Onda de crimes assusta no Distrito Industrial

Com cerca de 80 empreendimentos instalados, o Distrito Industrial, na Zona Norte, é alvo de frequentes ações criminosas. A proximidade com a BR-040, que acaba servindo de rota de fuga para bandidos, torna a área vulnerável e exposta a atos de violência. São assaltos a transeuntes e a ocupantes de veículos, disparos de arma de fogo e até tentativas de homicídios, com um jovem baleado no abdômen e no braço nos últimos meses. As empresas sediadas na área também enfrentam uma onda de roubos, arrombamentos e furtos. Em uma única semana, três indústrias foram invadidas. No início deste ano, dois caixas eletrônicos, no pátio de uma empresa, foram danificados por ladrões, que levaram o dinheiro dos equipamentos. Na madrugada do último domingo, um veículo suspeito foi visto nas imediações da filial de uma empresa farmacêutica, sediada no Distrito Industrial. Neste mesmo dia, a matriz dela, no Bairro Granjas Bethânia, foi alvo de uma ação criminosa, na qual seis bandidos, armados com revólveres e escopeta, renderam oito funcionários, que ficaram presos por cerca de duas horas em um cômodo. Para empresários e empregados, a área está negligenciada, apesar de sua importância para a economia local e para a geração de empregos e arrecadação de impostos. A situação, segundo eles, agrava-se pela falta de patrulhamento preventivo, de iluminação pública satisfatória e de terrenos abandonados, que servem de esconderijos e para a desova de carros roubados. No último dia 25, um veículo Pampa, que havia sido furtado na manhã do mesmo dia, foi localizado às margens da BR-040, na altura do Distrito Industrial. A Associação de Empresas do Distrito Industrial (DI) de Juiz de Fora se mobiliza para enfrentar o problema e cobra ações dos órgãos públicos para minorar a sensação de insegurança no local.
Assustado com a vulnerabilidade da região, o diretor de uma das empresas arrombadas, de 46 anos, afirma que a situação está insustentável. "Fomos invadidos, durante o fim de semana, e, pelas câmeras de segurança, tivemos como observar toda a ação do criminoso, que ficou cerca de uma hora no local. Quando ele percebeu que havia mais pessoas na empresa, fugiu, pulando um muro. Ele chegou a movimentar algumas ferramentas e botijões de gás, que queria levar, mas, como se assustou, acabou fugindo sem nada. O ladrão deixou para trás uma sacola, com um alicate que usou para abrir o arame de uma das cercas", contou o diretor, acrescentando: "Este fato nos deixa inseguros, já que estamos desguarnecidos da ação das forças de segurança pública." Uma funcionária contou que, de dentro da sala do escritório da empresa em que trabalha, já ouviu disparos de arma de fogo em via pública. "Tenho medo de caminhar pelas ruas, de ir até o ponto de ônibus, pois nunca se sabe, quando vai haver novos tiros."
Para o presidente da Associação do DI, Tarcísio Delão Júnior, são várias empresas e trabalhadores que estão à mercê da criminalidade. "Estamos expostos a casos de assaltos, furtos e invasões, que são agravados por fatores, como má iluminação pública. Isso nos preocupa, porque o cenário que temos hoje facilita para o criminoso, que pode vir a cometer um latrocínio", indigna-se. Presidente do Centro Industrial de Juiz de Fora (CIJF), Aurélio Marangon Sobrinho, afirma que o DI foi criado para a instalação de empresas, mas que, ao longo do tempo, terrenos ficaram sem ocupação, o que, para ele, contribui para que a área seja visada por bandidos. Ele ainda afirma que o crescimento de bairros ao redor do DI, com grande contingente populacional, dificulta as ações de combate ao crime. Estes motivos, na visão do empresário, tornam-se mais graves em função da falta da presença policial. "O que acontece hoje no Distrito Industrial de Benfica é o mesmo que se observou com o distrito do Milho Branco, que também foi sufocado pela ocupação habitacional."
Área é chamada de ‘território sem lei’
Desde o início de 2012, a Tribuna vem divulgando ocorrências de crimes no Distrito Industrial, que mostram a dimensão do problema enfrentado pelas pessoas que frequentam a área, já chamada de "território sem lei". Em janeiro, um casal foi assaltado na Avenida Antônio Simão Firjan. O homem, 25 anos, e a mulher, 23, trafegavam em um Gol, quando foram abordados por três criminosos que ocupavam um veículo de cor preta, não identificado. O trio anunciou o assalto, apontando as armas, e roubou R$ 100, além de celular, cartões bancários e documentos. No mês seguinte, dois caixas eletrônicos instalados na sede de uma empresa foram alvo de arrombamento. Foi verificado que um dos caixas tinha sido parcialmente danificado, enquanto o outro tinha uma perfuração na abertura para retirada de cédulas. Os arrombadores teriam fugido por uma estrada atrás do estacionamento da indústria. Durante a fuga, a dupla teria deixado cair R$ 600.
