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Desgaste em pontes revela abandono


Por EDUARDO VALENTE

17/02/2013 às 06h00

As pontes sobre o Rio Paraibuna, em Juiz de Fora, apresentam sinais de desgaste do tempo. A falta de manutenção, evidenciada por problemas estruturais, como vigas de aço expostas e crescimento de vegetação, foi observada em dez das 11 pontes visitadas pela Tribuna, entre os bairros Vila Ideal, na região Sudeste, e Jóquei Clube, na Zona Norte. A exceção é a Ponte Pedro Marques, no Manoel Honório, que passou por reformas recentes, junto com a reestruturação da Avenida Rio Branco. Segundo o professor de materiais de construção da Faculdade de Engenharia da UFJF, Pedro Kopschitz Xavier Bastos, especialista em estruturas de concreto armado, a vegetação nestes locais significa a presença de fissuras, já que raízes estão se desenvolvendo. O problema foi identificado nas pontes da Vila Ideal, onde o mato ocupa quase todo o passeio, e na estrutura da Rua Halfeld.

Outro problema considerado grave pelo engenheiro é a exposição do aço que, tecnicamente, deveria estar coberto pelo concreto. Isso ocorre porque, com a umidade, o material se expande até atingir a superfície. A Tribuna flagrou essa situação na ponte da Rua Benjamin Constant, no Centro, na Ponte Domingos Alves Pereira (de cor vermelha), em Santa Terezinha, e na do Bairro Jóquei Clube, de acesso à Remonta e à Represa João Penido. "Certamente, isso leva à corrosão. O aço também não pode aparecer em frestas no chão. Ele deve ser preenchido com material elástico para evitar infiltrações. Nos casos em que é visto (como na Benjamin Constant e Domingos Alves Pereira), significa que este tipo de material já está perdido." Conforme Pedro Kopschitz, a estrutura de ponte, em concreto armado, é construída para durar cerca de 50 anos sem intervenção, salvo em ocasiões de necessidades específicas. "O concreto de 90 anos atrás (como na Ponte da Rua Halfeld, da década de 1920) já está desgastado e pode causar problemas, se não houver manutenção."

A necessidade de manutenção é reforçada pelo também engenheiro Paulo Roberto Miana, que leciona disciplina sobre pontes na UFJF. Segundo ele, as estruturas da cidade não apresentam falhas graves, mas necessitam de manutenção periódica para corrigir problemas, como os mencionados pelo professor Kopschitz.

Opinião semelhante tem o presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon), o engenheiro civil Leomar Delgado. Segundo ele, "a manutenção periódica é fundamental para qualquer tipo de obra". No caso de pontes antigas, com 40, 50 ou 60 anos de existência, o profissional argumenta que se fazem necessárias uma revisão e uma análise concreta da situação. "É preciso entender que as estruturas não são eternas. A avaliação é importante para evitar que falhas simples se transformem em problemas grandes e caros." O ideal, conforme Delgado, é que esta análise ocorra uma vez por ano.

A Tribuna buscou informações acerca das pontes sobre o Rio Paraibuna e descobriu a data de inauguração de sete delas. Dessas, uma é da década de 1920, quatro de 1930 e uma de 1990. A mais recente, Domingos Alves Pereira, em Santa Terezinha, foi inaugurada em 2002.

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Em todo o Brasil

De acordo com engenheiros membros da Associação Brasileira de Pontes e Estruturas (ABPE), a situação identificada não é exclusiva de Juiz de Fora, sendo realidade em várias partes do país. O engenheiro Carlos Alberto Siqueira, do Rio de Janeiro, afirma que "não há qualquer novidade nas constatações de que as pontes estão entregues à mera sorte". Segundo ele, faltam programas públicos de recuperação das estruturas, seja no âmbito municipal, estadual ou federal, embora haja recomendações internacionais de que sejam aplicados 2% do valor da obra em vistoria e manutenção.

