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Coleta noturna prejudica atuação dos catadores


Por MICHELE MEIRELES

16/12/2012 às 07h00

A ampliação da rota da coleta de lixo no horário noturno tem trazido dificuldades para os trabalhadores que sobrevivem dos recicláveis, e muitos têm deixado a ocupação por falta de condições de atuar neste período. Hoje o recolhimento é realizado à noite em 119 bairros de Juiz de Fora, o que corresponde a 39% dos trabalhos. O Demlurb iniciou a implantação da coleta a partir das 18h em 2011. Desde então, de acordo com a Associação Municipal dos Catadores de Materiais Recicláveis e Reaproveitáveis de Juiz de Fora (Ascajuf), começou a haver uma queda nesta mão de obra. Muita gente tinha a coleta dos recicláveis como única fonte de renda. Além disso, muitos estão indo para o mundo das drogas. A situação é crítica, desabafou a presidente da Ascajuf, Janaína Aparecida da Silva. A presidente pontua que a redução da atividade teve seu pico neste ano. Em 2010, somente na Ascajuf, havia 40 cooperados, hoje são 22, divididos em três núcleos, ou seja, uma queda de 45%.

Um dos que permaneceram e afirma enfrentar dificuldades é Wendel Coelho. Há 17 anos, ele sobrevive da renda que obtém do lixo. À noite, fica muito difícil, os caminhões recolhem as caçambas muito rápido, sem contar com a chuva, que, nesta época, sempre cai durante a noite. Na semana passada, adoeci depois de trabalhar debaixo d’agua. Segundo Wendel, ele conseguia recolher seis sacos, que comportam cerca de 30kg diariamente. Hoje não chegam a quatro. Passo dificuldade, reclama.

Para as mulheres que desempenham a função, o quadro é ainda mais crítico. Elas temem a violência, que, na avaliação delas, fica mais latente quando escurece. Vera Lúcia Augusto do Nascimento de Assis é catadora há 21 anos. Criou seus sete filhos com a renda que conseguia vendendo os recicláveis. Agora, diz que depende de doações para sobreviver. Tenho medo. À noite, tudo é mais difícil e perigoso. Não tem ninguém para olhar por nós, será que não tem lei para isso? Ela conta que conseguia juntar 15 sacos por dia, agora, recolhe apenas cinco.

Enfrentando o medo e os perigos todos os dias, para continuar no trabalho, ela ainda depende da ajuda da mãe, dona Olívia Augusto, que tem 96 anos. Enquanto ela recolhe os materiais, a idosa vigia o carrinho. É muito sacrificado, mas ela tem que ir comigo, senão eles (assaltantes) roubam, e eu tenho que pagar outro carrinho para a associação.

Durante a abordagem da Tribuna, a mãe da catadora, que carrega o peso da idade, não aguenta ficar de pé por muito tempo, e logo pede que a filha traga uma cadeira para continuar a entrevista. À noite, é hora de dormir. Como precisamos, tenho que ajudar minha filha, lamenta a idosa.

O aposentado José Elias, 75, não é associado a nenhuma entidade, mas retira das ruas o sustento da família. O idoso diz que vive dos recicláveis desde que perdeu o emprego e não conseguiu outra colocação no mercado de trabalho há cerca de dez anos. Ele explica que recolhia o lixo em vários bairros e que, por não ter um local fixo, sua situação ficou difícil com a ampliação da coleta noturna. Alimento meus netos e minha esposa com este dinheiro. Hoje não consigo nem um salário mínimo por mês. Não sei o que será da gente, com a minha idade, não consigo outro emprego.

Na Associação dos Catadores de Papéis e Resíduos Sólidos de Juiz de Fora (Apares), a rotina não foi alterada. Segundo a presidente da entidade, Flávia Helena Dias da Silva, os 17 associados são divididos por grupos de trabalho, 16 deles já trabalhavam no horário noturno. Mas a única a realizar o trabalho diurno, a catadora Marlene Santos, 52, que atua no ramo há 12 anos, reclama da mudança. Ela afirma que separava cerca de 70kg de materiais por semana. Com a troca de turno da coleta, recolhe, no máximo, 50kg. A maioria do que recolho são de pessoas que continuam juntando o material para mim. Nas ruas ficou difícil. Marlene conta que a queixa é comum aos outros trabalhadores, principalmente por parte das mulheres. A maioria tem família, e, a noite, é o horário que têm para cuidar das tarefas domésticas. Sem contar, que ficamos com medo, e as ruas ficam vazias e perigosas.

Quadro ‘lamentável’

A advogada ambientalista Ilva Lasmar vê o quadro como lamentável e avalia a situação como um retrocesso na implementação do Plano Municipal de Resíduos Sólidos. A coleta seletiva em Juiz de Fora é precária, e estes trabalhadores dão um auxílio extraordinário para o meio ambiente, retirando as matérias que têm maior dificuldade de decomposição. Ela aponta ainda o viés social do problema: Está tirando a renda de muitas família, finaliza.

Mudança é considerada irreversível

Segundo o diretor de operações do Demlurb, Paulo Antônio Delgado, as apostas do órgão ao instituir a mudança, era otimizar e dar qualidade ao serviço. Pelos resultados obtidos, segundo ele, não é possível retornar à coleta para o período diurno. Estamos tendo uma avaliação muito positiva. A mudança é irreversível. Estamos trabalhando para o bem da coletividade.

Uma das queixas dos catadores é que eles têm pouco tempo para separar os materiais durante a noite e que, antes, as caçambas ficavam mais tempo na rua. Em resposta a este questionamento, Paulo Delgado afirma que não é possível esperar por eles. Reconhecemos a importância do trabalho deles para o município, mas não podemos trabalhar em função deles.

A direção da Ascajuf afirma que a entidade recolhia 30 toneladas de materiais por mês e que, agora, o volume caiu para oito. Sobre isso, o diretor de operações afirma que não foi notado aumento no volume de lixo retirado das ruas pelo Demlurb. O percentual de aumento é natural, a cidade vem crescendo muito. Até por isso as rotas foram redimensionadas. O volume recolhido por eles não interfere a ponto de a gente sentir. De acordo com Delgado, o maior volume de detritos é recolhido no Centro, onde a coleta sempre foi feita durante a noite.

Adequação

O Demlurb vem trabalhando em parceria com a Ascajuf, investindo recursos na Usina de Reciclagem. Os catadores devem procurar a associação e ir até a usina. Com isso, conseguiriam uma produção maior e um local melhor para trabalharem. Hoje eles não dão conta de separar a quantidade que levamos para lá, conclui Paulo Delgado.

Segundo levantamento da Secretaria de Assistência Social (SAS), a cidade tem cerca de 118 catadores, sendo 34 cadastrados na pasta. A chefe do Departamento de Proteção Especial, Maria das Dores Barbosa Novaes, reconhece a fragilidade do grupo, mas afirma que eles são uma preocupação constante da atual Administração Municipal. A mudança pode ter trazido transtorno para alguns, mas é importante que eles busquem se associar para terem melhores condições de trabalho. Ela ressaltou ainda que os catadores podem procurar a secretaria para se cadastrarem. Entre os benefícios cedidos, está o almoço sem custo no Restaurante Popular.