nós ficamos com medo de uma briga. Uma vez, durante um tumulto assim, o rapaz levantou a camisa e mostrou ao motorista que tinha uma arma na cintura. Essas câmeras não têm servido como prevenção. Já a usuária de ônibus Edilaine de Oliveira, 22, relatou que sua irmã presenciou o momento em que um homem sacou o revólver dentro de um dos ônibus que faz linha na Zona Norte. Foi no período do carnaval. Ele se levantou e sacou o revólver e começou a disparar para fora do veículo pela janela, afirmou Edilaine, que é moradora do Bairro Solidariedade. Ela ainda acrescentou: Tenho conhecidos que já foram assaltados no coletivo. Toda essa violência deixa a gente com medo.

Para a auxiliar administrativa Bárbara Paredes, 17, as câmeras de segurança não passam de enfeites. Os bandidos não estão ligando se estão sendo filmados. Esses equipamentos estão servindo mais é para controlar a conduta do motorista e do cobrador, opina a jovem, lembrando que já presenciou tumulto no coletivo. O ônibus estava lotado, e entrou um grupo de jovens. Alguns pularam a roleta, e o cobrador tentou questionar. Eles partiram para cima dele e falaram diversos palavrões. Nós, usuários, ficamos em pânico.

‘Parada obrigatória’

Como forma de coibir os crimes contra os coletivos da cidade, a Polícia Militar dispõe da operação Parada obrigatória, na qual são estabelecidos pontos em que é determinado que o coletivo interrompa o seu deslocamento, para que policiais entrem e observem os passageiros. Em caso de suspeita, é procedida a identificação do usuário e são tomadas as medidas cabíveis. Conforme a PM, a frequência da realização da operação se dá em conformidade com o planejamento de cada Batalhão de Polícia Militar.

A 4ª Região de Polícia Militar destaca que o patrulhamento realizado no município diariamente tem foco na prevenção de diversos delitos, estando incluído o combate à prática de assalto a coletivo urbano. Em relação ao sistema de monitoramento eletrônico nos coletivos, a corporação considera que as câmeras são um fator inibidor da prática de crime e que, num segundo momento, após a ação delituosa, tais equipamentos auxiliam na identificação dos autores.