Já o especialista Gilson Marchesini, de São Paulo, afirma que a situação de Juiz de Fora deve ser analisada, pois muitas das estruturas têm mais de 60 anos. Tendo como base o Código Modelo (da Federação Internacional do Concreto), o engenheiro diz que as pontes "cumpriram e ultrapassaram galhardamente suas vidas úteis, cabendo agora estudos aprofundados para comparar os custos de adequação estrutural dessas obras às normas atuais, de modo a conferir-lhes uma vida útil residual consistente". Ele pondera que cada caso deve ser analisado de forma independente, para que as decisões sejam corretas e equilibradas.

Pintura precária, pisos e muros quebrados

Entre todas as pontes visitadas, além das falhas estruturais, foram identificadas outras que comprovam ausência de manutenção periódica. Os problemas mais comuns encontrados foram pisos e muros quebrados, pintura precária, monumentos depredados, fios de energia expostos e ausência de acessibilidade para pessoas com deficiência física, como rampas. Em regiões mais afastadas da área central, a falta de segurança mínima coloca motoristas e pedestres em risco. No Jóquei Clube, Zona Norte, por exemplo, a estrutura de acesso ao Bairro Remonta tem apenas uma pista de rolamento. Por isso, quando há carros em ambos os sentidos, um deles deve aguardar para seguir viagem. Para os pedestres, não há segurança na travessia. As calçadas estreitas estão com muros quebrados.

Na Ponte Ernane de Andrade Santos, Bairro de Lourdes, Zona Sudeste, o muro de proteção está quebrado, sendo substituído por tocos de madeira. O dispositivo de segurança também é falho na Ponte do Ladeira. "Pior para os idosos, como eu. Tenho medo de cair no asfalto e ser atropelado. Como as calçadas são estreitas e as pessoas estão sempre com pressa, os empurrões são inevitáveis", disse o aposentado José Caetano Soares, 72 anos. Ainda na Ponte do Ladeira, chama a atenção a falta de manutenção na pintura. Segundo o engenheiro civil Leomar Delgado, este problema não é apenas estético, já que as pinturas funcionam como impermeabilizantes, sendo importantes para evitar infiltrações.

De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Obras, ainda não é possível fazer uma avaliação sobre os problemas identificados, já que a nova gestão ainda está tomando conhecimento das demandas necessárias. A assessoria informou que está elaborando uma lista com as prioridades, e a questão das pontes, apontada pela Tribuna, será colocada neste relatório. O objetivo é criar um cronograma de trabalho, com definição de prazos para realização.

Conforme o site da Prefeitura, o último trabalho de revitalização das pontes foi realizado em janeiro de 2009, em sete estruturas, entre os bairros Poço Rico e Santa Terezinha. Na época, foi realizada a execução de pequenos reparos e pintura geral, além de nova iluminação. Na Ponte do Ladeira, por exemplo, foram construídos pilares para fixação das luzes, mas este trabalho não teve prosseguimento.

 

Papel de integração negligenciado

Sujeiras, pintura velha e pichações também são cenários comuns nas pontes de Juiz de Fora sobre o Rio Paraibuna. Tais situações contribuem para deixar as estruturas com aspecto precário. "Moro no São Bernardo e, para chegar à minha casa, passo a pé todas as noites pela ponte da Carlos Otto (Ponte Antônio Carlos). Sinto medo, porque os sinais de abandono parecem atrair a presença de moradores de rua e usuários de drogas. É uma vergonha para Juiz de Fora", lamenta o auxiliar administrativo Emerson Lima, 34 anos.

Na opinião do arquiteto Marcos Olender, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), núcleo Juiz de Fora, as pontes deveriam ser cuidadas, porque ajudam a contar a história do próprio município. "As pontes tiveram papel fundamental para integrar os dois lados da cidade, que antes eram divididos pelo Rio Paraibuna. Além da importância para a própria mobilidade urbana."

Para Olender, a reforma das estruturas seria importante não apenas para mantê-las seguras como também para conservá-las do ponto de vista paisagístico. "Elas retratam o desenvolvimento do município. Precisamos valorizar e manter essas pontes."