No mesmo mês, dois veículos levados por ladrões foram localizados pela PM no distrito. O primeiro, foi roubado da vítima, quando ela chegava em casa, na Avenida JK. Ela foi surpreendida por um homem que exigiu as chaves do automóvel, fugindo em seguida. Cerca de duas horas depois, o carro foi encontrado, abandonado, na Rua Júlio Dionísio Cardoso. O outro foi roubado na Barreira do Triunfo. Uma mulher, 40, conduzia o Celta pela Avenida JK. Quando ela precisou parar, foi surpreendida pelo ladrão, sendo obrigada a desembarcar. O criminoso fugiu no veículo. O Celta foi localizado em um pasto no Distrito Industrial.
Uma das ocorrências mais graves foi registrada em abril, quando um jovem, 20 anos, foi atingido por dois tiros, no abdômen e no braço. A tentativa de homicídio aconteceu na Rua Bruno Simili, por volta das 14h. Ainda em abril, foi apreendida uma espingarda calibre 12, quando a Rotam seguiu para o bairro, a fim de averiguar informações de que ladrões estariam furtando tacógrafos nos estacionamentos de empresas. Durante o rastreamento, dois criminosos conseguiram escapar e deixaram a arma para trás. Na mesma época, um homem que conduzia uma moto Yamaha, com placa de Três Rios (RJ), abandonou o veículo, em um terreno baldio, para fugir dos policiais. No local, foram encontradas 53 pedras de crack e uma porção maior do entorpecente e cinco papelotes de cocaína.
Preocupação com lotes abandonados
Em função da especulação imobiliária, muitos terrenos no Distrito Industrial ainda não foram ocupados à espera de uma venda mais vantajosa para seu proprietário. Mas, enquanto isso não acontece, os lotes permanecem abandonados, mal conservados e sem cercas. Isso colabora para a prática de crimes, como vingança, tráfico de drogas e descarte de automóveis roubados. Ciente destes problemas, o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura, André Zuchi, afirma que serão realizadas operações, com fiscais da Prefeitura, a fim de cadastrar e notificar todos os donos que não cuidam dos terrenos, deixando-os sem cerca e sem calçada e com mato alto. "Este trabalho será realizado junto com a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU), com o objetivo de inibir os delitos. Sabemos que há muitos lotes que não são usados para o seu devido fim, que é gerar produção e empregos. Vamos pressionar as empresas para que deem um uso compatível com a finalidade do DI. Esse tipo de trabalho foi feito em 2010, quando houve um bom resultado, e agora vamos repeti-lo", garante o secretário.
A fim de melhorar a segurança pública na área, André Zuchi disse que a Prefeitura vai solicitar, do comando da 4ª Região de Polícia Militar, a intensificação do policiamento. "Também vamos trabalhar em prol da melhoria da iluminação pública. Como o Distrito Industrial passou muito tempo por um período de descaso, estas questões se tornaram mais evidentes com a vinda de mais empresas. É uma área muito boa, com infraestrutura, para a instalação de novas indústrias, temos que começar a atender as demandas, como aquelas voltadas para as questões de trânsito, transporte, segurança e iluminação. O objetivo será minimizar os problemas, sobretudo na questão de segurança." Para o presidente do Centro Industrial de Juiz de Fora, Aurélio Marangon Sobrinho, é preciso haver incentivos para a ocupação correta da área. "É necessário ter um estudo que aponte como a área vem sendo ocupada, um controle sobre o surgimento de conjuntos habitacionais ao redor da região e um patrulhamento ostensivo, uma vez que, nas empresas, há uma variedade de equipamentos de alto valor."
No último dia 22, a Associação de Empresas do DI de Juiz de Fora realizou uma reunião a fim de traçar metas para combater a criminalidade. Do encontro, participaram o secretário André Zuchi, representantes dos empresários, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e políticos. O comando do 27º Batalhão da PM, apesar de ter sido convidado para a reunião, não enviou representante.
PRF se mobiliza para evitar fugas pela 040
Com objetivo de prevenir escapadas pela BR-040, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) irá estabelecer um canal de contato direto com as empresas sediadas no Distrito Industrial. "Apesar de não ser competência da PRF, temos que ressaltar que a BR-040 está muito próxima do distrito e, por vezes anteriores, a via já foi usada como rota de fuga após o delito nas empresas instaladas na área. Então, vamos manter uma relação direta com os empresários. O importante é que possamos, sempre, ter informações sobre ocorrências de assaltos, para que possamos nos programar, com ações indiretas, que tenham a finalidade de surtir efeito positivo na questão da segurança da região", assinalou o policial rodoviário federal André Luiz Oliveira Marinho.
A Tribuna entrou em contato com a assessoria de comunicação do 27º Batalhão da PM, que é responsável pelo patrulhamento no Distrito Industrial, por meio de telefone e e-mail, nos dias 26 de junho e 02 de julho, além de ter feito outras ligações durante este período, para que a corporação pudesse comentar os fatos, mas, até ontem, nenhuma resposta havia sido enviada. Ainda ontem, a assessoria informou que o responsável pelo setor havia entrado de férias, na última segunda-feira.









