Degradação persiste em área de cracolândia

Só esta semana foram pelo menos três casos de arrombamentos
Mesmo depois da demolição do complexo de lojas abandonadas no quarteirão compreendido entre as ruas Benjamin Constant e José Calil Ahouagi, no Centro, há quase dois meses, a insegurança persiste na área que ficou conhecida como cracolândia. Só esta semana foram pelo menos três casos de arrombamentos nos poucos estabelecimentos comerciais que restaram do conjunto de imóveis. Uma das lojas teve prejuízo estimado em R$ 30 mil. Com a onda de furtos, a Tribuna voltou à área para acompanhar a rotina e constatou que não houve mudanças. O movimento de usuários de drogas e do tráfico também continua a todo vapor. Mesmo não tendo escombros para se esconder, os dependentes não se intimidam em usar o entorpecente na calçada, entre os carros, na linha férrea, sob as árvores ou acessam o terreno nas dependências do clube Tupi. Até produtos supostamente furtados estão sendo comercializados entre os frequentadores.
Comerciantes que permaneceram no local por conta da vigência do contrato de locação ou em razão de demanda judicial pensam em desocupar totalmente a área. "Não dá para ficar mais. Eu estou com meu contrato e pagamento em dia, mas quem ficou está sendo lesado, furtado, desrespeitado. Não há segurança, e, mesmo que murem a área, não vai adiantar, vão continuar fazendo buracos no muro. Estamos sendo praticamente obrigados a sair", relatou um empresário de 42 anos que nessa quarta-feira (16) já desmontava parte da estrutura da loja.
O proprietário da loja de escapamento vizinha foi quem teve o prejuízo de cerca de R$ 30 mil em equipamentos furtados no fim de semana. Segundo um dos responsáveis, o ladrão teria entrado pela parte alta do imóvel, protegida por grade. "Levaram várias coisas, como ferramentas e óleos caros, notebook e monitor de computador. Essa foi a quarta vez que entraram aqui. Uma foi pelo telhado, outra pela janela e duas pela grade. A Benjamin acabou. Acho que, no mais tardar, em dezembro ou janeiro vamos embora", comentou o soldador, 25.
Uma outra vítima dos ladrões foi o proprietário de uma loja de sons automotivos, 48. Por duas manhãs seguidas, ele foi surpreendido por um buraco feito na parede lateral de seu estabelecimento. Nessa quarta-feira ele não constatou furtos, mas, na manhã de terça-feira, verificou que tinham levado um aparelho de som de carro e um aspirador de pó.
"Hoje (quarta-feira), fizeram o buraco um pouco acima do primeiro. Desse jeito, vou acabar aprendendo o serviço de pedreiro", brincou o comerciante, enquanto cobria a abertura. Apesar do bom humor, a vítima revelou estar apreensiva. "Pude continuar aqui porque sempre paguei o aluguel em dia. Os outros imóveis, que foram demolidos, estavam abandonados. Achamos que a segurança iria melhorar depois da demolição, mas a criminalidade continua nessa área. Não posso deixar nada de valor aqui."
A expectativa é de que o cercamento da área minimize os danos. "Já nem sei se vai adiantar, mas fica um pouco mais seguro", acreditou um comerciante, 32. Nessa quarta-feira, homens contratados pelo proprietário do terreno iniciaram a instalação de estacas na Rua José Cali Ahouagi. "Vamos cercar a área toda com mourões e cerca de aço galvanizado. Acredito que até semana que vem o trabalho esteja finalizado", relatou o pedreiro Antônio Ferreira.
A Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) informou que a fiscalização esteve no local e intimou o proprietário a murar a área. Como o cercamento foi iniciado dentro do prazo, não chegou a ser autuado.
Só incursões policiais não resolvem
Nesa quarta-feira grupos de dependentes de drogas permaneciam sentados na Rua José Calil Ahouagi e se escondiam atrás dos carros e sob as árvores às margens da linha férrea para fazer uso de crack. Uma mulher se dirigiu para uma área mais escondida próxima à ferrovia para fazer uso do entorpecente. Quando a Tribuna estava no local, três militares de bicicleta passaram pela área e realizaram abordagens. O grupo se desfez, mas, depois de algum tempo, retornou aos mesmos postos.
Cerca de três semanas após a demolição, a PM também chegou a apreender drogas na região, demonstrando que o tráfico continuava na área. Na ocasião, policiais acharam às margens da linha férrea 70 papelotes de cocaína, 32 pedras de crack e cinco buchas de maconha. As drogas estavam em embalagens plásticas separadas, prontas para a venda. Ninguém foi preso.
Quem mora na região solicita ações mais efetivas para reverter o quadro de insegurança. "Hoje mesmo antes da 7h quase fui assaltada. Ficamos reféns. Outro dia uma pedestre levou um tiro aqui. A situação fugiu ao controle. A Polícia Militar até tem vindo com frequência, mas não adianta. Quando avistam os militares, cada um sai para um canto. A Polícia Civil nunca apareceu, só na semana passada, quando um homem foi atropelado pelo trem. O problema aqui não é só questão de polícia, é algo muito mais amplo, que deve ser solucionado pelo Poder Público", sugere uma moradora.








