Famílias são devastadas diante da força do crack

Juíza Maria Cecília Gollner recebe semanalmente crianças e adolescentes usuários de droga
A disseminação do crack, droga com efeitos dos mais devastadores, já é uma realidade entre crianças e tem atingido meninos e meninas cada vez mais cedo. Nos últimos anos, a Tribuna tem acompanhado casos extremos, como o de L., dependente químico desde os 9 anos e que, em 2006, aos 12, chegou a ser acorrentado pela mãe, ao pé da cama, numa tentativa desesperada de evitar que o filho saísse para comprar crack. Hoje, a poucos meses de completar a maioridade, o futuro do rapaz não é animador. Após ser apreendido pela polícia várias vezes por tráfico de drogas e passar quase dois anos no Centro Socioeducativo, ele não frequenta a escola, e a família suspeita que tenha voltado a usar entorpecentes, cometer furtos e traficar, chegando a ameaçar os parentes. Essas e outras histórias serão mostradas na série de reportagens que a Tribuna inicia hoje com o objetivo de discutir os motivos da entrada de crianças e adolescentes no mundo das drogas, as consequências na fase adulta, as iniciativas bem-sucedidas de tratamento e as políticas públicas criadas para conter a epidemia de crack no país.
Emblemática, a história de L. é o símbolo de um universo de jovens que, mesmo antes da fase adulta, já tem o futuro condenado por uma série de equívocos sociais. Muitos os veem como sem solução. Isso porque a família já esgotou as ações coercivas, a escola não apresentou atrativos suficientes, a polícia se cansou de detê-los, e o delegado perdeu as contas de quantas vezes já os viu na delegacia. Além disso, os projetos sociais em nada mudaram o perfil desviante desses garotos, e a Justiça, mesmo aplicando medidas socioeducativas, não alcançou a efetividade esperada.
É meu filho, mas não posso conviver com ele. Não sei o que fazer, desabafa a mãe de L., que carrega nas costas e na consciência o peso de ver três dos cinco filhos envolvidos com as drogas. Enquanto ele ficou internado, fez dois cursos, praticou esportes e chegou a estudar. Acho que saiu do Centro Socioeducativo com boas intenções. Mas, aqui fora, onde ele vai se encaixar? Se pelo menos pudesse ser encaminhado para um emprego… Acho que ele merece uma chance de ter um trabalho, ganhar um voto de confiança.
O nome de L,. o mais novo da família, já apareceu e continua surgindo em vários inquéritos policiais presididos pela delegada da Polícia Civil Sheila de Melo Oliveira. Assim como ele, dezenas de jovens estão incluídos em investigações criminais, principalmente pelo envolvimento no uso e até no comércio de drogas, como a Tribuna mostrou em recente reportagem. Muitos não chegam a comercializar grandes quantidades, mas movimentam a máquina do tráfico, atuando como mulas ou aviõezinhos, aqueles que se ocupam do transporte de entorpecentes em troca de algum dinheiro.
Com poucas perspectivas de futuro, muitos jovens carregam para a fase adulta os problemas que o país ainda não conseguiu resolver.
Jovem troca conforto de casa pelas ruas
Se a luta pela recuperação de dependentes químicos já exige coragem, mais bravura ainda é exigida de quem desiste da batalha. Devido ao sofrimento e à sensação de impotência, uma juiz-forana tomou a difícil decisão de abandonar o filho, criado no conforto de uma família bem estruturada e de classe média da cidade, mas que se rendeu às drogas. Não o vejo desde 2010. Não sei se ele está vivo, mas acredito que esteja perambulando pelas ruas. Tenho medo de encontrá-lo. Meu filho me odeia. Tenho uma pontinha de esperança, mas se hoje você me perguntar se aceito uma reaproximação, acho que vou preferir não tentar.
O depoimento forte e emocionado é dessa mãe que garante não ter vergonha de sua história, mas consciente de que, talvez, mais do que o próprio filho, ela tenha sido a grande vítima do crack. O envolvimento do garoto começou aos 17 anos. Hoje, perto de completar 24, os parentes não sabem ao certo se o rapaz vive nas ruas de Juiz de Fora, em abrigos ou em uma das 11 clínicas de reabilitação por onde ele já passou. Não consigo entender o vício do crack e o que leva uma pessoa a sair da casa, que sempre ofereceu de tudo, e preferir viver na rua. Não sei se clínica de reabilitação resolve. Sinceramente, não tenho ideia de qual tipo de tratamento deve ser dado. Se ele não quiser, não tem como fazer nada por ele. Ninguém pode. Acho que não tem solução.
O temperamento rebelde desde a infância não diferenciava o garoto dos outros meninos da mesma faixa etária ou classe social. Ele sempre foi muito inteligente, bonito e simpático. Se fosse preciso, dava a roupa do corpo para outra pessoa, conta a mãe. A suspeita de que havia algo errado começou a perturbar a família. Começamos a perceber que ele estava emagrecendo muito, tinha problemas no colégio e chegou a ser expulso. As coisas começaram a sumir dentro de casa.
A realidade não tardou a vir à tona. Numa entrevista (assistida na televisão) com um especialista em crack, ele falou sobre os sinais de dependência, entre eles, o emagrecimento, a agressividade, o furto de objetos dentro de casa, o desinteresse pelo estudo e as manchas nos dedos. Aproveitei que meu filho estava dormindo, peguei na mão dele e vi que os dedos estavam queimados. Aí tive a certeza de que ele fumava crack.
Em troca das pedras, o jovem chegou a vender a roupa do corpo, comercializar comida congelada roubada da geladeira da casa dos avós, onde morava, e furtar joias da família. A partir daí, os acontecimentos sucederam-se de forma tão dramática que culminaram no abandono do rapaz. Tive que trocar o número do meu celular várias vezes, porque ele já ligou para dizer que tinha sido sequestrado, já chamou a polícia e falou que eu era traficante. Ele já levou duas surras, devido às dívidas, e, depois de uma delas, precisou de cirurgia para a retirada do baço, conta a mãe, emocionada.
Medo dos filhos transformados pela droga
Os dois casos mostrados pela Tribuna nesta primeira reportagem da série revelam as angústias de duas mães diferentes, de classes sociais distintas, mas unidas pelo medo que sentem dos filhos transformados pelo crack. Embora existam inúmeras situações que levam ao primeiro uso de entorpecentes e à dependência, autoridades acreditam que a estrutura familiar comprometida, principalmente nas comunidades mais pobres, e os exemplos vindos da própria casa são os principais motivos para a inserção de crianças e adolescentes nas drogas.
Adolescentes já em situação de dependência química assistidos pela Vara da Infância e da Juventude são encaminhados para avaliação médica, que constata ou não a necessidade de tratamento hospitalar nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Embora não tenha estatísticas da quantidade de atendimentos realizados na cidade, a juíza Maria Cecília Gollner Stephan reconhece a demanda constante. Para se ter uma ideia, a agenda da nossa médica, toda quarta e sexta, é lotada. Com todas as dificuldades e as mudanças políticas que existem no Brasil, essa rede tem funcionado bem. Conseguimos acompanhar os casos até os jovens completarem 19 anos, e a experiência tem sido positiva, avalia a magistrada. No entanto, a juíza ressalta algumas barreiras no combate às drogas. Uma delas é o alcoolismo entre as mães de menores de idade, situação preocupante em Juiz de Fora. A incidência entre as mulheres é muito grande. E o filho, que viu a mãe embriagada a vida inteira, tem uma tendência imensa de cair diante da bebida e de outras drogas.
A titular da 3ª Delegacia Distrital, responsável pela Zona Norte, Sheila de Melo Oliveira, confirma a desestrutura familiar como fator de influência direta. Os casos que chegam aqui são de famílias muito pobres, geralmente com a mãe alcoólatra, o pai preso e também usuário de droga. E isso vai virando uma bola de neve. Esses jovens crescem, montam famílias totalmente desestruturadas, vão gerar filhos delinquentes, e os problemas continuam.
Gangues
A delegada acredita, no entanto, que as gangues de bairros rivais, situação comum em comunidades da Zona Norte, fomentam o caminho desviante e contribuem para que os familiares busquem ajuda no Poder Público. Quando nos procuram, os pais já estão esgotados, com uma expressão de decepção no rosto. Querem, a todo custo, nos passar um problema que eles não conseguiram estruturar; jovens que eles não mais dominam. Não conseguem fazer com que os filhos obedeçam a ordens simples, como ir tomar banho, chegar em casa no horário ou frequentar a escola.
Necessidade de investimento em prevenção
Uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicada essa semana, proíbe o comércio de cigarros com sabor, como o de menta, estratégia da indústria do tabaco para atrair novos fumantes, o que acabava despertando a curiosidade de crianças e adolescentes. A medida é considerada importante por especialistas, já que o caminho que leva ao vício, na maioria dos casos, começa pelo cigarro ou pelo álcool. Em regra geral, o primeiro contato é com as drogas lícitas, e, a partir de certa idade, geralmente, após os 18 anos, vem o contato com as drogas ilícitas ou de uso medicamentoso, constata o psiquiatra Mário Sérgio Ribeiro, responsável pelo Laboratório de Pesquisas em Personalidade, Álcool e Drogas (Lappda) da UFJF.
Por isso, o investimento em prevenção é apontado como a principal saída. Nesse sentido, a Polícia Militar tem desenvolvido projetos, como o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) e o Jovem Construindo a Cidadania (JCC), principalmente em comunidades carentes. Esses programas sociais trabalham com o triângulo polícia-família-escola. Se cada um fizer o seu papel, as chances do adolescente são grandes. Mas, às vezes, um dos lados não consegue cumprir. Isso ocorre, por exemplo, quando o menor de idade está inserido em uma família completamente desestruturada, observa o assessor de comunicação do 27º Batalhão da Polícia Militar, tenente Flávio Luiz de Campos.
No ambiente escolar, o psicoterapeuta especializado em dependências químicas Dionísio Banaszewski defende que as instituições adotem programas específicos, com profissionais habilitados, em vez de apenas sobrecarregarem mais os educadores. O professor é um coadjuvante importante, mas não pode ser responsabilizado pelo desenvolvimento de ações, como palestras com apresentação de conteúdos de combate ao uso de álcool e drogas.








